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Brasileiros procuram muito e pagam caro por vacina de febre amarela nos EUA

Marcos Brindicci/Reuters
Imagem: Marcos Brindicci/Reuters

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL, em Nova York

18/02/2018 04h00

Com dificuldade para conseguir a vacina contra a febre amarela, brasileiros que moram nos Estados Unidos têm viajado até a Flórida para se imunizar, de acordo com a maior rede de clínicas de medicina do viajante da América do Norte, a Passport Health.

O número de locais que oferecem o imunizante nos EUA foi reduzido de 4.000 para cerca de 250 em meados do ano passado, quando a produção em solo norte-americano foi interrompida. 

Se antes era possível tomar a vacina da febre amarela em grandes drogarias, clínicas pediátricas e mesmo consultórios pequenos, agora é preciso pesquisar no site do CDC para encontrar uma clínica especializada em medicina do viajante que ofereça o serviço. Em Miami, que é conhecida por contar com a maior comunidade, há apenas quatro clínicas listadas. Na cidade de Nova York, nove.

De acordo com as autoridades e a fabricante, não faltam vacinas para cobrir a demanda do país. No entanto, a falta de vacinação em áreas tropicais com a presença de mosquitos, como a Flórida, preocupa especialistas para o risco de que o vírus da febre amarela volte a circular nos Estados Unidos.

Com o surto de casos de febre amarela em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, brasileiros que moram no país buscam a vacinação na pressa --o Itamaraty estima que haja cerca de 1,3 milhão de brasileiros nos EUA. 

A vacina custa cerca de US$ 250 (cerca de R$ 823) por paciente. Uma família com quatro pessoas, portanto, precisa desembolsar US$ 1.000 (cerca de R$ 3.300).

Mesmo quem possui um plano de saúde precisa arcar com todo o custo, e algumas clínicas já avisam que as seguradoras podem não reembolsar os valores.

Paulo Whitaker/Reuters
Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Clínicas têm restrição para crianças

A PassportHealth, uma rede com 241 clínicas nos EUA, conta que, embora não tenha estatísticas sobre a nacionalidade dos clientes atendidos, notou que houve aumento do número de brasileiros em busca da vacina, em especial no Estado da Flórida. E informou que muitos desses pacientes são turistas, que vêm atrás da injeção e do certificado para poder seguir em cruzeiros para o Caribe, já que no Brasil está difícil conseguir.

A brasileira Ana Luísa Santos, que mora em Tampa e viaja para o Rio de Janeiro em março, conta que existe apenas uma clínica que oferece a imunização na cidade. “Por sorte, não é longe de casa, e consegui marcar para a semana seguinte”, diz. 

No local, recebeu toda a papelada. “Claro que a gente fica tenso, apreensivo, por se tratar de uma vacina com vírus vivo e atenuado”, comenta. Mas ela sabia que se tratava do mesmo produto usado nas clínicas particulares do Brasil.

Encontrar um local que aceite menores de 18 anos, por sinal, é mais difícil. Em Nova York, a reportagem telefonou para sete clínicas de medicina do viajante buscadas no Google, sendo que nem todas tinham a vacina e apenas três atendiam crianças. 

Somente uma clínica tinha horário disponível na mesma semana – nas outras era preciso esperar no mínimo 15 dias. Para conseguir o “encaixe”, a clínica informou que não seria possível se consultar com o médico responsável, por isso solicitou uma autorização do médico ou do pediatra da família. Mesmo assim, o valor cobrado também seria US$ 250 por pessoa.

Marina Cereja, que está em Nova York há quase cinco anos, passou pelo mesmo roteiro descrito acima para conseguir vacinar as filhas, no ano passado, antes de ir para uma área rural de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Apesar do preço e do receio de ir a uma clínica desconhecida, a família não podia correr o risco: um macaco morto por febre amarela havia sido encontrado no bairro em que ficariam.

A filha mais nova, de 12 anos, sofreu uma convulsão 48 horas depois de ser imunizada. No hospital, foi informada de que poderia se tratar de reação à vacina, por isso avisou a clínica. Mas nada foi confirmado. “Fomos bem atendidos, mas a gente fica com a impressão de que ninguém quer se envolver”, comenta.

AFP
Macacos mortos foram os primeiros sinais da chegada da febre amarela em São Paulo e no Rio Imagem: AFP

Por que é tão difícil?

A única vacina contra febre amarela aprovada pela autoridade que regula medicamentos nos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration), é a YV-VAX, produzida localmente pela Sanofi Pasteur, a mesma fabricante da Stamaril, vacina francesa que é aprovada em 70 países e vendida em clínicas particulares no Brasil. 

Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) e a Sanofi, nos EUA, os imunizantes são equivalentes: ambos são produzidos a partir da mesma cepa (17D), cultivados em ovos de galinha embrionados, e oferecem os mesmos percentuais de eficácia e de efeitos adversos.

