Cientistas buscam respostas sobre a zika em outros vírus

Carl Zimmer

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Nos últimos meses, o vírus da zika rapidamente ganhou tanta notoriedade quanto o ebola ao se espalhar pelo Ocidente. Pesquisadores no Brasil, onde foi detectado pela primeira vez, em maio, vinculam as infecções em mulheres grávidas a uma disfunção conhecida como microcefalia, que faz com que os bebês nasçam com a cabeça muito pequena.

Porém, a zika não é o único relacionado a defeitos de nascimento; alguns outros vírus, tais como o da rubéola e o citomegalovírus, representam um grave risco durante a gravidez. Pesquisadores descobriram algumas pistas importantes sobre como esses patógenos afetam os fetos -- e que estão ajudando a orientar pesquisas na provável ligação entre a zika e a microcefalia.

"Acho que vamos descobrir um monte de paralelos", disse Mark R. Schleiss, diretor de Infectologia Pediátrica e Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Minnesota, nos EUA.

O risco que os vírus representam durante a gravidez foi percebido em meados do século passado, quando surtos de rubéola levaram a ondas de defeitos congênitos, incluindo microcefalia, catarata e deformidades cardíacas e hepáticas.

O número de bebês afetados foi surpreendente: em uma epidemia na Filadélfia, EUA, em 1965, um por cento de todos os bebês nasceram com Síndrome da Rubéola Congênita (SRC), que também pode causar surdez, deficiência de desenvolvimento, baixo peso ao nascer e convulsões.

Graças às vacinas, esse quadro agora é raro nos Estados Unidos e em vários outros países. "Tenho 52 anos e vi apenas um caso de Síndrome da Rubéola Congênita", disse David W. Kimberlin, professor de Pediatria da Universidade de Alabama, em Birmingham.

 

Porém, o vírus ainda é uma ameaça grave nos países em desenvolvimento. Em todo o mundo, mais de cem mil crianças nascem a cada ano com SRC.

Outros agentes também foram identificados como causadores de defeitos congênitos: o citomegalovírus, por exemplo, contribui anualmente com pelo menos cinco mil deles, só nos Estados Unidos.

Os médicos não fazem exames sistemáticos para ele ou outras ameaças virais bem conhecidas e pode ser difícil conectá-los a defeitos de nascimento. A menos que haja um surto repentino, é complicado distinguir os efeitos do vírus de outras causas.

Como resultado, a verdadeira escala de defeitos congênitos causados dessa forma permanece desconhecida.

"Não temos uma boa estimativa desse número", disse Peggy Honein, epidemiologista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

Compreender como certos vírus infectam fetos tem sido um grande desafio para os cientistas. O citomegalovírus só ataca seres humanos: para estudar a doença em, por exemplo, porquinhos-da-índia, os pesquisadores tiveram de usar uma espécie de citomegalovírus que infecta apenas esses animais.

Recentemente, no entanto, os cientistas descobriram como desenvolver o vírus em culturas de células humanas; esses estudos têm ajudado a mostrar que, quando uma mulher grávida é infectada, o citomegalovírus não ataca o feto imediatamente.

Lenore Pereira, virologista da Universidade da Califórnia em San Francisco e outros pesquisadores documentaram uma longa série de etapas pelas quais o vírus deve passar para completar esse trajeto. "Pode levar semanas", disse ela.

O citomegalovírus infecta primeiro a parede do útero; em seguida, dirige-se à placenta, mas ataca apenas determinados tipos de células.

Ele segue então para o saco amniótico e depois para o feto.

Se atingí-lo no início do desenvolvimento, a infecção pode causar sérios danos, especialmente ao cérebro -- que, nessa altura, já cresce rapidamente, embora o sistema imunológico não esteja desenvolvido.

Quando o citomegalovírus chega ao dito órgão, espera alguns dias e somente depois que começa a amadurecer é que o vírus se multiplica dentro de células-tronco, que mais tarde darão origem aos neurônios.

