Consulta pelo celular pode ajudar a cuidar da saúde dos adolescentes

Perri Klass

  • Adam McCauley/The New York Times

Eu me lembro da primeira vez em que um de meus filhos me mandou uma imagem de uma lesão na pele. Não era a foto da pele do meu filho, mas de um colega de faculdade, e a mensagem dizia algo como: "Oi, mãe, meu amigo precisa se preocupar com isto?"

Não havia informações que permitissem identificação -- não conseguia nem dizer na verdade que parte do corpo eu estava olhando -- e com certeza não havia histórico médico (um jovem de 19 anos com boa saúde tem essa marca no braço há uma semana, e ela parece estar ficando maior, mas não dói se apertarmos... só isso). Tentei encarar como uma homenagem -- amigos sentados no quarto do dormitório, mostrando uns para os outros caroços e inchaços engraçados, e vem meu filho e diz: "Hum, minha mãe vai poder te dizer o que é isso!"

A intensidade com a qual adolescentes vivem em seus celulares não é novidade. Muitos pais se veem tentando, e frequentemente não conseguindo, impor regras ao seu uso na mesa de jantar ou na hora de dormir. Ir para a faculdade em outra cidade significa, entre muitas formas de independência, liberdade para usar o celular.

A telemedicina tem sido notícia frequente, enquanto os pesquisadores investigam como a tecnologia pode aumentar o alcance dos serviços médicos, e uma boa quantidade de desenvolvedores de startups e aplicativos procuram maneiras de incorporar os cuidados médicos e nosso relacionamento com nossos aparelhos. E, em pediatria, existe uma discussão sobre o potencial de tornar a saúde parte dessa conectividade dos adolescentes.

Algumas pesquisas mostram que os adolescentes estão abertos a pelo menos alguns aspectos dos cuidados médicos pelo telefone, e uma variedade de esforços estão acontecendo para incorporar mensagens de texto em tratamentos de saúde física e mental, para aumentar o alcance dos serviços de aconselhamento e mesmo para oferecer ajuda a jovens em crise. Alguns estudos mostraram que adolescentes com questões médicas crônicas, incluindo transplantes de fígado e diabetes tipo 1, seguem melhor suas rotinas de tratamento quando recebem mensagens de texto lembrando-os do que fazer.

Está claro para os pediatras que os adolescentes geralmente são frustrantemente vagos sobre seus sintomas -- por quanto tempo, quão severo, está melhorando ou piorando. Sua prontidão para documentar suas vidas pelo celular pode ser muito útil já que o que era difícil de conseguir no consultório agora geralmente está muito bem registrado. "Mesmo quando não é uma comunicação à distância, melhora a conversa porque eles pensam em usar o celular para tirar uma foto da lesão e mostrar a você no consultório", explica a doutora Cindy Osman, professora associada clínica de Pediatria da Universidade Nova York.

Também é bastante claro na pediatria que os pais que trabalham em áreas médicas desenvolvem um forte sentimento do que você pode diagnosticar por mensagens de texto e pelo telefone. Uma amiga pediatra me contou uma história sobre a vez em que recebeu uma mensagem de seu filho universitário dizendo "minha garganta dói" e achou que era uma infecção viral que deveria sarar sozinha. Até que ele ligou, ela ouviu seu tom de voz e percebeu o quanto estava doendo, e mandou que fosse fazer os exames necessários para um diagnóstico de verdade.

Miki Conrad, que trabalhou como enfermeira de cuidados intensivos em Olympia, em Washington, por 35 anos, tem quatro filhos, que hoje estão com idades entre 20 e 30 e poucos anos, que lhe enviam mensagens e fotos com suas questões médicas desde que foram para a faculdade. "Eles mandavam muitas fotos -- oh, eu chutei tal pessoa na canela, olha meu dedão. E logo começaram a enviar imagens dos machucados e lesões de seus amigos."

Patrick K. FitzGerald, vice-presidente de empreendedorismo e inovação do Hospital de Crianças de Filadélfia, diz que "de alguma maneira, atualmente estamos todos fazendo autodiagnósticos", usando vários sites e ferramentas da internet. A questão, afirmou, é como os hospitais podem incorporar isso nos cuidados com seus pacientes "para que as pessoas recebam o tratamento certo a um preço justo".

O doutor James P. Marcin, especialista em cuidados pediátricos intensivos da Universidade da Califórnia Davis, foi o autor principal da declaração de política em telemedicina da Academia Americana de Pediatria e de como ela pode ser usada para melhorar o acesso dos cuidados para crianças. As recomendações incluíam um incentivo geral no sentido de diminuir as barreiras, aumentar as pesquisas e compensar os médicos pelos diagnósticos feitos por meio de aparelhos, junto com avisos sobre os perigos dos cuidados médicos fragmentados.

"Os adolescentes vivem em seus aparelhos, e as pessoas estão tentando avaliar os prós e contras de atividades relacionadas à medicina nesses equipamentos com sucessos variados", explica Marcin, mostrando sites que permitem que os adolescentes discutam como vivem com doenças crônicas, enquanto avisa que eles talvez não ofereçam os conselhos mais confiáveis. "Acho que, como provedores de saúde, precisamos trabalhar com os desenvolvedores dessas tecnologias e os jovens que estamos tentando servir para descobrir o que funciona melhor para eles."

Miki Conrad, cujos filhos são atletas, já descobriu dedos quebrados em fotos que vieram em mensagens e revisou imagens de escoriações depois de jogos de futebol de salão. Também diagnosticou uma doença mais séria pelo telefone quando seu filho ligou do dormitório da faculdade para dizer que estava doente havia alguns dias e não conseguia andar direito -- e Miki percebeu que sua fala estava arrastada. Ele acabou na emergência com mononucleose.

"Eles não me ligam ou mandam mensagens todos os dias. Eu quase acho bom quando chegam essas fotos nojentas -- isso me mostra que estão bem e sabem que se tiverem algum problema físico só precisam me ligar", conta ela.

Eu acho o mesmo, embora frequentemente acabe dizendo: "Se está incomodando muito, talvez seja melhor pedir para uma pessoa dar uma olhada ao vivo".

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