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Mortalidade em UTIs públicas para covid-19 é o dobro de hospitais privados

20/05/2020 - Ala voltada para pacientes com coronavírus em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em hospital de Manaus (AM) - Michael Dantas/AFP
20/05/2020 - Ala voltada para pacientes com coronavírus em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em hospital de Manaus (AM) Imagem: Michael Dantas/AFP

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

21/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Taxa de mortalidade em hospitais públicos é 97% maior do que em unidades privadas
  • Principal motivo é demora de acesso aos serviços, como leitos de terapia intensiva
  • Segundo especialista, solução seria fila única de espera para todos os pacientes

Pacientes internados em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por covid-19 tiveram o dobro da taxa de mortalidade em hospitais públicos em comparação com os privados, segundo dados do projeto "UTIs Brasileiras", produzido pelo Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

Segundo informações colhidas de 13.941 pacientes tratados com o novo coronavírus, a taxa de mortalidade nas unidades privadas ficou em 19,5%, enquanto em hospitais públicos chegou a 38,5% —o que dá um índice 97% maior. Os dados são referentes a saídas de UTI entre 1º de março a 15 de maio, período em que muitos estados registraram fila de espera para terapia intensiva.

Outros indicadores do mesmo levantamento ajudam a entender o motivo da mortalidade mais alta para pessoas com a mesma doença. O principal deles é referente a demora de acesso aos serviços, que aumenta a gravidade dos pacientes que chegam para tratamento em um leito de terapia intensiva no serviço público.

Um dos marcadores que indica a gravidade do paciente ao chegar na UTI é escore de SOFA, critério que faz uma pontuação com base na avaliação de diversos parâmetros dos pacientes. No caso das UTIs públicas, esse escore médio dos pacientes que chegaram ficou em 5,7, também quase o dobro dos 3,1 dos pacientes da rede privada. No caso desse índice, quanto maior que 1, mais grave.

Outro dado importante para essa referência é a quantidade de doentes que necessitam de ventilação mecânica na UTI: 36,8% no caso das particulares e 66,5% nas públicas.

"Esse dado me chamou muita a atenção pela diferença. O que pode explicar isso é que a população tem dificuldade no acesso, e chega ao hospital público bem mais grave", relata a enfermeira com formação em UTI e doutora em Ciências da Saúde da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Aracele Cavalcanti.

No caso de pacientes com necessidade de ventilação mecânica, os dados revelam uma diferença menor da mortalidade entre redes pública e privada: 70,5% e 63,6%, respectivamente.

Com mais óbitos, outro indicador —a taxa de mortalidade padronizada (número da divisão entre o percentual de morte esperada pelos indicadores de cada paciente e o percentual de óbitos consumados)— também é bem maior nas UTIs dos hospitais públicos: 2,02, contra 1,41 nos privados. O ideal é que essa taxa fique sempre próximo a 1, ou seja, que não morram mais pacientes que o esperado pela sua idade, gravidade do caso ou comorbidades.

Acesso, transporte e regulação

Segundo Hugo Urbano, diretor científico da Amib, a maior mortalidade reflete problemas no acesso às UTIs dos pacientes, e não deve ser atribuída à qualidade prestada por essas unidades e seus profissionais.

"A gente tem no serviço público ilhas de excelência, a média de serviço é muito boa. Tem de ser levado em conta aí questões como o acesso, o transporte, a regulação", comenta, citando que também não vê diferenças estruturais significativas.

"O parquet [de equipamentos] público e privado é muito parecido: os respiradores disponíveis, tanto para um como para o outro, são similares, e há profissionais de alta experiência em ambos. Temos UTIs no Brasil com excelentes instalações", explica.

Urbano ainda lembra que, como cada paciente é um caso diferente, as taxas variam conforme a gravidade do caso e outros fatores. "O primeiro determinante é a idade do paciente; depois a gente vai ver qual a gravidade; se tem alguma reserva, ou seja, se já tem um câncer ou HIV, por exemplo. Isso tudo influencia demais", diz.

Para o diretor da Amib, as filas de espera por leito de UTI formada em muitos estados devem ter sido determinantes para que pacientes agravassem seus quadros clínicos. "Com certeza isso agrava o quadro. Em muitos lugares foram montados hospitais de campanha etc. [sem UTIs], e os médicos para cuidar de pacientes graves tiveram de ser convocados às pressas, não tinham essa experiência necessária", diz.

Mesma opinião tem a sanitarista Bernadete Perez, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). "Essa fila de espera influencia demais na mortalidade não só nas UTIs, mas também em enfermarias. Quando você passa sete dias esperando um leito, a letalidade aumenta muito porque o paciente piora sem o tratamento adequado", diz.

Perez afirma que a única solução para isso seria a fila única de espera de pacientes, proposta por entidades logo no início da pandemia de covid-19 no país.

"Estamos dizendo isso desde o começo: leitos para todos e vidas iguais. Se a fila fosse única e regulada segundo gravidade e critérios clínicos, sobraria a possibilidade de acesso no SUS [Sistema Único de Saúde]. Isso é a diferença entre viver e morrer, o que está evidente nesse quadro", finaliza.

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