Após 75 anos, pesquisa aponta risco alto de volta da febre amarela urbana

André Carvalho

Do UOL, em São Paulo

  • Luis Robayo/AFP/Getty Images

Meses após o início do surto de febre amarela no Brasil, a doença pode estar perto de voltar a ser transmitidas em centros urbanos após 75 anos. Desde 1942, todos os casos da doença relatados no país são da forma silvestre, transmitida de animais para pessoas. 

O alerta é do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, que liderou um estudo em parceria com o Instituto Pasteur, da França, para chegar a tal conclusão --a pesquisa contou, ainda, com a colaboração do Instituto Evandro Chagas, no Pará. Os resultados foram publicados na revista Scientific Reports.

A pesquisa mostrou que mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, que são urbanos, têm grande capacidade de transmissão do vírus que circula no Brasil e na África. Os testes foram feitos em laboratórios com mosquitos de Manaus, Goiânia e Rio de Janeiro.

No Rio, os cientistas mediram a eficiência de mosquitos urbanos e silvestres na transmissão do vírus, avaliando os insetos fluminenses das espécies Aedes aegypti, Aedes albopictus, Haemagogus leocucelaenus e Sabethes albipirvus. Observou-se, então, que eles são altamente suscetíveis à doença.

Entre os vetores urbanos brasileiros, os Aedes aegypti do Rio de Janeiro apresentaram o maior potencial para disseminar a febre amarela, com com mais de 10% dos mosquitos apresentando partículas virais infectantes na saliva 14 dias após a alimentação, independentemente da linhagem viral considerada.

A competência vetorial dos mosquitos Aedes também foi verificada em Manaus e, em menor grau, em Goiânia --a capacidade de transmissão dos insetos foi medida pela presença de partículas virais infectantes na saliva dos insetos após a ingestão do sangue com vírus.

Risco de epidemia é "grande"

Para Ricardo Lourenço de Oliveira, chefe do laboratório de mosquitos transmissores de hematozoários, o risco de uma epidemia de febre amarela "é grande".

Ele explica que o Rio de Janeiro e outras áreas litorâneas do Sudeste, como o Espírito Santo, estão mais suscetíveis à epidemia do que áreas amazônicas, onde a febre amarela é endêmica, ou no cerrado, onde há uma emergência cíclica da febre amarela, por que nestes lugares a maior parte da população já está vacinada, fato que ainda não ocorre no Rio.

Lourenço afirma que o caminho a ser seguido é a vacinação contra a febre amarela nas áreas de risco, como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, além da eliminação de criadouros de Aedes aegypti das casas "para evitar não só a transmissão da febre amarela, que é uma epidemia que é eminente, como também dengue, zika e chikunguya".

Ele explica que foram analisados tanto mosquitos silvestres, como domésticos e peri-urbanos (locais onde as áreas urbanas e rurais se misturam). Além disso, foram levadas em consideração linhagens do vírus que circulam ou já circularam no país, além de outra que veio da África, "caso algum visitante infectado venha de lá".

"Vimos, para o nosso susto, que é possível iniciar o ciclo numa área urbana, com uma população desprotegida, como é essa faixa litorânea", diz.

Lourenço explica que um indivíduo pode ter ido para a floresta e ser picado por um mosquito silvestre. "Então vamos para a nossa casa e lá tem Aedes aegypti em fartura. Ele pode começar a transmitir para outras pessoas. Aí vai haver uma epidemia como a de zika, dengue e chikunguya".

Outra possibilidade, diz Lourenço, é o Aedes albopictus picar animais que vêm até a borda da mata, como macacos, e depois picar pessoas nos domicílios. "Aí pode acontecer a mesma coisa: a pessoa, em sua casa, começar a ser picado pelo Aedes aegypti e transmitir para sua família".

 

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