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Baixa testagem e falta de dados comprometem combate ao corona no Brasil

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Imagem: iStock

Rodrigo Mattos

Do UOL, no Rio

09/04/2020 04h00

Com a disseminação do coronavírus no Brasil, há previsões sobre aumento de infectados, leitos disponíveis e efeitos das medidas de isolamento social. Todas essas projeções, contudo, são comprometidas pelo baixo número de testes aplicados e dados incompletos sobre mortes e curados. Ontem (8), o Ministério da Saúde informou pela primeira vez o número de testes realizados: 62.985.

Mas a pasta, ao lado de secretarias estaduais, ainda trabalha para consolidar resultados de exames de diferentes laboratórios. Além disso, o Brasil tem baixa testagem em relação a outros países com alta incidência da doença: 29,7 testes por 100 mil habitantes. São os números de exames e seus detalhamentos que permitiram o controle do crescimento da doença, conforme revela a experiência de países bem-sucedidos no combate da epidemia.

Segundo a Open Knowledge Brasil, só 13 das 28 unidades da federação revelam o número de testes realizados em meio a seus dados sobre o coronavírus. A pesquisa, com dados do dia 3 deste mês, "indica que 90% dos Estados, incluindo o governo federal, ainda não publicam dados que permitam acompanhar em detalhes a disseminação da pandemia de COVID-19 pelo país".

"Fizemos o levantamento em cima do que estava publicado. Explicamos a metodologia do estudo, procuramos os estados e alguns poucos estados responderam", afirmou Fernanda Campagnucci, diretora-executivo do Open Knowledge Brasil. "Alguns estados pretendem melhorar sua base de dados como pudemos observar."

O documento ainda aponta que "chama a atenção a ausência de informações sobre testes disponíveis nos estados: na data de coleta das informações, apenas um dos 28 entes avaliados informava esse dado".

No exterior, testagem ajuda no controle da doença

O governo da Coreia do Sul, um dos países mais bem-sucedidos no combate à epidemia, tem seus dados detalhados sobre testes. Foram 477 mil exames realizados, o que dá uma proporção de 931 por 100 mil habitantes. O quadro mostra que a maioria teve resultados negativos, além de apontar ter conhecimento da origem de 82% dos casos.

Essa estratégia tem mantido a letalidade do coronavírus em 1,85% e a curva de crescimento de infecção controlada.

Países como a Itália, um dos mais atingidos pela pandemia, já chegaram a 620 mil testes ou mais de 1.000 por 100 mil habitantes.

Em ritmo acelerado de exames, os Estados Unidos já realizaram 1,915 milhão de exames, mas ainda são 596 por 100 mil habitantes. Os dados norte-americanos foram compilados pelo projeto COVIDTrack, da Revista Atlantic. O governo dos EUA não fornece as informações.

Outros países como a Áustria, Turquia, França, Japão, Reino Unido e Austrália também têm números de testes realizados disponíveis em lista de organismo da ONU (Organização das Nações Unidas). Todos têm números de testes realizados em maior número do que o Brasil em relação ao tamanho da população.

O UOL calculou os índices de testagem com base em números divulgados pelos respectivos países até a última terça-feira (7).

No Brasil, falta de padronização de dados

No Brasil, o Ministério da Saúde tinha dados detalhados de laboratório da Fiocruz e o Adolf Lutz. Informações das redes particulares ainda precisavam ser consolidadas. A pasta publicou o total de testes realizados nesta quarta sem detalhar se incluiu número de todos os estados e de entidades particulares.

A intenção do governo é publicar as informações consolidadas. Mas, para isso, tem que ser superada a falta padronização nos preenchimentos, o que está sendo trabalhado pelo ministério.

Até agora foram distribuídos 137 mil testes do tipo RT-PCR, feitos no sangue, e que identificam quando a pessoa tem a doença. Foram repassados aos estados outros 500 mil exames rápidos. No total, a pasta afirma que um total de 800 mil chegará aos estados nos próximos dias.

Como são e o que medem os exames

Há dois tipos de testes —o de biologia molecular (RT-PCR) é usado para confirmação laboratorial dos casos de covid-19, e o exame sorológico (IgM e IgG) que identifica se o indivíduo teve a infecção ao detectar anticorpos contra o coronavírus.

"Os dois tipos de teste têm finalidades/importâncias distintas para avaliar a extensão da epidemia", afirma José Ueleres Braga, médico epidemiologista e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

Mais preciso, o RT-PCR serve para isolar doentes para que não compartilhem ambientes sociais. Já o exame sorológico —cujos resultados ficam prontos em até 20 minutos— pode dar uma ideia melhor da dimensão do coronavírus no Brasil, segundo explica Braga.

"O teste sorológico [IgM e IgG] permite saber quantos indivíduos já foram infectados e, por isso, temos uma ideia da extensão da epidemia", diz o pesquisador. "Um possível uso dos testes sorológicos [rápidos] é saber se o indivíduo poderia infectar outros, pois se o teste sorológico é positivo, significa que ele já teve a doença e não transmite mais."

Ou seja, com os exames rápidos, poderia se ter certeza de pessoas curadas e que possivelmente estão imunizadas contra o coronavírus. Ressalte-se que ainda não há pesquisas conclusivas se pessoas infectadas, de fato, não podem mais pegar o vírus e por quanto tempo.

O coronavírus tem progredido mais rápido no Brasil nos últimos dias, tendo 133 mortes novas no relatório de quarta (8). Há uma previsão de entrar em aceleração no meio do outono, dependendo do cenário em cada estado e cidade. No entanto, o quadro só será plenamente conhecido se o Brasil também acelerar sua compilação de dados.

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