Por que médicos brasileiros querem mudar as regras do futebol?

André Carvalho

Do UOL, em São Paulo

  • REUTERS/Ricardo Moraes

    Flamenguista Mancuello se choca com jogador do San Lorenzo, e sofre concussão; atleta ficou inconsciente após a pancada e deixou a partida

    Flamenguista Mancuello se choca com jogador do San Lorenzo, e sofre concussão; atleta ficou inconsciente após a pancada e deixou a partida

Era o dia mais importante da carreira do jogador de futebol alemão Christoph Kramer, que jogaria pela sua seleção na final da Copa do Mundo de 2014, disputada no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Uma pancada na cabeça, em um choque com o adversário argentino, no entanto, fez com que ele tivesse que ser substituído. Até hoje, ele não se lembra bem do que se passou naquela tarde de inverno carioca.

Kramer é mais um jogador de futebol a ter uma concussão cerebral, um tipo de lesão que ocorre quando o indivíduo recebe uma pancada na cabeça e tem uma perda de consciência.

AP Photo/Themba Hadebe
O alemão Christoph Kramer teve uma concussão cerebral durante a final da Copa 2014
É pensando na integridade física destes profissionais que médicos brasileiros querem mudar a regra do esporte: a ideia é que a equipe que teve um um atleta vítima de concussão durante uma partida possa realizar uma substituição temporária para que não fique com um jogador a menos enquanto o jogador recebe tratamento médico.

Caso a proposta seja adotada, não será a primeira vez que um esporte tem as regras alteradas por conta da ocorrência de casos de concussão. A NFL (liga profissional de futebol americano dos EUA) já mudou regras do futebol americano para tentar diminuir os frequentes choques na cabeça sofrido por atletas --as mudanças ocorreram após a entidade ser acusada de negligenciar a relação entre o risco de lesões cerebrais com a prática do esporte.

No futebol, as regras do esporte permitem que um jogador que tenha recebido uma pancada na cabeça possa ser atendido por um médico por três minutos, período em que a partida fica interrompida. No caso de o atendimento se estender, o árbitro não precisa se limitar a este tempo protocolar, devendo autorizar o médico a se manter em campo além desses três minutos.

A regra foi aprovada pela International Board, órgão que formula as regras do futebol, em setembro de 2014, após a Copa do Mundo. 

No torneio, além do caso do volante alemão na final, outra partida ficou marcada por um caso de concussão: na disputa com a Inglaterra, o uruguaio Álvaro Pereira foi a nocaute com uma joelhada involuntária do adversário, permanecendo em campo ao se recuperar, a despeito do pedido de substituição do médico do Uruguai.

Para o neurocirurgião Jorge Pagura, presidente da Comissão Nacional de Médicos de Futebol, da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), os três minutos que os médicos 'ganharam' para atender jogadores com suspeita de concussão ainda não é o ideal.

Pagura, agora, junto a outros médicos de futebol, busca dar um passo além: "vamos fazer um projeto para o ano que vem para, pelo menos nos campeonatos feminino e de base, que é onde a gente pode fazer os testes, testar essa substituição temporária de 10 minutos e ver como isso se comporta".

O médico afirma que já é certo que isto ocorrerá nos campeonatos femininos e que já existe a discussão para ver em quais campeonatos de base a nova regra também será testada.

"O que não podemos é fechar os olhos", diz Pagura. "Estamos escancarando, e não escondendo este problema".

O passo seguinte, após a realização destes testes, é submeter a proposta a International Board para que ela se torne, de maneira definitiva uma regra do esporte.

O que é concussão cerebral?

Quando um indivíduo recebe uma pancada na cabeça, este trauma pode fazer com que células cerebrais sejam danificadas, provocando um desequilíbrio químico no cérebro.

Pelo fato de os danos serem microscópicos e, portanto, "invisíveis", muitas vezes os atletas que sofrem batidas na cabeça acabam voltando a campo para que o time não fique com um jogador a menos. Ao buscar não prejudicar o time, o atleta, no entanto, fica sujeito a sofrer graves problemas neurológicos no futuro.

De acordo com o livro "Concussão cerebral – mais que uma pancada na cabeça!", escrito por Pagura e pelo neurologista Renato Abghinah, a concussão é um "evento comum", que anualmente afeta 128 pessoas em cada grupo de 100 mil pessoas.

Levantamento realizado pela CBF referente à Serie A (primeira divisão do futebol profissional masculino) de 2016, com base em dados relatados pelos médicos dos vinte clubes que disputaram a competição, aponta que lesões na cabeça foram a segunda pancada mais comum durante o torneio, com 9,69%, atrás apenas das lesões na coxa (42,4%). Em 11 casos, foram relatadas concussões no Brasileirão-2016.

Por ser uma lesão 'invisível', os atletas, tão logo recuperam a consciência, já querem voltar a campo para continuar jogando. Um jogador que faz isso, no entanto, "volta sem as funções cerebrais importantes para a prática de futebol", diz Pagura, citando o tempo de reação, a atenção alternada, e o campo visual.

'Demência de futebolista'

Acervo UH/Folhapress
Foto de 1961 mostra curativo, com fio de sangue, no rosto de Bellini quando o ex-capitão da seleção jogava pelo Vasco

O resultado pode ser ainda mais grave a longo prazo. Capitão da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, o zagueiro Bellini tinha entre suas principais habilidades o cabeceio. Em fevereiro deste ano, pesquisa da Academia Americana de Neurologia concluiu que cabecear bolas de futebol repetidamente pode ocasionar concussões e até lesões neurais mais graves.

E foi de tanto cabeçear 'tijolo' que o ex-zagueiro desenvolveu ETC (encefalopatia traumática crônica), uma doença degenerativa em que o trauma craniano repetitivo está implicado como principal fator causador da doença.

Por acometer lutadores e atletas de esportes violentos, a doença foi conhecida, por décadas, como 'demência de pugilista'. 

A incidência desta doença é alta em jogadores de futebol americano e, por muito tempo, a NFL foi acusada de minimizar a relação da prática do esporte com o desenvolvimento do ETC em ex-jogadores --somente em 2016  a liga reconheceu ligação entre distúrbios cerebrais degenerativos e o esporte.

Estudo recente da Universidade de Boston, que analisou o cérebro de ex-jogadores de futebol americano, amadores e profissionais, revelou que, quanto mais tempo os atletas praticam o esporte, maior é o risco de desenvolver o ETC --e mais graves são os sintomas.

Naqueles que praticaram profissionalmente o esporte, 99% desenvolveram a doença (foram 110 casos em 111 cérebros analisados). Os pesquisadores ressaltam, porém, que o estudo não pode determinar quantas pessoas que praticam futebol americano desenvolvem ETC, já que a amostra não foi aleatória --os cérebros doados eram de pessoas que os familiares afirmaram que tinham sintomas da doença durante a vida.

Acúmulo de proteína liberada na pancada

O ETC está relacionado ao acúmulo no cérebro de uma proteína chamada tau, que é liberada no momento da pancada, quando ocorre o rompimento de neurônios –quanto mais traumas maior o depósito dessa proteína no cérebro.

Entre os sintomas do ETC estão a perda de memória, atenção e concentração, além de alterações de comportamento, como agitação, irritabilidade, depressão e agressividade.

Há, atualmente, um grupo, coordenado pelo neurologista Renato Anghinah, que estuda a relação entre a doença e o futebol, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Contando com o apoio da CBF e da FPF (Federação Paulista de Futebol), o estudo deverá ser concluído no final deste ano.

Neurologistas explicam como identificar uma concussão

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