Pesquisadores fazem apelo no surto de febre amarela: não matem os macacos

Simon Romero, Ernesto Londoño, Paula Moura e Dom Phillips

No Rio de Janeiro, em Cambridge e em São Paulo

  • Parque Dois Irmãos/Divulgação

Enquanto se espalha pelo Brasil o medo do ressurgimento da febre amarela, as autoridades de saúde lançam uma advertência: parem de matar os macacos.

Algumas pessoas mataram macacos a pauladas em reações de pânico ao mais alarmante surto em décadas de um vírus que assolou o Brasil no século 19 e início do 20. As autoridades encontraram outros macacos mortos com o crânio quebrado depois de ser atacados com pedras. Um macaco foi queimado.

Halder Ramos/Divulgação Gramadozoo
Bugio-ruivo atacado em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul
Especialistas em doenças infecciosas dizem que as pessoas estão visando o alvo errado. Os mosquitos, e não macacos, são na verdade o vetor do vírus, e os primatas estão morrendo de febre amarela em número muito maior que os seres humanos no Brasil. Os que matam macacos estão agravando a situação, ao dizimar as populações de macacos que servem como indícios de onde a febre está se espalhando, dizem os epidemiologistas.

"Eles estão colocando os seres humanos em risco ainda maior ao matar o mensageiro", disse Renato Alves, uma autoridade do Ministério da Saúde do Brasil que está acompanhando o surto.

Os macacos são um mecanismo de alerta crucial, que monitoramos para distribuir vacinas e iniciativas de prevenção nos lugares certos."

Renato Alves

Os apelos das autoridades para que parem de matar os macacos no Brasil, que tem a mais rica diversidade de primatas do mundo, ocorrem em meio à ampla preocupação sobre o vigor renovado de um vírus que se classifica entre as maiores ameaças à saúde pública aqui antes do início dos programas de vacinação em massa, nos anos 1940.

A febre amarela, que pode incluir sintomas como icterícia, febre alta e falhas de múltiplos órgãos, já matou pelo menos 240 pessoas nos últimos meses, segundo o Ministério. A doença, normalmente encontrada em partes da bacia Amazônica, se disseminou pelos Estados mais populosos do país: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Ricardo Borges/Folhapress
Fila para vacinação contra febre amarela no Rio de Janeiro

Enquanto a febre amarela sai da Amazônia, as autoridades de várias áreas do sudeste do Brasil relataram nas últimas semanas episódios de macacos sendo mortos ilegalmente, envolvendo uma série de métodos, como envenenamento, tiros e pauladas.

As mortes refletem uma grande incompreensão no país sobre como a febre amarela se propaga. Os casos selváticos, que ocorrem na natureza, envolvem macacos que são infectados por espécies de mosquitos que habitam a floresta.

Os mesmos mosquitos transmitem o vírus para seres humanos que entram na mata, como garimpeiros, caçadores ou madeireiros. Esses surtos são geralmente pequenos. Enquanto a febre amarela é muitas vezes assintomática em humanos, os pacientes que desenvolvem sintomas severos podem morrer em sete a dez dias.

"As pessoas nas regiões onde a febre amarela está avançando muitas vezes não percebem como os macacos são importantes para nos informar sobre a doença", disse Danilo Simonini Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia.

Os macacos morreram em número muito maior que os humanos no atual surto selvático no Brasil. As autoridades estimam que mais de 4.400 desses animais morreram de febre amarela nos últimos meses; subespécies como os bugios são especialmente vulneráveis.

Avanço da febre amarela

Enquanto o surto deixou muitas pessoas nervosas, especialistas em vírus temem a possibilidade de que a febre amarela possa sair de controle, disseminando-se rapidamente pelas cidades, despertando fantasmas de epidemias que devastaram áreas urbanas como o Rio de Janeiro há mais de um século.

