Vírus da febre amarela tem mutação genética inédita, diz Fiocruz

Do UOL, em São Paulo

  • Mastrangelo Reino-10.nov.2016/Folhapress

    Técnico manipula vacina contra a febre amarela em Ribeirão Preto (SP)

    Técnico manipula vacina contra a febre amarela em Ribeirão Preto (SP)

O vírus responsável pelo atual surto de febre amarela no Brasil tem variações genéticas inéditas, afirmaram pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Foram detectadas oito mutações na sequência genéticas, sendo sete delas associadas ao mecanismo de replicação viral. Não há registro anterior dessas mutações na literatura científica mundial, de acordo com a instituição.

Para a equipe de cientistas que participou da pesquisa, a vacina disponível no Brasil é eficaz contra os diferentes genótipos do vírus. Além disso, as alterações detectadas no estudo não fizeram com que o envelope do vírus, que é o que o anticorpo criado pela vacina reconhece, fosse afetado.

Os microrganismos analisados pertencem ao subtipo genético conhecido como linhagem Sul Americana 1E, que desde 2008 é predominante no Brasil. 

Importância dos macacos

A descoberta se deu com a análise dos primeiros sequenciamentos completos do genoma do vírus, realizada a partir de amostras de macacos bugios do Espírito Santo, mortos em fevereiro deste ano. A análise de mosquitos, também coletados no Espírito Santo, e de um macaco morto no Rio de Janeiro, cujos dados não foram divulgados, também apontam os mesmos resultados, diz a instituição.

"Os bugios são especialmente importantes nas investigações sobre a febre amarela por serem considerados 'sentinelas'. Como são muito vulneráveis ao vírus, estão entre os primeiros a morrer quando afetados pela doença. Além disso, esses animais amplificam eficientemente o vírus em seu organismo, favorecendo a infecção de mosquitos que habitam as matas e a disseminação da transmissão silvestre, na qual os seres humanos são infectados acidentalmente. Por isso, sua morte dispara um alerta para a possível presença do vírus em uma localidade", afirma Ricardo Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz.

O estudo foi realizado por pesquisadores do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus e do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz e os resultados das análises foram divulgados na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

Ainda há dúvidas sobre prevalência do vírus mutante

Sobre a relação da mutação genética com o atual surto de febre amarela que ocorre no país, os pesquisadores afirmam que novos estudos ainda devem ser feitos para que isso seja detalhado. 

"Ainda não sabemos se esse vírus é predominante no atual surto", afirma Lourenço. "Nesse momento, estamos buscando amostras de genoma do vírus da febre amarela oriundas de diferentes hospedeiros, incluindo seres humanos, macacos e mosquitos, e de diversificadas origens geográficas --especialmente no Sudeste do Brasil, onde a epidemia tem sido mais intensa-- para compreender melhor esse fenômeno".

Os resultados da pesquisa foram encaminhados pela presidência da Fiocruz ao Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, do Ministério da Saúde, bem como à comunidade internacional, incluindo Itália, Estados Unidos e Inglaterra.

País vive surto de febre amarela

A febre amarela pode incluir sintomas como icterícia, febre alta e falhas de múltiplos órgãos. A doença, normalmente encontrada em partes da bacia Amazônica, infectou pessoas nos Estados mais populosos do país: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

De acordo com o Ministério da Saúde, foram notificados, no período de dezembro de 2016 até 17 de março de 2017, 1.561 casos suspeitos de febre amarela silvestre. Destes casos, 850 (54,8%) permanecem em investigação, ao passo que 448 (28,7%) foram confirmados.

Chega a 70 o número de mortes por febre amarela no ES

 

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