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Médicos fazem carta contra transferência do Hospital Vital Brazil

Hospital Vital Brazil é referência em São Paulo - USP/Divulgação
Hospital Vital Brazil é referência em São Paulo Imagem: USP/Divulgação

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

03/06/2019 14h20Atualizada em 04/06/2019 12h54

O governo do estado de São Paulo decidiu fechar o Hospital Vital Brazil, ligado ao Instituto Butantan, na zona oeste de São Paulo, e transferir o atendimento para o Emílio Ribas.

Fundado em 1945, o hospital é referência em pesquisa e tratamento de envenenamentos por animais peçonhentos, como cobras, escorpiões e aranhas. No momento, o Vital Brazil acompanha 95 casos de pessoas picadas pela aranha marrom, por exemplo.

Segundo médicos do hospital, não houve consulta aos profissionais sobre a decisão. A notícia gerou comoção entre os profissionais --hoje, foi entregue uma carta aberta à Secretaria Estadual de Saúde e à direção do Instituto Butantan.

Procurada, a Secretaria de Saúde recomendou procurar o Instituto Butantan, que emitiu o seguinte comunicado: "O Instituto Butantan informa que o Hospital Vital Brazil (HVB), localizado dentro da instituição, não será fechado. A unidade está funcionando normalmente, com atendimento 24 horas a acidentes com animais peçonhentos. O atendimento à população e os estudos clínicos, que são realizados na unidade, não serão interrompidos. No momento, existe apenas um estudo para ampliação e melhoria dos serviços oferecidos."

Os funcionários souberam do fechamento na tarde da última terça (28), depois da decisão do secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann, e comunicada informalmente pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas. Procurado pela reportagem, o instituto negou inicialmente que o hospital seria fechado.

Na carta, assinada hoje pelo "Corpo Clínico do Hospital Vital Brazil", os médicos escrevem que "infelizmente, essa mudança encerrará o bem-sucedido modelo de atendimento no Hospital Vital Brazil, que é referência internacional no atendimento dos pacientes acidentados por animais peçonhentos, com resolutividade de mais de 98% dos casos no próprio hospital".

Os profissionais elencaram alguns pontos para "debate" com a direção do instituto e com a secretaria. A carta diz, por exemplo, que "a mudança para dentro da estrutura do Emilio Ribas pode criar intermediários", atrasando o atendimento e colocando pacientes e médicos em risco. "No Vital Brazil mantemos soros específicos [...] para o caso de acidentes com nossos biólogos. Em alguns casos, como acidentes por Najas (o Instituto possui cerca de 30 delas), o pronto atendimento médico é fundamental para se evitar o óbito."

Uma médica ouvida pela reportagem teme que o serviço termine diluído no atendimento geral do Emílio Ribas, comprometendo os resultados. A expectativa dos médicos é que o prédio onde funciona o hospital no instituto seja usado apenas para pesquisa clínica. "É inviável prestar assistência em um lugar e conduzir os exames em outro", diz a especialista. "O instituto é feito basicamente de pesquisa."

A carta lembra ainda que "existe uma grande procura espontânea dos pacientes pelo Instituto Butantan (cujo nome é indissociável de acidentes por animais peçonhentos), onde são acolhidos pelo braço assistencial deste, o Hospital Vital Brazil". "Os pacientes picados continuarão a procurar o Butantan, e a nossa transferência para o Emílio Ribas acarretaria transtornos e riscos de agravamento pelo tempo adicional de deslocamento dos picados", diz o corpo clínico.

Outro ponto fundamental para o tratamento é correta identificação do animal. Todo procedimento de atendimento é apoiado pelo grupo de biólogos de várias especialidades que auxiliam os médicos dentro do Instituto Butantan e não teria como existir fora deste. Note-se que muitos pacientes levam o animal vivo, o que poderia colocar em risco os profissionais do Instituto Emílio Ribas, que não conta com profissionais habilitados no manejo destes animais.
Corpo Clínico do Instituto Butantan

Os médicos lembram que pelo Vital Brazil passam alunos de faculdades brasileiras e do exterior, além de residentes de faculdades como a de medicina da USP e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "O novo modelo de atuação proposto, longe do Instituto Butantan, impossibilitará treinamento adequado de mão de obra para reposição de uma equipe que hoje é a única referência para as demais unidades de saúde do estado e do Brasil."

Em 2018, foram registrados 2.292 casos de pronto-atendimento do Vital Brazil e 1.756 teleconsultorias. O estado de São Paulo registra expressivo aumento nos casos e mortes por picadas de escorpião: das 20 pessoas que morreram em todo o Brasil no ano passado, 12 foram no estado.

Leia a íntegra da Carta aberta à Secretaria Estadual de Saúde e à Direção do Instituto Butantan.

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