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Coronavírus

Turismo, colapso e flexibilização: como a covid viajou pelo país em 5 meses

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

08/08/2020 13h35

Resumo da notícia

  • São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza foram as principais portas de entrada do novo coronavírus no país
  • Auge do turismo no Nordeste é movimento não detectado antes, mas estudado hoje como agente de propagação na região
  • A partir do contágio interno, estradas e rodovias levaram infecções das capitais ao interior dos estados
  • Em um terceiro momento, pandemia viajou pelos rios e chegou a lugares ermos, afetando tribos indígenas e comunidades rurais
  • Se reabertura for apressada, alertam especialistas, pode levar a novo pico de infecções em regiões que aparentam estabilidade

Em quase seis meses desde a confirmação do primeiro diagnóstico de covid-19 no Brasil, o país já ultrapassa os 100 mil mortos pela doença sendo penalizado pela falta de testagens e insumos, atrasos na notificação de óbitos, trocas no comando do Ministério da Saúde e ausência de dados oficiais que permitam o desenvolvimento de pesquisas a curto, médio e longo prazo.

Essa é a opinião de especialistas que, a convite do UOL, retraçam os caminhos percorridos pelo novo coronavírus até levar o país ao segundo lugar no ranking mundial de número de óbitos segundo a Universidade Johns Hopkins.

"Há uma preocupante falta de informações oficiais [sobre a pandemia]. A iniciativa do governo federal [de restringir o acesso a dados], em junho, amplamente reportada pela imprensa, está sendo repetida por estados e municípios. Muitos estão maquiando dados, e nós não temos a dimensão real do problema, só sabemos que é pior do que é apresentado", avalia Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto.

Alves teve um importante estudo sobre o impacto de medidas como a testagem em massa no número de vidas poupadas interrompido por escassez de dados oficiais.

"Não tem como saber [o índice real de mortos]. Estima-se que, com a subnotificação, o número de casos seja entre 7 e 12 vezes maior [que o notificado]. Se usarmos 10 vezes como base, são 28 milhões de pessoas infectadas. Quando você tem uma perda de vidas da magnitude de 100 mil, você fala, na realidade, em 500 mil, 600 mil", completa Miguel Nicolelis, neurocientista e coordenador voluntário do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste.

Confira três momentos que ajudam a entender a evolução da pandemia no país.

Chegada: turismo em busca do Sol

temperatura rio - Wilton Junior/Estadão Conteúdo - Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

"Não foi uma entrada [do vírus no país], foram várias", explica Paulo Lotufo, epidemiologista da USP.

Em fevereiro, com a China — país de origem do novo coronavírus — fechada e a Europa em alerta, todas as fronteiras nacionais continuavam abertas. Sem saber, quatro capitais brasileiras se tornaram a principal porta de entrada do vírus: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza.

A capital paulista, responsável por cerca de 60% dos voos internacionais do país, foi a primeira a entrar em alerta, com o número de casos suspeitos e confirmados aumentando progressivamente.

"Em São Paulo houve uma explosão. Mas também é difícil falar sobre o Rio de Janeiro e o Ceará porque são lugares em que [os dados] estão mostrando que o vírus tinha entrado no início de fevereiro", afirma Lotufo.

Um movimento não detectado naquele momento, mas estudado hoje, é a influência do verão na propagação do novo coronavírus em território nacional. Com o auge do turismo no Nordeste, em março, Fortaleza, Recife e Salvador tiveram mais casos do que Porto Alegre, por exemplo, outra porta de entrada internacional.

Com o verão, o fluxo se voltou para o Nordeste. As pessoas seguiram o Sol e, ao seguir o Sol, levaram o vírus com elas."
Miguel Nicolelis

Interiorização e primeiro colapso

enterro coletivo - Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo - Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo
Imagem: Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo

Com o crescimento do número de casos e o registro das primeiras mortes por covid-19 em março, abril e maio foram marcadas pela interiorização do vírus. Já não se falava apenas em porta de entrada ou no contato com alguém que havia retornado da Europa: o contágio interno era realidade.

Em São Paulo, não só cidades como Campinas, Santos, Sorocaba e Ribeirão Preto tiveram um salto nos casos, como também municípios menores, à beira das estradas, viram seus números de infectados explodir. O mesmo aconteceu com capitais menores no Nordeste — como Maceió e João Pessoa — e com o Norte.

Puxado por Manaus, o estado de Amazonas, registrou o primeiro colapso da rede pública no início de abril. Com UTIs (Unidades de Tratamento Intensivo) concentradas na capital, o sistema do estado não suportou o pico de 900 contaminados, uma taxa por 100 mil habitantes superior à de São Paulo à época.

Os primeiros casos começaram a se tornar agudos em abril. Então, começou-se a observar contaminação no interior. Isso foi possível pelas estradas que ligavam as capitais aos municípios."
Domingos Alves

Nacionalização por lugares ermos

indígenas coronavírus - BRUNO KELLY/REUTERS - BRUNO KELLY/REUTERS
Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

O terceiro estágio é marcado pela chegada a lugares mais ermos do país, atingindo tribos indígenas na Amazônia e comunidades rurais do Centro-Oeste. Também houve alta no número de infecções em estados que, até então, estavam conseguindo contê-las.

"[A partir de junho,] a interiorização levou o vírus a regiões depauperadas e ele viajou pelos rios, por exemplo. Centro-Oeste e Sul, que provavelmente se beneficiaram da falta de aeroportos internacionais no início, passaram a receber este fluxo diferenciado", explica Nicolelis.

Em paralelo, estados e municípios começaram a adotar ações de flexibilização das medidas de restrição. "O início a flexibilização a nível nacional foi um grande tiro no pé, o começo da exacerbação da interiorização da pandemia do novo coronavírus. Por todo o país, cidades que não são capitais agora estão competindo com as capitais", afirma Alves.

Isso também influenciou diretamente estados que, até então, estavam com índices mais controlados na pandemia, como Santa Catarina e Minas Gerais. Com o fim das restrições, a curva subiu.

Hoje, as regiões Nordeste e Norte mostram queda nas taxas e o Sudeste indica estabilidade. Quem está puxando a mortalidade para cima, agora, é Centro-Oeste, Sul e Minas Gerais, com colaboração do interior de São Paulo."
Paulo Lotufo

Daqui para a frente

reabertura bares - Talyta Vespa/ UOL - Talyta Vespa/ UOL
Imagem: Talyta Vespa/ UOL

A fase atual, de interiorização da pandemia, levanta novas preocupações especialmente devido às medidas de afrouxamento do isolamento social adotadas por muitos estados e municípios.

Depois de nacionalizado o vírus, ele pode voltar a se espalhar e impactar centros que aparentam estar com curvas estáveis ou em queda, como Manaus, Fortaleza e Rio de Janeiro.

Ou seja: ao se espalhar pelo interior dos estados, o novo coronavírus pode desaguar novamente na costa e nas capitais.

"Esses municípios, capitais, que têm se apresentado na mídia como tendo controlado a epidemia — São Paulo inclusive — e que, por isso, ampliam a flexibilização, vão reviver o aumento no número de casos nas próximas semanas. Todo mundo tenta tapar o sol com a peneira", avalia Alves.

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