PUBLICIDADE
Topo

Saúde

Doente supercontagiante: China diz que 1 pessoa passou coronavírus para 14

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

30/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • China investiga possível caso de paciente "supercontagiante"
  • Ele teria transmitido o coronavírus para pelo menos 14 pessoas

As autoridades chinesas investigam uma situação que deve elevar ainda mais o grau de preocupação com o coronavírus, que teve o epicentro em Wuhan, na China. Um paciente da cidade teria infectado ao menos 14 pessoas em um hospital, em um caso que pode ser classificado como de hospedeiro "supercontagiante" (tradução livre do termo em inglês super-spreader).

Zhou Xianwang, o prefeito de Wuhan, expôs o caso durante pronunciamento na estatal CCTV na última semana, segundo reportou a CNN. Ele não deixou claro quando as autoridades perceberam o provável paciente "supercontagiante". O caso também foi divulgado pela agência de notícias Sina.

À Xinhua, agência de notícias do governo chinês, Gao Fu, chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, afirmou que a tese de "supercontagiante" deve ser refutada porque o paciente foi transferido várias vezes.

Segundo o último balanço oficial, divulgado hoje, a China já contabilizou 7.700 casos e 170 mortes relacionadas à doença; outros 15 países já confirmaram pacientes infectados. Ontem, o ministério da Saúde informou que, no Brasil, foram registrados nove casos suspeitos.

Infectologistas ouvidos pela reportagem apontam que existem algumas possibilidades para que um paciente seja considerado "supercontagiante". Entre elas, estão fatores genéticos que podem facilitar a multiplicação do vírus —o que também facilitaria sua transmissão—, além de questões que tenham relação com o ambiente no qual a pessoa foi contaminada ou transmitiu o vírus.

Neste conjunto, outra hipótese também é ventilada: o paciente que não apresenta os sintomas e, por conta disso, não toma as devidas precauções.

"O vírus não tem intenção de matar o hospedeiro. Portanto, quanto melhor ele se adaptar ao ser humano, melhor para o vírus. É uma questão de evolução", explica a médica infectologista Joana D'arc, citando que uma melhor adequação do vírus ao corpo pode ser uma característica de um paciente "supercontagiante".

Para ela, todavia, é cedo fazer uma análise sobre a transmissão do coronavírus, posto que a doença ainda está sendo estudada e há poucas conclusões a seu respeito. "Ainda estão analisando o período de incubação do vírus, por quanto tempo ele pode ser transmitido, o seu potencial de transmissão", argumenta. Apesar da aparente rápida disseminação, diz a médica, sua taxa de letalidade é relativamente baixa, pairando em torno de 2%.

"Se houver um, haverá mais"

O diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas, da universidade de Minnesota, dos Estados Unidos, e médico epidemiologista Michael Osterholm tem perspectiva mais alarmista. Ele lidera uma equipe no centro que está investigando o caso do paciente "supercontagiante".

"Se temos um [paciente "supercontagiante"], isso nos diz que teremos mais. Se houver um, haverá mais", disse à CNN. Osterholm afirma ainda que provavelmente há mais pessoas infectadas pelo mesmo paciente do que os 14 relatados pelas autoridades chinesas.

A médica infectologista Nancy Bellei tem posição mais pragmática em relação aos "supercontagiantes". "Isso acontece em muitas doenças virais respiratórias, você tem uma proporção de pacientes que, às vezes, não têm sintomas", diz. "Isso pode acontecer [com o coronavírus] e deve estar acontecendo", diz.

Apesar do alerta, ela afirma que é necessário "esperar um pouco para entender melhor os números" que circundam o novo vírus.

Mary Tifoide

O caso do paciente "supercontagiante" teve ampla repercussão na imprensa de língua inglesa. Os veículos que reportaram a questão relembraram que doenças como a febre tifoide (causada pela bactéria Salmonella typhi) tiveram pacientes específicos (neste caso, a imigrante irlandesa Mary Mallon) que se transformaram em grandes vetores de disseminação da doença.

Mallon, que, à época —começo do século 20— era hospedeira da doença, mas não apresentava problemas graves da saúde, foi responsável por transmitir a febre para mais de uma centena de pessoas.

"Mary Tifoide", como acabou ficando conhecida, foi "comprovadamente responsável pela contaminação de pelo menos 122 pessoas, incluindo cinco mortos", segundo documento disponível na Biblioteca Nacional de Medicina do governo dos Estados Unidos.

A Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que tem como agente um vírus da mesma família do coronavírus, possui história semelhante. A doença apareceu na China entre 2002 e 2003, deixou 774 mortos e teve mais de 8 mil casos confirmados.

Em 2003, o professor chinês Liu Jianlun viajou de Guangzhou a Hong Kong portando a doença. No hotel em que se hospedou, espalhou o vírus para outras sete pessoas que estavam no seu andar. Estas levaram o vírus para quatro cidades ao redor do mundo. Este foi considerado o ponto crucial que levou à disseminação da Sars para outros países.

Bellei utiliza justamente o argumento sobre a Sars para refutar em partes o alarmismo em relação ao coronavírus. "Um paciente contaminou, em duas semanas, 138 pessoas com a Sars em Hong Kong", pontua. "É importante a gente entender que essa grandeza [número de contaminados por um único hospedeiro] pode não ser tão absurda assim", diz a infectologista.

Brasil tem nove casos suspeitos de coronavírus

redetv

Saúde