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Especialistas alertam sobre aumento de doenças em decorrência de queimadas

Especialistas falaram em reunião de comissão temporária na Câmara sobre queimadas em biomas brasileiros, com foco nos incêndios do Pantanal - Governo do MS/Divulgação
Especialistas falaram em reunião de comissão temporária na Câmara sobre queimadas em biomas brasileiros, com foco nos incêndios do Pantanal Imagem: Governo do MS/Divulgação

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

14/10/2020 13h14Atualizada em 14/10/2020 13h59

Especialistas das áreas de saúde e biologia alertaram hoje sobre o risco de aumento e agravamento de doenças em decorrência de queimadas, como cânceres, fibrose pulmonar e outros problemas respiratórios. Parte dos efeitos negativos poderá ser perceptível somente a médio e longo prazo.

A bióloga e chefe da Biodiversidade da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Marcia Chame, afirmou que o calor causado pelas queimadas pode levar à queima pulmonar que, por sua vez, pode gerar fibrose com morbidade ao longo prazo, por exemplo. Ela ressaltou que podem ser atingidos não apenas pessoas, mas também animais silvestres e de criação.

Entre os principais problemas citados estão:

  • asma
  • conjuntivite
  • bronquite
  • irritação de olhos e garganta
  • tosse e falta de ar
  • nariz entupido
  • vermelhidão e alergias na pele
  • problemas cardíacos
  • surgimento de câncer

Médico e representante do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Leonardo Moura Vilela disse que, apesar de haver número relevante de estudos, há certa dificuldade de se isolar causas e efeitos da poluição em decorrência de queimadas.

Mesmo assim, ressaltou que a fuligem contém partículas potencialmente cancerígenas e, quando estas são inaladas, podem gerar doenças respiratórias agudas e crônicas ao longo do tempo, como o próprio câncer.

"Crianças e idosos são os que mais sofrem com essa poluição provocada pelas queimadas", falou, ao citar que o município de Sorriso, no Mato Grosso, chegou a ter partículas suspensas na atmosfera em quantidade quatro vezes maior do que o máximo aceito pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

As declarações foram dadas durante reunião de comissão temporária na Câmara dos Deputados sobre queimadas em biomas brasileiros, com foco nos incêndios do Pantanal.

O integrante do Grupo de Trabalho de Ambiente e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Marcelo Firpo, afirmou que a poluição atmosférica produzida pelas queimadas está relacionada ao agravamento de problemas respiratórios e ao aumento de internações e mortes que poderiam ser evitadas, se não houvesse os incêndios.

"As pessoas têm problemas respiratórios, mas as queimadas agravam esses problemas e intensificam internações e mortes. Por isso, dizemos que são mortes evitáveis", disse.

Citando o coronavírus, Marcia Chame, da Fiocruz, alertou sobre o impacto do rompimento da barreira biológica de um agente infeccioso para a população humana. Até o momento, o Brasil importa doenças, e não as exporta. No entanto, afirmou que a desestruturação de ecossistemas é um fator que pode promover essa quebra na barreira.

Ela ainda chamou atenção para a possível migração de espécies a locais não atingidos pelo fogo e habitados pelos humanos ou com atividades agropecuárias. Por exemplo, o aumento de raiva transmitida por morcegos e hantavirose por roedores.

Na reunião, os participantes consideraram que a promoção e vigilância da saúde não podem ser esquecidas, especialmente em época de pandemia do coronavírus. Eles pediram mais recursos para o SUS (Sistema Único de Saúde) e o fortalecimento de base de dados, com investimentos em pesquisa.

O presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Zasso Pigatto, se posicionou contra o teto de gastos e rechaçou possível perda de R$ 35 bilhões do orçamento do SUS em 2021.

"O que mais nos indigna é essa situação de passar a boiada ao natural, como se nada tivesse a ver com o que está acontecendo e, além de não reagir, ainda fazem falas que desprezam a vida. E a gente está aqui para falar da saúde, dos impactos na saúde. Não tem como desconsiderar essa questão", declarou, em críticas ao governo federal.

Como ações para a prevenção de doenças e a promoção da saúde de populações afetadas, ele defendeu a definição de um plano de gestão de risco descentralizado com coordenação nacional e a produção conjunta de protocolos, instrumentos e normas técnicas a partir da articulação entre vigilâncias epidemiológicas com demais órgãos, além da produção de indicadores para o monitoramento e a avaliação da saúde da população afetada.

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