Nos surtos urbanos, as pessoas infectadas geralmente introduzem a febre amarela em áreas muito populosas, onde o vírus pode ser transmitido por mosquitos Aedes aegypti, a mesma espécie de grande resistência que propaga vírus como chikungunya, dengue e zika.

Enquanto a África enfrentou recentemente esses surtos urbanos, inclusive uma epidemia em 2016 em Angola, eles são raros nas cidades da América do Sul. Em 2008, epidemiologistas encontraram transmissão de febre amarela por Aedes aegypti na capital do Paraguai, Assunção. O último surto urbano confirmado da doença nas Américas teria ocorrido nos anos 1940.

Enquanto as autoridades voltam a combater esse mal no Brasil, manifestam seu alívio de que ele não evoluiu para um surto urbano. Quase 19 milhões de doses da vacina estão sendo distribuídas em áreas onde o vírus se espalha. A Organização Mundial de Saúde também está fornecendo ao país 3,5 milhões de doses da vacina de seu estoque de emergência.

Além de pedir que as pessoas sejam vacinadas e parem de matar os macacos, as autoridades brasileiras estão pedindo que eliminem locais com água parada, onde os mosquitos podem procriar, como pneus velhos ou pisos de chuveiros. Mas em partes pobres do Brasil, onde a febre amarela atingiu mais forte, alguns dizem que as autoridades demoraram para reagir.

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"É claro que caçar macacos é errado, mas quando os macacos começaram a aparecer mortos de febre amarela a vacinação deveria ter começado", disse Dalia de Oliveira, 30, uma manicure. Seu primo, Watila dos Santos, um operário da construção de 38 anos, morreu em março pelo vírus em Casimiro de Abreu, no interior do Estado do Rio.

"Ele foi ao hospital público e foi diagnosticado erradamente com sinusite", disse Oliveira. "As autoridades poderiam ter sido mais atuantes na prevenção dessa tragédia, mas preferiram minimizar a situação."

O ministro da Saúde do Brasil, Ricardo Barros, admitiu em uma entrevista que menos pessoas teriam morrido nos últimos meses se o governo tivesse reagido mais vigorosamente nas primeiras fases do surto.

"Pode ter havido uma falha na vacinação depois que os primeiros macacos apareceram mortos em Minas Gerais", disse Barros, citando o Estado mais atingido pelo surto, com mais de 160 mortes.

Especialistas em doenças infecciosas estão tentando determinar por que a febre amarela surge com maior ferocidade neste ano no Brasil. A doutora Anna Durbin, pesquisadora na Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, disse que uma combinação de fatores pode estar em ação, incluindo a mudança climática e o desflorestamento de áreas que servem como zonas tampão entre florestas tropicais e áreas urbanas.

"Uma grande preocupação é que o vírus salte o Canal do Panamá" para a América Central, disse Durbin.

O vírus também pode ter o potencial de se espalhar para Porto Rico e gerar casos relacionados a viagens nos EUA continentais, disseram recentemente no "The New England Journal of Medicine" os doutores Anthony S. Fauci e Catharine I. Paules, do Instituto Nacional de Alergias dos EUA. No final de abril, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA advertiram sobre a falta de vacinas contra febre amarela no país, por causa de recentes problemas de fabricação.
Enquanto os epidemiologistas monitoram o avanço da doença em partes do Brasil, os macacos continuam aparecendo mortos, seja pela mão do homem ou em consequência do vírus. Pesquisadores dizem que o vírus ameaça espécies já em risco de extinção, como o mico-leão dourado, que vive nas florestas do Rio de Janeiro.

Karen Strier, uma antropóloga da Universidade de Wisconsin que estuda macacos na mata Atlântica do Brasil desde os anos 1980, disse que nunca viu macacos morrerem por doença em números tão elevados. Ela descreveu uma "sensação de vazio" em uma reserva perto de Caratinga, em Minas Gerais, de onde desapareceram muitos bugios.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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