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Coronavírus

Com atrasos, Brasil vê ritmo de vacinação cair 17% em maio e deve piorar

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

20/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Brasil tem aplicado menos doses por dia neste mês em comparação com abril
  • Chegada de insumos e entrega de produção das vacinas registram atrasos

A vacinação contra a covid-19 no Brasil desacelerou em maio. De acordo com cálculo do UOL feito com base nos dados levantados pelo consórcio da imprensa, o país tem registrado menos aplicações de doses na média diária neste mês do que em abril. E, com o iminente "apagão de doses" por causa de atrasos envolvendo a chegada de insumos para produção dos imunizantes, a situação não deve melhorar.

Até 18 de maio, em média, o país vacinou cerca de 681 mil pessoas por dia contra o novo coronavírus no mês. O número representa uma queda de 17% em relação a abril. No quarto mês do ano, a média foi de cerca de 822 mil pessoas recebendo a primeira ou a segunda dose por dia. O Brasil tem capacidade para vacinar cerca de 2,4 milhões de pessoas por dia, mas faltam imunizantes.

Para o presidente do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), Carlos Lula, o dado gera preocupação em um cenário com atrasos na entrega do insumo para produção das vacinas e, consequentemente, na entrega das doses. "A gente vai ter uma diminuição nesses números para patamares ainda menores. Vamos ter entrega do ministério nesta semana e não sabemos quando vai ter a próxima", diz. "E era para a gente estar acelerando o processo de vacinação."

Atrasos e terceira onda

O receio em razão dos atrasos cresce por causa do aumento de casos em alguns estados, e o crescimento da lotação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), como tem se verificado em São Paulo.

Carlos teme os efeitos da soma entre a chegada de uma terceira onda da pandemia no país e o "apagão de vacinas". "E a gente tem que se preparar para isso nas próximas semanas. Infelizmente, isso vai acontecer."

O Brasil deverá ser afetado por problemas na produção de doses da CoronaVac e da vacina AstraZeneca. Segundo projeção feita para o UOL, cerca de metade dos estados deve ficar sem estoque da CoronaVac, imunizante que tem o menor intervalo entre a aplicação das duas doses na comparação com as outras duas vacinas usadas no país. São 28 dias contra três meses das vacinas AstraZeneca e da Pfizer.

Em um cenário de "apagão", estima-se que cerca de 5 milhões de brasileiros ainda não completaram o esquema vacinal com a aplicação da segunda dose. O Ministério da Saúde, porém, diz que "estados que reportaram falta de doses para completar o esquema vacinal foram atendidos nas últimas pautas de distribuição" de doses.

Sugestão de mudança

Cerca de 40 milhões de brasileiros já receberam ao menos uma dose de vacina contra a covid-19. Em maio, até a última terça (18), o Brasil aplicou cerca de 12,2 milhões de doses no mês. O ministério diz ter distribuído, no mesmo período, cerca de 26 milhões de doses.

De acordo com Carlos, é errado concluir que todas as doses distribuídas serão aplicadas imediatamente. "Parte dessas doses são de reserva técnica, que a gente já deixa separado para perdas, e parte está reservada para segunda dose. Não dá para aplicar tudo ao mesmo tempo."

Um outro problema levantado pelo presidente do Conass é a burocracia do PNI (Programa Nacional de Imunização). "A gente segmentou muito. E, agora, passamos por dificuldade em alguns municípios, sobretudo no interior do país, de encontrar pessoas para vacinar", diz Carlos. "Então talvez o público tenha sido superestimado e aí a gente não encontra mais ninguém."

Carlos também é secretário de Saúde do Maranhão. Ele diz que, em algumas cidades de seu estado, as pessoas com mais de 60 anos já foram imunizadas com ao menos uma dose. "Não pode baixar de 60 anos em razão de seguir os parâmetros do PNI."

