Topo

Nem sempre é a memória: Alzheimer afeta visão, linguagem e motivação

iStock
Metade dos pacientes com Alzheimer pode não ter problemas de memória no início da doença Imagem: iStock

Cristiane Capuchinho

Do UOL, em Porto Alegre

2017-06-19T04:00:00

19/06/2017 04h00

O mal de Alzheimer costuma ser associado a momentos de falta de memória, no entanto, nem sempre a memória é prejudicada no início da doença. Os sintomas podem se manifestar em problemas na linguagem, desorientação espacial ou mesmo falta de motivação, alerta Marek-Marsel Mesulam, diretor de neurologia cognitiva da Universidade de Northwestern.

A descoberta muda o diagnóstico clássico da doença, que afeta mais de um milhão de pessoas no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Uma boa memória passa a não ser suficiente para descartar o Alzheimer como doença possível em seus primeiros sintomas.

"Há uma tendência de achar que Alzheimer é uma doença da memória que atinge os mais velhos, mas na verdade há diferentes tipos de Alzheimer", afirma Mesulam. "Algumas vezes a memória é o maior problema, mas não é sempre."

O neurologista norte-americano explica que são quatro os tipos de Alzheimer diagnosticados entre os 40 e 70 anos. Um deles afeta principalmente a memória, e é o tipo mais conhecido. No entanto, em outras três formas, o paciente pode não ter qualquer sintoma de falta de memória no início da doença.

O sintoma principal pode ser a afasia, quando a pessoa não encontra as palavras sistematicamente na hora de se expressar. Em outro tipo, há uma acentuada perda de motivação em atividades pelas quais a pessoa costumava se interessar ou por pessoas de seu círculo social, ou ainda elas estão fazendo coisas inapropriadas --"comprando demais, comendo demais".

Em uma quarta forma da doença, os primeiros sintomas aparecem com dificuldades de orientação.

O paciente não encontra as coisas, em casos mais dramáticos não veem os objetos mesmo quando estão à sua frente, parece que ele está sempre olhando para o lugar errado. Às vezes, o paciente não consegue fazer a cama por não achar a orientação correta do lençol."

M-Marcel Mesulam, pesquisador

Mudança no diagnóstico, alteração no tratamento

A importância desse novo olhar é a busca de um diagnóstico precoce correto --quanto mais cedo o diagnóstico, antes é possível começar o tratamento que retarda a doença, tendo em vista que ainda não há cura.

Segundo o pesquisador, a doença já está presente no cérebro dos pacientes muitos anos antes dos primeiros sintomas.

"É importante saber que se nem todo Alzheimer é igual, os tratamentos psicossociais devem ser diferentes", lembra Mesulam. A terapia usada para pessoas com problemas graves de memória não vai funcionar para um paciente que tenha problemas de linguagem, por exemplo.

A predominância dos tipos de Alzheimer que não têm a memória como sintoma principal pode chegar a metade dos casos entre pacientes de 40 a 70 anos, estima o pesquisador norte-americano.

O quadro foi apresentado no Congresso Mundial de Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu em Porto Alegre.

Em relação aos medicamentos, Mesulam diz que, teoricamente, as drogas devem funcionar para todos os tipos. No entanto, são necessários estudos específicos.

Getty Images
Imagem: Getty Images

Envelhecimento da população acende alerta

Em 2010, o Brasil tinha 19,6 milhões de idosos (10% da população brasileira). A estimativa do IBGE é de que essa população triplique até 2050, chegando a 66,5 milhões de pessoas.

A doença é mais comum conforme a idade avança. Em um estudo brasileiro de 2004, Ricardo Nitrini, professor da USP (Universidade de São Paulo), observou que, após os 65 anos, a taxa de demência dobra a cada 5 anos.

O Alzheimer é responsável por mais da metade dos casos de demência acima dos 65 anos, segundo o Ministério da Saúde.

Ainda pouco se sabe sobre como evitar o Alzheimer, no entanto, ao que parece, ter atividades desafiadoras para a mente aumenta o número de conexões criadas entre as células nervosas, e isso retarda os sintomas mais graves da doença.

* A jornalista viajou a convite do Instituto de Neurociências Integradas

Mais Ciência e Saúde