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Pesquisadores denunciam sumiço de dados do Ministério da Saúde sobre covid

30.jan.2020 - Ilustração do coronavírus em 3D e mapa do Brasil. O Ministério da Saúde informou, até quarta-feira (29), a existência de nove casos suspeitos de infecção pelo coronavírus no Brasil. Nenhum caso foi confirmado ainda - Cadu Rolim/Fotorarena/Estadão Conteúdo
30.jan.2020 - Ilustração do coronavírus em 3D e mapa do Brasil. O Ministério da Saúde informou, até quarta-feira (29), a existência de nove casos suspeitos de infecção pelo coronavírus no Brasil. Nenhum caso foi confirmado ainda Imagem: Cadu Rolim/Fotorarena/Estadão Conteúdo

Gabriela Sá Pessoa

Do UOL, em São Paulo

17/06/2020 21h16

O Ministério da Saúde excluiu registros de notificações de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), que incluem os casos de covid-19, da base de dados disponibilizada publicamente pela pasta, denunciam pesquisadores do Observatório Covid-19 BR.

Esses dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep) contêm todas as hospitalizações por SRAG no Brasil, que precisam ser notificados à pasta. Cada novo caso representa uma nova linha acrescentada à tabela que contém os atendimentos hospitalares.

Em cada registro, há informações detalhadas para cada paciente, por exemplo: as datas dos primeiros sintomas, da notificação e da evolução (alta ou óbito); idade; estado e município; escolaridade; raça. Informações sensíveis, como endereço, nome e documentos, são preservadas. Essas informações — chamadas de microdados — baseiam pesquisas científicas e análises sobre o cenário da pandemia.

Desde a semana passada, contudo, inconsistências graves nessas tabelas têm sido registradas.

"Na última extração disponibilizada ontem houve sumiço de dados. Não sabemos quais foram os protocolos adotados para essa redução, se limpezas de duplicatas, ou definição mais rígida de critérios para a notificação de casos no sistema", registrou hoje o grupo na rede social.

Comparando os dados de ontem com os da semana passada, os pesquisadores identificaram que a tabela mais antiga tinha 255.343 registros, enquanto a mais atual tem 208.272. "A extração publicada perdeu algo da ordem de 20% do total de registros. É preciso saber se isso foi apenas um erro e nesse caso, deve ser corrigido", apontou o observatório.

Os microdados de SRAG passaram a ser atualizados com regularidade no portal do Ministério da Saúde a partir de 1º de junho.

"A partir do dia 02/06, a base nacional passou a mostrar apenas metade dos números de casos diários de covid-19 que já constavam para extrações anteriores. Essa mudança removeu inclusive casos antigos, em dias em que a base já estava consolidada", escreveram os cientistas na rede social, na última quarta-feira (9).

O observatório comparou os dados nacionais com os divulgados pelas secretarias estaduais de saúde em uma mesma data. "Para o estado de São Paulo, o número de casos representados na extração nacional pública é basicamente a metade do que está na extração feita pela SES SP [Secretaria Estadual de Saúde]. Extrações feitas por outras Secretarias Municipais e Estaduais mostram a mesma diferença de aproximadamente 50%", concluiu o grupo.

Em 7 de junho, o Ministério da Saúde deixou de publicar os dados completos sobre a pandemia. Após forte reação da sociedade civil, pesquisadores e políticos, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o governo deveria retomar a divulgação dos dados totais.

"Ao retirar esses dados, perde-se qualquer capacidade de análise. Você pode, a partir de um certo limite, começar a ver viés em análises que não existiam nos dados completos. É muito grave. Isso, para mim, é uma segunda onda na tentativa de esconder dados", avalia Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto e membro do Laboratório de Inteligência em Saúde dessa mesma instituição.

Para Paulo Lotufo, professor de epidemiologia da USP, o episódio confirma a impressão que já tinha sobre o Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe: "Desde o início, eu sempre vi muitas inconsistências no Sivep".

O UOL perguntou ao Ministério da Saúde se houve mudança de tratamento nos dados que suprimisse os registros, inclusive considerando dados consolidados. Também questionou se os dados perdidos serão inseridos e se a perda de informações compromete a credibilidade dos dados nacionais sobre SRAG e covid-19.

"O Ministério da Saúde lamenta ter sido procurado apenas às 20h10 desta quarta-feira (17/6), fora do expediente da equipe técnica da pasta, portanto não tendo tempo hábil para responder de forma responsável os questionamentos da reportagem", respondeu a pasta.

Os esclarecimentos serão adicionados a este texto assim que forem enviados ao UOL.

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