Depoimento: "Em plantões, viro a médica de pacientes que verei só uma vez"

Daniela Lamas*

  • Adam McCauley/The New York Times

"Três ou quatro noites por mês, trabalho em um segundo emprego, de noite, em uma unidade de terapia intensiva.

Ter dois empregos é uma coisa engraçada. Se você está doente durante aquelas 12 horas, sou sua médica. Então, na manhã seguinte, vou para casa, como e tiro uma soneca. Quando acordo, estou de volta ao mundo do dia. Faço isso para ganhar um dinheiro extra. E existe uma grande possibilidade de que eu nunca mais veja você de novo.
 
Quase todos os médicos que conheço têm histórias de um segundo emprego noturno. Quando chega a noite, deixamos nossos laboratórios e clínicas para nos aventurar em plantões em departamentos de emergência, unidades de terapia intensiva e alas de medicina geral. Quando eu era pequena, meu pai – um cardiologista sem treinamento formal em medicina de emergência – fazia plantões de 19 horas todos os meses como o único médico de uma emergência a 100 quilômetros de Boston. É um vasto subterrâneo noturno em que a continuidade dos cuidados desaparece quando o sol se põe.
 
Os pacientes mudam, mas o padrão não. Cada plantão começa com um passeio introdutório. Na unidade em que faço a maioria dos meus plantões, existem dez camas, e os médicos do dia vão comigo de quarto em quarto. Paramos na frente das portas, e eles me contam o que preciso saber para a noite. Faço anotações nas margens da minha lista de pacientes.
 
Haldol, anotei para mim mesma em um dos plantões recentes, para um homem que tentara sair da cama na noite anterior. Meta negativa, escrevi para outra, uma mulher com falência cardíaca cuja equipe estava tentando ajudar a urinar litros de excesso de fluido todos os dias.
 
Então, chegamos à senhora R. "Nova", coloquei em minhas notas. Ela havia chegado minutos antes de mim, por volta das sete da noite. Tinha apenas 60 anos, mas parecia mais, envelhecida por cirurgias e quimioterapia para um câncer uterino. Sua barriga estava inchada e o resto de seu corpo, cansado. Podia ver suas costelas subindo e descendo à medida que o aparelho de respiração enchia seus pulmões de ar.
 
Apresentei-me para os enfermeiros que estavam em volta de sua cama vestidos com seus aventais amarelos.
 
"Sou a plantonista da noite. Meu nome é Daniela."
 
A senhora R. estava internada no hospital há três ou quatro dias antes de chegar na unidade de terapia intensiva, contou-me uma das enfermeiras enquanto lutava para encontrar a veia no braço sardento da paciente. Ela estava se recuperando de uma infecção grave no trato urinário, mas hoje algo tinha dado errado. Sua pressão sanguínea havia caído. O nível de acidez em seu corpo explodira. Ela estava confusa.
 
A equipe do dia não sabia direito o que havia acontecido, mas estava preocupada com a possibilidade de o câncer ter erodido seu cólon e perfurado esse órgão delicado. Tomografia computadorizada? Escrevi em minha lista. Então, como se precisasse lembrar, anotei "doente".
 
Falei para o médico do dia que estava tudo sob controle, que ele podia ir para casa.
 
Depois que a equipe do dia foi embora, a pressão da senhora R. desabou. Meu estagiário e eu passamos horas ao seu lado, brigando para colocar um grande tubo intravenoso em uma das veias de seu pescoço ou virilha. Quando finalmente conseguimos, seu sangue havia deixado manchas em meu avental.
 
A tomografia mostrou o que esperávamos: parte de seu intestino parecia que tinha sido privado de sangue e estava morto. Liguei para seu filho.
 
"Sou a plantonista da noite que está tomando conta de sua mãe", eu me apresentei como uma voz sem nome do outro lado do telefone. Provavelmente, nunca nos conheceríamos.
 
Durante o dia, poderia ter pedido a ele para me falar sobre sua mãe. O que ela gosta de fazer? O que acha importante? Mas aqui, de noite, eu era apenas a plantonista. E por isso falei que havia acabado de conhecer sua mãe e que ela estava muito mal. Ele chorou e fez perguntas e então me agradeceu. Chegaria de manhã com o pai. Sabia que estariam vindo provavelmente para dizer adeus.
 
Nós nos conheceríamos então? Não tinha certeza.
 
Quando o sol nasceu, minha paciente não estava pior, mas também não havia melhorado. Contei isso aos médicos do dia quando eles voltaram às sete da manhã e andamos pela unidade, como havíamos feito 12 horas antes. Tínhamos conseguido atingir os objetivos de volume para a paciente com falência cardíaca. A senhor R. ainda precisava do aparelho de respiração e de altas doses de remédio para manter seu coração funcionando. Seu filho estava a caminho.
 
"Noite cheia", comentou o residente da manhã. Nos cumprimentamos. Dei a ele o pager e me aprontei para sair. "Espero que você consiga dormir um pouco."
 
Saí esperando que o filho de minha paciente chegasse a tempo para que conversássemos ao vivo. Fiquei pensando se deveria esperar, mas realmente precisava dormir um pouco antes de minha sessão de clínica da tarde. Naquele momento, ainda estava imersa na bruma doentia da noite, mas sabia que quando chegasse em casa, tiraria meu avental sujo e entraria em um banho quente. A noite começaria a parecer, como sempre acontece, como um sonho longo e estranho. Os rostos, os cheiros, a voz do filho ao telefone, tudo isso se tornaria apenas uma memória.
 
Em poucas semanas, meu cheque como pagamento pelo plantão chegaria. E então eu me inscreveria para mais alguns.
 
* Membro da equipe de cuidados pulmonares e críticos do Hospital Brigham & Women em Boston. Neste texto, ela faz um relato sobre sua experiência em plantões médicos

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