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Fernando de Noronha inicia plano de contingência para combate à covid-19

Escola Arquipélago teve as aulas suspensas e receberá seis leitos de campanha emergenciais - Administração de Fernando de Noronha
Escola Arquipélago teve as aulas suspensas e receberá seis leitos de campanha emergenciais Imagem: Administração de Fernando de Noronha

Eduardo Vessoni

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/03/2020 18h55

Resumo da notícia

  • Fernando de Noronha iniciou um plano de contingência para o combate ao novo coronavírus
  • Cancelamento de voos, leitos de campanha e distribuição de cestas básicas foram algumas das medidas tomadas pela administração local
  • Com o objetivo de isolar a ilha para que novos casos não surjam, apenas a população local e os funcionários essenciais estão no arquipélago

Fernando de Noronha iniciou um plano de contingência para o combate ao novo coronavírus. Desde ontem, todos os passageiros que desembarcam no arquipélago, localizado a 545 km do Recife, têm que ficar isolados em casa por, no mínimo, sete dias, mesmo que não apresentem sintomas de gripe. Para as pessoas com algum tipo de sintoma, como tosse ou febre, o isolamento domiciliar obrigatório é de 14 dias.

De acordo com a medida anunciada pela Administração de Fernando de Noronha, quem chegar ao aeroporto da ilha principal passará também por uma investigação do seu estado de saúde, através de um questionário epidemiológico, como forma de prevenção à covid-19.

Esse trabalho está sendo feito em parceria com a Polícia Militar, que é notificada sobre o isolamento do recém-chegado, a fim de evitar o descumprimento da quarentena.

Embora todos os turistas e os últimos prestadores externos de serviços já tenham sido retirados ontem da ilha, são cinco casos suspeitos de covid-19. Os exames serão encaminhados ao Laboratório Central de Pernambuco (Lacen), no Recife, de acordo com informação da Administração de Noronha.

Com o objetivo de isolar a ilha para que novos casos não surjam, apenas a população e os funcionários essenciais estão no arquipélago. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), a população de Noronha em 2019 era de 3.061 habitantes (segundo a administração local, são cerca de 3.500 pessoas).

Mais medidas

Além da criação de um comitê interno com a Superintendência de Saúde e a Polícia Militar, a Administração de Noronha informou que serão contratados 14 profissionais extras de saúde (seis médicos clínicos gerais, cinco enfermeiros e três técnicos de enfermagem), além da aquisição de materiais e equipamentos médico-hospitalares.

O plano foi colocado em prática sob orientação estratégica do médico e ex-ministro interino da Saúde, Mozart Sales, dentro do termo de cooperação entre a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.

Já a Escola Arquipélago, onde as aulas foram suspensas, receberá seis leitos de campanha emergenciais, e os pacientes mais graves contarão com a prioridade do salvo-aéreo (remoção via transporte aéreo).

"Hoje temos dois leitos de sala vermelha com respiradores e outros 12 de enfermaria. Já estamos montando também outros seis, caso seja necessário", explicou por telefone para o UOL, Guilherme Rocha, administrador da ilha.

Ainda segundo Rocha, foram adquiridas 2 mil cestas básicas para serem distribuídas entre os ilhéus, mas ainda sem regras definidas de distribuição.

Para conscientizar a população a permanecer em casa, a administração está recorrendo também a anúncios na Rádio Golfinho e em carros de som.

Novas regras para os voos

Por telefone, o condutor Ailton Flor, que também é presidente da ACITUR (Associação de Condutores e Divulgadores de Informações Turísticas), afirmou que a escala de voos para o arquipélago já sofreu alterações.

"A princípio seria um voo da Gol, às quartas, e outro da Azul, aos sábados. Mas depois do voo de ontem, as operações para Noronha estão suspensas até segunda ordem", disse Ailton.

Procurada pela reportagem do UOL, a GOL informou, via assessoria de imprensa, que "promove, em caráter temporário, a readequação de sua malha doméstica a partir do próximo sábado, dia 28 de março, se estendendo até 3 de maio. Durante esse período, a companhia manterá as operações para as capitais, enquanto as regionais e internacionais regulares estarão suspensas".

Segundo a companhia, a nova malha aérea é resultado da redução do número de voos, desde o início da crise da covid-19, responsável até agora pelo cancelamento de, aproximadamente, 92% no mercado doméstico e 100% no internacional.

"Isso me deixa muito preocupada, porque alguns colaboradores ainda precisam ir embora da ilha e não estão encontrando passagens", contou por telefone Zaira Matheus, há 21 anos em Noronha.

De acordo com Marina Muller, empresária e chef de cozinha, "as pessoas estão dormindo no aeroporto para garantir passagem".

O primeiro voo do período de quarentena que chegou a Noronha transportou 24 pessoas — 23 moradores e um profissional de saúde de fora.

Atualmente, a ilha só permite a aterrissagem de voos para o transporte de moradores regulares, perante o controle migratório do Distrito, e de servidores públicos federais e estaduais.

Ilhados

"Vivo em uma ilha, literalmente, mas agora todo o ser humano do planeta tem que estar dentro da sua própria ilha", descreveu Zaira Matheus, que também é bióloga e fotógrafa submarina.

Sua rotina em Noronha, que costumava ser de saídas diárias de mergulho e administração de sua empresa de registro fotográfico de turistas, agora se resume a ficar em casa e evitar o contato com pessoas. "O isolamento é o único caminho para a gente conseguir atrasar essa pandemia", opinou.

Marina Muller, que é proprietária de um restaurante local, diz que a ilha está vazia e apenas os mercadinhos estão abertos. Além disso, o acesso às praias está proibido e com fiscalização da polícia. "O tempo parece que parou por aqui, nesses últimos quatro dias. Não teve vento algum e o mar ficou uma piscina", descreveu.

O condutor Ailton Flor tem tomado medidas de segurança ao retornar para casa, como separar a roupa usada e fazer higienização completa com banho. "Todos da família estão em casa, seguindo as recomendações", explicou. Ailton tem uma filha de dois anos, e a mãe de 69 anos faz parte do grupo de risco.

Para o administrador de Noronha, Guilherme Rocha, a rotina segue normal. Ele tem saído, diariamente, para trabalhar no Palácio de São Miguel, sede da administração do arquipélago. "É de casa para o palácio e do palácio para casa, todos os dias."

No entanto, para Ana Maria Miranda, uma das proprietárias de uma pousada de luxo, tudo isso trouxe novas perspectivas para o destino.

"A quarentena tem sido para nós como para a maioria dos brasileiros, mas aqui não está sendo difícil, pois não tivemos nenhum caso confirmado. A expectativa tem deixado nossos dias mais leves", afirmou Ana.

"Já estamos sonhando também com aquela imagem antiga de Noronha, com menos gente. Todo mundo está respeitando e aproveitando para mexer na terra, plantar e pescar", completou.

#naocancele

Com a paralisação total do turismo e previsões de que a pandemia deva se prolongar, empresários locais estão empenhados na campanha "Não cancele, remarque", a fim de evitar a fuga de turistas (e de renda) nos próximos meses.

"Temos pedido para os clientes [que já tinham reservas] não cancelarem sua vinda para Noronha, mas remarcarem. É um pedido para o pessoal se sensibilizar e ver também o nosso lado", finalizou Ailton Flor, que também gerencia uma pousada.

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