Ontem, por exemplo, o governo de São Paulo anunciou que pretende começar a vacinar quem tem menos de 60 anos de idade em algum momento entre 1º e 20 de julho. "Esperamos que o Ministério da Saúde cumpra com seu calendário de vacinação e envie as doses para que a gente possa fazer isso", disse, em pronunciamento à imprensa, Regiane de Paula, responsável pela coordenação do programa de imunização no estado de São Paulo.

Múltiplas filas?

Junto ao Conass, Carlos pretende sugerir ao Ministério da Saúde uma proposta para que a fila de vacinação seja dividida em duas: uma para o público prioritário e outra para as faixas etárias. "Seria uma mudança no critério do PNI. A gente teria de 70% a 80% das doses para aplicação conforme faixa etária. E 20% ou 30% voltadas para o público segmentado."

O presidente do conselho diz acreditar que essa medida aceleraria a vacinação no país. "A gente teve uma disputa por segmentação", avalia. "Para que isso não aconteça, me parece que é mais simples a gente estabelecer uma vacinação com esse critério."

O infectologista Evaldo Stanislau, do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), discorda dessa ideia. "Criar a fila da fila ou rotinas paralelas não impacta o todo", diz. "Temos que resolver a crise de oferta para não termos mais esse tipo de discussão, inclusive constrangedora, sobre grupos prioritários."

O ideal é destravar o todo: acelerar a ButanVac [vacina desenvolvida pelo Butantan], resolver as pendências da [vacina russa] Sputnik, resolver e evitar rusgas com a China, e tentar aumentar a oferta da Pfizer e da Janssen. Se não ficou claro, tem que ficar. Sem vacina a crise não passa
Evaldo Stanislau, infectologista do HCFMUSP

Problema para programação

A gestão de Marcelo Queiroga frente ao ministério completa cerca de dois meses após a saída do general Eduardo Pazuello. Carlos diz que atuação da pasta a respeito das vacinas piorou com o novo comandante porque as projeções de entregas futuras de doses deixaram de existir de forma mais discriminada.

Quando Pazuello estava na pasta, era comum que as projeções de entregas não se cumprissem. "Como vinha muita frustração das informações que eram passadas [na gestão Pazuello], passaram a informação quando já estavam distribuindo. É pior ainda. Eu não tenho nem como me programar. Vai chegar esta semana, mas que dia?", lembra o presidente do Conass.

Ontem, por exemplo, a Pfizer anunciou a chegada de mais um lote de doses que os estados não tinham conhecimento de que receberiam nessa data.

"Acho que o que tinha que haver é transparência em relação a isso. E mais do que isso: planejamento", diz Carlos. "Mas hoje não consigo fazer isso. Porque simplesmente o ministério se calou, se fechou. É uma reclamação de todos os secretários."

A Rede Sustentabilidade apresentou nesta semana um pedido ao STF (Supremo Tribunal Federal) para que o ministério esclareça, mês a mês, as expectativas de entregas de doses. A gestão Queiroga apresentou um cronograma apresentando dados sobre os próximos dois trimestres, sem o detalhamento mensal.

A gente fazia uma previsão com base no que o ministério estava esperando. Agora a gente não sabe nem o que eles esperam. Porque, simplesmente, eles não falam
Carlos Lula, presidente do Conass

O UOL pediu um posicionamento do Ministério da Saúde, mas não obteve um retorno até o fechamento do texto.

Para de Paula, é preciso ter ritmo de vacinação, "e isso se dá com a compra e a chegada de mais vacinas". Stanislau concorda.

"Parece que o Ministério não conseguiu avançar nesse campo. Seria muito importante uma atuação explícita e ativa junto aos órgãos de decisão, como a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e interministerial, como o Itamaraty, para mostrar interesse e resolver pendências", diz o infectologista da HCFMUSP ao analisar a gestão de Queiroga. "E, infelizmente, eu não vejo o ministério sendo proativo nisso", complementa Carlos, do Conass.

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