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Coronavírus assusta e muda cotidiano de Hong Kong

Clientes fazem fila em Hong Kong para comprar máscaras com medo do coronavírus - Tyrone Siu/Reuters
Clientes fazem fila em Hong Kong para comprar máscaras com medo do coronavírus Imagem: Tyrone Siu/Reuters

Christianne González

Colaboração para o UOL, em Hong Kong

28/01/2020 10h17Atualizada em 28/01/2020 20h11

O amanhecer foi atípico em Hong Kong Island nesta terça-feira (28). No território chinês onde vivem pelo menos 7,5 milhões de pessoas e que tem uma das maiores densidades populacionais do mundo, as ruas têm enorme tráfego de carros e de pessoas desde 7h da manhã. Não foi o que ocorreu hoje, quando se viam poucos passantes, a maioria usando máscaras cirúrgicas, e quase nenhuma criança.

Era o fim do feriado do Ano Novo no calendário Chinês, que cai todos os anos em dias diferentes, de acordo com os movimentos da lua e do sol. O cenário deveria ser nervoso, mas as aulas foram suspensas pelo governo, e a recomendação é evitar locais públicos com grandes aglomerações. Quem pôde se trancou em casa, com medo de contrair o coronavírus, também conhecido como 2019-nCoV, que provoca tosse, febre, falta de ar e dificuldade para respirar.

Os dias de feriado que antecederam essa terça não foram diferentes, mas era esperado um esvaziamento natural de Hong Kong e de outras áreas administrativas especiais, onde vivem parte dos cidadãos da China continental e pelo menos meio milhão de expatriados, segundo dados da World Population Review.

Embora as primeiras notícias sobre o novo vírus tenham aparecido na imprensa em dezembro de 2019, o clima de insegurança bateu mais forte na população na semana que antecedeu o feriadão, com o aumento do número de mortos na China e de infectados em pelo menos 12 países — Austrália, Canadá, Cingapura, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Japão, Malásia, Nepal, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

O mundo voltava os olhos para a China e seus visitantes. Alguns aeroportos passaram a medir a temperatura dos passageiros vindos do país e outros aumentaram a fiscalização na imigração.

Quem ficou em Hong Kong não escapou do clima de tensão. Nos bares e restaurantes que optaram por se manter abertos apesar do feriado era visível o número menor de clientes. A badalada Peel Street, na zona conhecida como Central, ficou irreconhecível. As tradicionais ofertas de "happy hour", entre 17h e 20h, não atraíram muita gente, como de costume. No geral, os bares da Peel lotam a ponto de servirem os clientes no meio da rua.

Com sensação térmica de 11 graus centígrados, o medo de ficar gripado aumentou. As pessoas passaram a evitar apertos de mão e abraços. A chef de cozinha paulistana Laís Borba - uma amiga que fiz aqui - relatou-me um desconforto visível dos clientes em compartilhar pratos. Uma simples tosse passou a atrair olhares desconfiados das mesas vizinhas.

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Kit proteção

Na movimentada Queen's Road, a Sasa, a Mannings e a Watsons - três grandes redes que comercializam máscara e álcool gel - haviam esgotado seus estoques desde o dia anterior. Tive de me contentar com alguns comprimidos de vitamina C de marca genérica e lenços umedecidos para compor o nosso kit proteção.

A amiga e jornalista Tereza Rangel me recomendou máscaras N95, tipo mais eficaz contra doenças por transmissão via aérea. Em minha peregrinação em busca do produto, encontrei o barman do restaurante brasileiro que frequento. Sua primeira pergunta, antes mesmo de um bom dia: "encontrou máscara?". Percebia-se um certo pânico em seus olhos. A seu lado, a namorada peruana portava uma máscara da Hello Kitty, que ele se recusou a usar.

O maior medo das pessoas com quem conversei - locais e expatriados - é sobre o atendimento dado a suspeitos de infecção. Não está claro se eles serão tratados em hospitais ou se serão levados a zonas de quarentena, que também não se sabe ao certo onde ficam e quais as condições. Ninguém quer ser confinado em um ambiente com estranhos, longe dos parentes ou de um amigo. Essa perspectiva apavora sobretudo os estrangeiros.

Chequei com um amigo local, o jornalista Allan Au, de que forma os hospitais estão procedendo em Hong Kong. Ele me disse que os casos confirmados são tratados imediatamente, e os que tiveram contato próximo com um suspeitos de infecção são levados para campos de quarentena próximos a Sai Kung - vila de pescadores, distante do centro, frequentada por hongkongers que apreciam frutos do mar frescos, escaladas e a vista deslumbrante da península.

Diante do quadro, minha recomendação a quem planeja visitar a região é postergar a viagem para tempos menos sombrios.

Um aspecto curioso é que o medo provocado pela possibilidade de contaminação sufocou os protestos que pipocavam na cidade toda semana. Sem grandes multidões nas ruas e com aulas nas universidades suspensas até 17 de fevereiro, as discussões políticas em Hong Kong neste momento estão à mercê de uns poucos políticos e de conversas privadas. Bom para o governo, péssimo para a luta pró-democracia.

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