O processo parece suspeitamente bem cronometrado para alguns pesquisadores. "Talvez a estratégia seja não matar o hospedeiro", disse Dana G. Wolf, diretora da Unidade de Virologia Clínica do Centro Médico da Universidade Hebraica Hadassah, em Jerusalém.

No Brasil, os cientistas estão comparando os danos cerebrais que podem ter sido causados pelo vírus da zika com o que se sabe sobre os efeitos do citomegalovírus e do agente da rubéola. "Algumas descobertas em nossos pacientes são surpreendentemente diferentes", disse Lavinia Schuler-Faccini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"O zika vírus parece causar mais danos ao cérebro", disse Lavinia. Ela observou que a superfície de alguns dos cérebros microcefálicos se torna excepcionalmente macia, sintoma não visto em infecções de rubéola ou citomegalovírus.

Sua hipótese é de que o vírus infectou os fetos nos primeiros estágios de desenvolvimento, criando uma maior perturbação das células que dão origem ao cérebro.

Gil G. Mor, diretor de ciências reprodutivas na Escola de Medicina da Universidade de Yale, disse que os cientistas não devem excluir a possibilidade de que o vírus da zika tenha causado danos sem nunca ter infectado os fetos.

Ele e seus colegas encontraram evidências de tais danos indiretos ao infectar ratas grávidas com um vírus semelhante ao do herpes -- que nunca passou da placenta e infectou o feto, mas mesmo assim, de alguma forma, as mães deram à luz filhotes com deformidades cerebrais.

Segundo Mor, quando certos vírus atacam a placenta, podem desencadear uma resposta imunológica poderosa da mãe. Moléculas que provocam inflamação se propagam da infecção, e algumas podem chegar ao feto. Seus tecidos podem então inchar e se danificar, chegando até a morrer.

Mor disse que suspeitou que os cérebros dos fetos pudessem ser especialmente vulneráveis a esse tipo de dano no início de seu desenvolvimento. "Tudo o que vem da mãe vai para o cérebro, seja bom ou ruim."

"Como resultado, os pesquisadores que procuram uma conexão entre o vírus da zika e os defeitos de nascimento não devem limitar sua pesquisa apenas a crianças com deformidades. Você pode procurar e não encontrar nada", acrescentou.

Koen Van Rompay, virologista da Universidade da Califórnia em Davis também está à procura do vírus da zika, mas não em seres humanos. Ele e seus colegas estão se preparando para infectar macacas grávidas para ver como seus descendentes são afetados.

Se descobrirem defeitos de nascimento, vão investigar se o vírus invade diretamente os fetos ou se causa uma resposta imunológica nociva na mãe.

"Vamos manter as duas opções em aberto", disse Van Rompay.

As lições que os cientistas aprenderam com vírus tais como o da rubéola e o citomegalovírus também podem apontar para possíveis tratamentos.

"Se entendemos como infecta as células, podemos desenvolver maneiras de suprimí-lo", disse Lenore Pereira. Estudos do citomegalovírus, por exemplo, sugerem que pode ser possível evitar problemas congênitos injetando anticorpos na mãe antes que o vírus chegue ao feto.

Mor disse que a atenção voltada agora para o zika pode fazer os cientistas avaliarem o quanto um vírus consegue afetar a saúde fetal.

Além das deformidades presentes no nascimento, essas infecções também podem ter efeitos tardios sobre as crianças. Aos oito anos, por exemplo, ela pode ficar surda por causa do citomegalovírus que infectou sua mãe durante a gravidez.

Os efeitos da reação da mãe ao vírus podem também ser de enorme importância, mas, até agora, os cientistas não os compreendem muito bem. Alguns estudos sugeriram que uma infecção viral durante o desenvolvimento fetal pode aumentar o risco de a criança desenvolver autismo ou esquizofrenia. Levará muitos anos e muito mais evidências para confirmar essas conexões.

"Não podemos ignorar as infecções durante a gravidez. O problema não é apenas a zika", disse Mor.

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