Médicos no ES usam redes sociais para identificar diabéticos sem tratamento

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

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No consultório, o clínico ou enfermeiro pega o celular, tira uma foto do pé do paciente e envia para um grupo no WhatsApp. Quem recebe a imagem é uma equipe especializada em identificar lesões e alterações nos pés provocadas por diabetes. Em instantes vem a resposta, com orientações sobre o que fazer.

Com essa estratégia, as unidades públicas de saúde de Vila Velha (ES) conseguem identificar diabéticos sem tratamento e vêm reduzindo os quadros graves da doença. Médicos e enfermeiros das 18 UBSs da cidade participam das redes sociais do Propé. 

A foto do pé serve para identificar lesões e deformidades que caracterizam o chamado pé diabético, consequência da alta taxa de glicose no sangue. Sem cuidados, as lesões podem levar a infecções graves, necroses e necessidade de amputação.

No Brasil, há cerca de 18 milhões de pessoas com diabetes (8,9%). E uma estimativa da Federação Internacional do Diabetes indica que metade dos adultos diabéticos não sabe que tem a doença.

Há quem descubra ser diabético no momento da amputação."

Eliud Garcia Junior, coordenador do Programa de Proteção ao Pé Diabético

Identificar uma micose, uma ferida ou uma rachadura no pé pode ser como esbarrar na ponta de um iceberg.

"Quando o diabético tem lesão no pé, é sinal que já está com problemas renais, cardiovasculares, nos olhos", diz Garcia.

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Cortes, hematomas, feridas ou perda de sensibilidade no pé são sinais de pé diabético

9 em 10 casos está ligados a hábitos poucos saudáveis

Há dois tipos de diabetes, o tipo 1 é uma doença autoimune, que o indivíduo possui desde o nascimento e representa cerca de 10% dos casos. No entanto, a maioria dos casos (90%) é do tipo 2, que é adquirido ao longo da vida e está ligado a sedentarismo e a alimentação desequilibrada, e aparece em geral após os 40 anos. 

Silenciosa, o diabetes literalmente desliga sinais ao chegar nos pés. A neuropatia tira a sensibilidade natural da pele e dos músculos do membro. "Como não sente dor, o paciente não sabe quando está com algum problema", explica o cirurgião vascular Sérgio Belczak.

"Simples arranhões, cortes e até o uso de sapatos apertados podem ocasionar calos e inflamações que dão início aos ferimentos", conta o médico.

Bota levou à amputação

O industriário Reginaldo Teixeira, 65, não reparou que a bota que usava no trabalho estava causando machucados.

O uso da botina fez formar um calo no meu dedo mindinho do pé direito. Passei a fazer curativos em casa, mas criei entrada para bactéria. Até que fez necrose, ficou preto, e tive que amputar." 

O problema maior, contudo, estava no pé esquerdo, no qual também nada sentia.

"Brotou um olho vermelho, aflorou para parte externa. Peguei uma infecção e fiz quatro cirurgias para remoção da carne necrosada. Mas fica difícil o controle. A solução para [a infecção] não subir pela tíbia foi amputar o pé inteiro", diz Teixeira.

A amputação o livrou da infecção e serviu de alerta para uma mudança de hábitos, como rotina de exames, caminhadas e dieta equilibrada.

Belczak explica que os quadros graves do diabetes estão ligados principalmente à falta de diagnóstico ou de ações preventivas e ao atendimento médico pouco específico. 

"Uma vez na praia, por causa da perda de sensibilidade, não senti a areia quente e fiquei com uma vermelhidão no peito do dedão do pé direito. Minha esposa me ajudou a fotografar, e eu mandei a foto para a rede do Propé. Diagnosticaram que era queimadura e disseram qual medicamento usar", conta o paciente de Vila Velha. "É um médico virtual."

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O autoexame diário do pé é uma forma de prevenir feridas e problemas ligados ao agravamento da diabetes

Diagnóstico precoce reduz amputações

Segundo o Ministério da Saúde, a complicação mais frequente do diabetes é o pé diabético. Cerca de 20% das internações por diabetes devem-se a lesões nos membros inferiores e 85% das amputações não traumáticas são precedidas de feridas. Em 2016, foram realizadas 5.803 amputações em pacientes com diabetes.

O número de óbitos gira em torno de 58 mil pessoas por ano.

O diagnóstico tardio do diabetes, quando a doença já está avançada, se traduz em lotação de hospitais e custos para a saúde pública. O pé diabético é uma das causas mais comuns de internações prolongadas, que levam à ocupação de leitos em hospitais.

Em 2016 foram registradas 137,4 mil internações por agravos da doença no SUS, ao custo de R$ 92 milhões – dinheiro equivalente ao custeio de 28 cirurgias por dia durante um ano no Hospital do Câncer de Barretos.

É usando tecnologia acessível – aplicativos existentes em qualquer celular -- na porta de entrada do sistema de saúde que o Propé busca inovar e reduzir a tempo para ser atendido. 

"Se o diagnóstico é feito na UBS (Unidade Básica de Sáude), podemos identificar lesão em fase inicial ou até mesmo a perda da sensibilidade sem lesão. E podemos iniciar tratamento, orientação nutricional e controle metabólico", diz Eliud. Dados do Propé indicam que o programa, em funcionamento há 6 anos, reduziu o número de amputações em Vila Velha em 68%.

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