Um relatório publicado por médicos no site do CDC, no ano passado, explica que problemas de fabricação resultaram na escassez da única vacina que podia ser oferecida no país. O documento informa que a demanda é de aproximadamente 500 mil doses anuais, o que envolve viajantes militares e civis.  

A Sanofi teve que trasferir a produção para um novo estabelecimento, e a previsão é que o fornecimento da YF-VAX seja retomado na metade deste ano.

Os autores do relatório dizem que o fracionamento da vacina foi cogitado, mas a ausência de evidências suficientes (que impede a emissão do certificado para quem recebe a dose reduzida) levou os EUA e a Sanofi a uma outra solução: trazer a vacina francesa para cá.

Como o produto não era aprovado aqui, foi preciso submeter um estudo clínico ao FDA, com um mecanismo conhecido como “acesso expandido a novas drogas em investigação”. Isso permite que um número maior de pacientes possa utilizar um medicamento que, apesar de não ter sido liberado para comercialização, tem se mostrado promissor, como acontece em casos de câncer e outras doenças graves.

Segundo uma clínica consultada pela reportagem, 100 mil doses da Stamaril estão destinadas para o programa de acesso expandido – cerca de um quinto do que era oferecido antes de 2017, comparando-se o número ao informado no relatório.

Se a vacina francesa e a americana são equivalentes, e a primeira é aprovada em diversas partes do mundo, por que tanta burocracia?

Procurados, tanto o FDA quanto a Sanofi Pasteur nos EUA não deram detalhes, justamente por se tratar de uma vacina ainda em estudo no país. Mas, segundo o médico Thomas Monath, especialista da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene e ex-presidente da entidade, toda vez que o sítio de produção de uma vacina é modificado, é preciso submeter o produto às autoridades regulatórias.

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Imagem: Thinkstock

Risco de febre amarela nos EUA

O problema não podia ocorrer em pior hora – desde 2016, surtos de febre amarela com número significativo de mortes vêm ocorrendo, primeiro em Angola e na República Democrática do Congo, e agora no Brasil.

Pouco antes de a vacina norte-americana sumir de vez das clínicas, um médico dos Institutos Nacionais de Saúde, Anthony Fauci, havia publicado um artigo no periódico New England Journal of Medicine intitulado “A febre amarela está batendo na nossa porta?”, e os principais jornais repercutiram o aviso do especialista de que, caso a doença volte a ser transmitida pelo Aedes aegypti em cidades brasileiras, existe o risco de que os EUA tenham surtos localizados, como ocorreu com a zika.

Thomas Monath concorda que, embora pequeno, o risco de a febre amarela urbana voltar aos EUA existe: “Sempre haverá esse receio”, declara.

No século 19, uma epidemia da doença afetou o Golfo do México e subiu pelo vale do Mississipi, chegando a dizimar um terço da população de Memphis, no Tennessee, o que foi classificado como “o pior desastre urbano da História americana”.

Antes, ainda, no século 17, houve surtos até em Boston e Nova York, embora menos expressivos. A falta de saneamento nas cidades era um fator que não ameaça mais o país, mas a permanência do mosquito e o número de pessoas que realiza viagens internacionais todos os dias são questões que pesam.

“Havaí e Porto Rico têm condições similares às da América do Sul e vêm sofrendo com a epidemia de dengue”, acrescenta Monath.

Para não falar na zika, que afetou principalmente Porto Rico, Flórida e Texas – de 2015 para cá foram registrados mais de 37 mil casos sintomáticos dessa infecção em territórios norte-americanos. Os dados mostram que o controle do mosquito não é um desafio só para o Brasil e outros países em desenvolvimento.

O pediatra Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina Baylor, já chamava atenção, em um artigo de 2013, para o risco de cidades como Houston, New Orleans, Tampa e Miami virem a se tornar zonas endêmicas de doenças tropicais negligenciadas como a febre amarela. A ocorrência de casos silvestres em cidades populosas e infestadas pelo Aedes, como São Paulo e Rio de Janeiro, é um agravante.

Certamente a escassez da vacina aumenta a vulnerabilidade.”

Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical

Em resposta ao UOL, o CDC enfatiza que, diferente da zika, a febre amarela pode ser combatida por vacina (vale lembrar que o imunizante foi desenvolvido por um norte-americano, Max Theiler, nos anos de 1930, e ele recebeu o Nobel de Medicina pelo feito). O centro garante que tem trabalhado em parceria com a Sanofi para garantir doses suficientes de Stamaril para suprir a demanda atual aos viajantes internacionais de todos os territórios norte-americanos, até que o fornecimento da YF-VAX seja restabelecido. 

“Como o programa de acesso expandido inclui menos clínicas que o usual, antes da escassez, quem for viajar para áreas de risco pode ter de se deslocar por distâncias maiores para encontrar a vacina”, admitiu. A recomendação, portanto, é não deixar para a última hora, e lembrar que são necessários de 10 a 15 dias para a imunização fazer efeito.