Jovem que teve gaze esquecida em cesárea será indenizada em R$ 300 mil

Jéssica Nascimento

Colaboração para o UOL, em Brasília

A Justiça condenou o governo do Distrito Federal a pagar R$ 300 mil de danos morais e estéticos para uma paciente, que após ser submetida a uma cesárea em um hospital público, teve uma gaze de 15 cm esquecida dentro do abdômen por mais de cem dias.

Após o erro médico no hospital público, a auxiliar financeira Maria Jeocasta Paiva, 29, conta ter tido muitas dores e ficou com sequelas. Em um procedimento para retirada do objeto, ela perdeu parte do intestino grosso, sendo obrigada a utilizar bolsa de colostomia. O governo vai recorrer da decisão judicial. 

O caso ocorreu em maio de 2015, no Hran (Hospital Regional da Asa Norte). Na época, Maria tinha 27 anos e deu à luz ao terceiro filho. Porém, nunca havia feito uma cesariana. 

Um dia após a cesariana, a auxiliar financeira conta que já sentia fortes dores na barriga.

No dia seguinte, eu já estava passando mal. Mesmo assim, a obstetra disse que eram gases e que eu teria que andar para aliviar essas dores. Era muito forte, quase não conseguia me levantar. Como era a primeira cesárea, achei que a médica estava certa."

Segundo a mulher, a gaze foi encontrada mais de cem dias após o parto, em um exame de imagem. No processo, o GDF negou a dinâmica dos fatos e defendeu a improcedência dos pedidos da paciente.

Acervo pessoal
Após o erro, Maria Jeocasta teve que usar bolsa de colostomia por meses

Para Maria, a alegação não é verdadeira, já que após o procedimento de retirada da gaze, a equipe de ginecologia do hospital contou o que havia acontecido.

Após ouvir testemunhas e analisar as provas, o juiz deixou consignado na sentença que o hospital deveria prestar bom atendimento ao público.

"Embora não se possa exigir de um hospital o imponderável, mas tão-somente que seus profissionais adotem todas as providências possíveis, no sentido de prestar um bom atendimento aos seus pacientes, isso não afasta, certamente, o dever de agir com a adoção de todos os cuidados necessário", diz um trecho da sentença.

Situação "humilhante"

Maria Jeocasta conta que quando recebeu alta da primeira cirurgia de retirada, em maio de 2015, percebeu que a situação era grave. Ela estava com uma bolsa de colostomia, precisava seguir uma dieta rigorosa e tinha medo de comer.

Acervo pessoal
Cicatriz na barriga de Maria Jeocasta após três cirurgias
"Pude perceber o sofrimento que eu iria passar. A situação era humilhante. Meu refúgio era o banheiro, passava horas por lá", desabafou. A mulher voltou a trabalhar ainda com a bolsa de colostomia, após um mês e vinte dias de cirurgia. "Era de constrangimento mesmo."

Já no segundo procedimento, em outubro de 2015, foi retirada a bolsa de colostomia, mas a recuperação foi mais longa. Maria ainda ficou durante um tempo sem ingerir comidas sólidas e com visitas periódicas ao hospital.

"Sinto que envelheci cinco anos em apenas um. Um sentimento que não consigo explicar. Sei apenas que estou muito indignada." 

Na decisão, o juiz concedeu indenização de R$ 200 mil por danos morais e R$ 100 mil por danos estéticos. Além da quantia em dinheiro, o GDF também deverá pagar o custeio total de uma cirurgia reparadora.

Procurada, a Procuradoria-Geral do DF disse que não iria se manifestar. Apenas enviou uma nota onde informou que vai recorrer da decisão do Tribunal de Justiça.

O Conselho Regional de Medicina garantiu que vai investigar  a situação. 

Para Maria, o próximo passo é fazer com o que a situação não tenha sido vivida em vão. "Eu sofri, meus filhos sofreram, por um erro, que se formos analisar, seria um descuido bobo. Afinal, era só recontar as compressas. Quase morri.''

 

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