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Coronavírus

Sem controle da pandemia, Brasil vira laboratório de novas cepas do vírus

20.fev.21 - Movimentação intensa na Ladeira Porto Geral e 25 de Março, no centro da cidade de São Paulo - RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
20.fev.21 - Movimentação intensa na Ladeira Porto Geral e 25 de Março, no centro da cidade de São Paulo Imagem: RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

04/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Possibilidade de variante em Sorocaba acende sinal de alerta entre especialistas
  • Quanto maior a circulação do vírus, maior a chance de variantes, dizem cientistas
  • Tentativa de impedir evolução de cepas depende também de rastreamento e aumento da vacinação
  • "A grande questão não são novas variantes em si, mas de que tipo são", diz pesquisador

O possível surgimento de uma nova variante do coronavírus em Sorocaba, no interior paulista, nesta semana acendeu o sinal de alerta entre pesquisadores. Com o descontrole da pandemia, o Brasil está se tornando um laboratório para evoluções do vírus.

Para especialistas ouvidos pelo UOL, o surgimento de outras cepas, como a P1 (identificada em Manaus em janeiro), não só é possível mas também provável diante do agravamento da crise sanitária. E o pior: sem rastreamento, o Brasil demorará para descobri-las.

Maior a transmissão, maior o risco de variantes

Segundo os pesquisadores, a equação ser feita é simples: quanto maior a circulação do vírus, maior a chance de variantes.

"As variantes surgem principalmente pela pressão de transmissão. Ou seja, quanto mais gente transmitindo, maior a probabilidade surgir um vírus mutante. É um fator determinante para a ocorrência de modificações virais", afirma Bernardino Albuquerque, epidemiologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Amazonas.

Neste ano, a taxa de transmissão do vírus no Brasil, que havia diminuído no final de 2020, se mantém acima de 1, de acordo com a universidade Imperial College London, do Reino Unido, o que indica descontrole da pandemia no país.

No Brasil, o vírus está cheio de possibilidades de replicação e mutação. Não é surpreendente que novas variantes surjam, é inevitável. Tampouco é surpreendente que a P1, por exemplo, evolua"
Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins e membro do "Observatório Covid-19 BR"

Atraso no sequenciamento do vírus

Para Rafael Dhalia, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em Pernambuco, não só podem surgir cada vez mais variantes como é possível que elas já estejam em circulação no Brasil, mas, sem acompanhamento, não há como identificá-las.

"Essas variantes acontecem no mundo todo, são coevoluções, mas, para a gente saber, tem que sequenciar o vírus. Por aqui não temos nem ideia. Essa variante encontrada em Sorocaba já pode estar no Brasil todo e não sabemos", afirma o membro da APC (Academia Pernambucana de Ciências).

Como na vacinação e na testagem, o país também está muito atrasado no sequenciamento do vírus. Enquanto o Reino Unido sequencia 50 pessoas a cada 1.000 casos para identificar evoluções, no Brasil o índice é 0,15 para cada 1.000 casos. Ou seja, é um sequenciado para cerca de 7.000 casos confirmados.

Sabe onde a P1, de Manaus, foi identificada? No Japão, por causa de um brasileiro que chegou febril e eles decidiram sequenciar o vírus. Logo, foi necessário uma pessoa sair do Brasil para descobrir a P1. É vergonhoso"
Rafael Dhalia, pesquisador da Fiocruz

No Brasil, além da P1, foi identificada uma outra variante, apelidada P2, no Rio de Janeiro. Sem incidência rastreada, ela é considerada isolada, mas, segundo Dhalia, "não há como garantir" isso.

O risco é o tipo da variante

O surgimento de variantes é algo comum quando se trata de um vírus. Com maior contato com uma espécie ele vai se adaptando e criando resistência. Logo, mutações não assustam, o que preocupa é o que ela pode virar.

A grande questão não são novas variantes em si, mas que tipo de variantes elas são. São as que causam preocupação? São como a P1, mais transmissíveis? De que maneira vão ter efeitos epidemiológicos relevantes?"
Monica de Bolle

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, que participou do anúncio da variante de Sorocaba, também afirmou ver a situação com atenção e reforçou que é preciso rastrear o vírus.

"Além de ver a incidência, é crucial entender se esta evolução pode ser ainda mais transmissível do que a P1. É isso que causa certa preocupação, que precisamos acompanhar", afirmou Covas ao UOL.

Em janeiro, estimulado pela variante P1, o sistema de saúde de Manaus colapsou por falta de respiradores - SANDRO PEREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO - SANDRO PEREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
Em janeiro, estimulado pela variante P1, o sistema de saúde de Manaus colapsou por falta de respiradores
Imagem: SANDRO PEREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO

Vacinas têm mostrado eficácia, mas não há garantia

As pesquisas sobre eficácia das vacinas nas principais variantes ainda ainda estão sendo feitas pelas empresas e pesquisadores e, até então, os resultados têm sido satisfatórios.

A maioria dos imunizantes já mostrou resultados melhores contra a cepa do Reino Unido, por exemplo. Contra a P1, os estudos são mais restritos, mas tanto a AstraZeneca/Oxford quanto a CoronaVac, usadas no Brasil, já tiveram respostas positivas.

A que mais preocupa, até então, é a variante da África do Sul (E484K), à qual a cepa descoberta em Sorocaba se assemelha. "Vimos isso com todas as vacinas: ela tira um percentual [de eficácia] da Pfizer, da AstraZeneca, da CoronaVac. Dessa [variante nova], ainda não sabemos", afirmou Covas.

De acordo com o Ministério da Saúde, apesar de algumas suspeitas, nenhum caso da variante sul-africana foi confirmada por aqui.

Se as semelhanças entre a cepa de Sorocaba — já apelidada P3 — e a da África do Sul se confirmarem, é mais possível que seja um caso de coevolução do vírus nos dois locais, visto que a paciente identificada em São Paulo não viajou nem teve contato direto com um viajante que esteve no país africano.

Melhor é prevenir

Para reduzir a probabilidade do surgimento de novas e mais fortes variantes, é preciso diminuir a circulação do vírus e acelerar a imunização. De acordo com os pesquisadores, o ideal era ter tentado evitar as cepas que já surgiram, mas nunca é tarde para buscar a desaceleração.

O discurso negacionista, de imunidade de rebanho, mostrou-se totalmente equivocado e só contribuiu para o surgimento dessas variantes. Países que fizeram esse controle [de circulação] não viram o surgimento de evoluções preocupantes. Se o Brasil tivesse escutado lá atrás, com certeza teria evitado"
Rafael Dhalia, da Fiocruz em Pernambuco

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