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Teich avisou Bolsonaro sobre 'demanda reprimida' de pacientes após pandemia

Mariana Gonzalez

Do UOL, em São Paulo

22/05/2020 17h58

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich alertou o presidente Jair Bolsonaro e os ministros sobre uma "segunda fase" da crise da saúde no país, logo após o controle do coronavírus, durante a reunião ministerial de 22 de abril.

O vídeo com a gravação da reunião foi divulgado hoje pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Teich — que, na ocasião, estava havia poucos dias à frente da Saúde — diz que a pasta estava se preparando para enfrentar a "demanda reprimida" que surgiria após a crise: a de pacientes com outros problemas de saúde não relacionados à covid-19.

"Hoje, que a gente tenha quatro milhões de pessoas com a covid-19. Brasil hoje tem duzentos e doze milhões de pessoas. Tem duzentos e oito milhões que não estão tendo atenção necessária. É câncer, cardiovascular. Isso tudo está represado, é demanda reprimida. Quando você controlar a covid-19, o 'não covid-19' vai chegar com tudo e você pode pegar uma estrutura sucateada. Aí você só vai transferir o problema de medo."

Ele continuou: "Temos que estar preparados, não é só trabalhar o curtíssimo prazo. A gente tem que se preparar para essa segunda fase que vai chegar também. Isso tudo a gente está fazendo, só para vocês saberem que a gente está pensando nisso tudo, está tudo trabalhado", afirma, na gravação.

Estrutura sucateada

Teich disse que o período após o controle pandemia, circunstância que chamou de "não covid", pode se caracterizar por uma "estrutura sucateada" de estrutura sanitária. "Vai ser o caos", reagiu a essa perspectiva o general Braga Netto, ministro da Casa Civil.

Antes de traçar cenários para o período depois do controle da pandemia, o ex-ministro disse que o governo precisava esclarecer à população que a doença estava sob controle. Em sua avaliação, a população estava com medo.

"Enquanto a gente não mostrar pra sociedade que a gente tem o controle da doença, da saída dela, qualquer tentativa de saída dela vai ser ruim, porque o medo vai impedir que você trate a economia como uma prioridade. Então controlar a doença hoje é fundamental. Controlar não significa que a gente vai encontrar a cura em uma semana, mas que a gente não é um barco à deriva", afirmou,

Sem sensação de crise

Em 22 de abril, Teich disse que o Brasil "era um dos melhores países em número em relação à mortalidade". Naquela data, o país tinha 2.906 mortes confirmadas — ontem, o país ultrapassou 20 mil óbitos.

"O que assusta é você ver que o hospital não consegue atender, é gente do frigorífico, gente que está abrindo cova em algum lugar pra enterrar, e isso traz medo", disse o ex-titular da saúde.

Braga Netto, então, afirmou que, "se eu tiver hospitais funcionando, eu vou ter pacientes tratados, não tenho a sensação da crise, o medo melhora e o restante pode entrar".

O ministro-chefe da Casa Civil também cobra por um plano de fim das de medidas de distanciamento social para combater o medo e recuperar a confiança da população.

"Não é que vá sair amanhã, mas a gente tem que ter um planejamento. Porque aí a gente realmente mostra que a situação tá na nossa mão. Pode ser que demore um pouco, mas a gente tá controlando esse processo, que a gente não tá sendo um barco à deriva", disse Braga Netto.

Reunião de 22 de abril

A reunião ministerial de 22 de abril está no centro de um inquérito aberto no STF, a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), para apurar as declarações de Sergio Moro no dia em que pediu demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O ex-ministro denunciou uma suposta interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal com a exoneração do então diretor-geral Maurício Valeixo.

O vídeo é considerado como uma das principais provas para sustentar a acusação feita por Moro de que o presidente tentou interferir no comando da PF e na superintendência do órgão no Rio, fatos esses investigados no inquérito relatado pelo decano do STF.

Depoimentos

Os ministros generais Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (GSI) e Walter de Souza Braga Netto (Casa Civil) já prestaram depoimento no âmbito dessa investigação. Os três foram citados por Sergio Moro como testemunhas da suposta tentativa de interferência do presidente verbalizada durante a reunião.

O general Heleno disse à Polícia Federal que sabia do impasse entre Jair Bolsonaro (sem partido) e Sergio Moro em relação ao comando da PF, mas afirmou que "nunca entendeu" o motivo da insatisfação do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública.

Já o general Ramos disse aos investigadores considerar "evidente" o aborrecimento de Moro com o interesse de Bolsonaro em substituir a chefia da Polícia Federal. Ele afirmou ainda que, por iniciativa própria, tentou contornar a situação e chegou a ligar para o ex-ministro da Justiça em busca de uma solução. O telefonema teria ocorrido sem o conhecimento do presidente.

Por fim, Braga Netto afirmou que o presidente havia revelado na reunião ministerial sua intenção de trocar a "segurança do Rio de Janeiro", referindo-e à segurança pessoal dele, a cargo do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), não tendo relação com a Polícia Federal.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e os delegados Carlos Henrique Oliveira de Sousa (ex-chefe da PF no Rio) e Alexandre da Silva Saraiva (cotado por Bolsonaro para chefiar a PF fluminense) também prestaram depoimento à Polícia Federal.

Zambelli (PSL-SP) precisou esclarecer a troca de mensagens Moro em que pediu a ele que aceitasse a mudança na direção-geral da PF solicitada por Bolsonaro em troca de uma vaga no STF. A deputada afirmou que falou com o ministro apenas como "ativista", sem ser enviada pelo Planalto, e que sua frase seria apenas uma sugestão, e não um acordo.

Alexandre Ramagem, que chegou a ser nomeado por Bolsonaro para chefiar a PF após a demissão de Valeixo, mas não assumiu o cargo após ter sua nomeação suspensa pelo STF, também prestou depoimento. Ele defendeu o presidente e investiu contra Sergio Moro, dizendo que o ex-ministro criou uma "celeuma entre Poderes da União" e que deveria "se ater a princípios e valores de hierarquia, lealdade e preferência da lei". Ramagem ainda negou que seja amigo da família Bolsonaro.

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