Briga muito em casa? Estudos mostram que a culpa pode ser da falta de sono

Tara Parker-Pope

  • The New York Times

    Noites mal dormidas podem potencializar brigas conjugais, apontam estudos

    Noites mal dormidas podem potencializar brigas conjugais, apontam estudos

Começou como uma simples conversa sobre a festa de aniversário de um dos filhos. Mas rapidamente se transformou em um intransponível abismo conjugal. Ela o acusou de negligenciar a família. Ele disse que ela estava gritando.

"Seja como for", disse ela. "Vá. Vá."

"Ir para onde?", ele respondeu.

"Eu não sei", ela disse. "Eu não quero mais falar com você."

Os pais desta briga estavam entre os 43 casais que participaram de um estudo da Universidade Estadual de Ohio, que explorou como as interações conjugais influenciam a saúde das pessoas. Cada casal do estudo --assim como os do mundo real-- experimentou alguma forma de conflito conjugal rotineiro. Os tópicos explosivos incluíam gestão de dinheiro, passar tempo juntos como família ou a intromissão de um parente no relacionamento.

No entanto, apesar das questões conjugais serem universais entre os casais, a maneira como eles as tratam não é. Alguns casais argumentaram de forma construtiva e até com gentileza, enquanto outros --como a dupla que brigou por causa da festa de aniversário-- eram hostis e negativos.

O que fez a diferença? Os casais mais hostis estavam entre aqueles que não dormiam muito.

"Quando as pessoas dormem menos, é um pouco como se elas olhassem o mundo através de lentes escuras", explica Janice Kiecolt-Glaser, pesquisadora de relações longas e diretora de Pesquisa de Medicina Comportamental do Instituto Estadual de Ohio. "Seu humor piora. Elas ficam mais carrancudas. A falta de sono prejudica a relação."

Os homens e mulheres que participaram do estudo tinham de três a 27 anos de casados. Eles relataram quantidades variáveis de sono --entre 3,5 a nove horas por noite. Cada casal fez duas visitas ao laboratório, onde os parceiros foram instigados a falar sobre os problemas que causaram o maior conflito em seu relacionamento. Em seguida, os pesquisadores analisaram os vídeos de suas falas usando técnicas de pontuação bem estabelecidas para avaliar interações positivas e negativas e respostas hostis e construtivas. Depois que todos os dados foram analisados, surgiu um padrão claro.

Os casais eram mais propensos a ser hostis --como o casal da festa de aniversário da criança-- quando ambos tinham um padrão de menos de sete horas de sono.

É importante notar que os casais em que as pessoas dormiam mais de sete horas de sono ainda discutiam, mas o tom de seu conflito era diferente. Considere este casal discutindo preocupações sobre gastos e desafios orçamentários.

"Você quer tentar cuidar do orçamento?"

"Eu não posso. Nem quero."

"Eu entendo."

"Você está concordando demais. Você pode me dizer que sou louco."

"Você não é louco."

Embora o casal tenha indicado que discutia regularmente sobre questões de dinheiro, dormir adequadamente parecia lhes dar paciência para abordar o conflito de forma construtiva.

"O problema não é estar em desacordo", explica Kiecolt-Glaser. "É a falta de sono e a forma como eles discordaram."

Ela continua: "Os casais que funcionam melhor, podem discutir com humor e bondade, mas claramente ainda discordam. Os casais menos funcionais podem ser bastante desagradáveis".

A noção de que dormir melhor faz bem para o casamento não é inteiramente nova. Um grande conjunto de pesquisas sugere que as pessoas privadas de sono são mais desagradáveis e até hostis em suas interações sociais do que aquelas que dormem adequadamente. As pessoas tendem a usar palavras mais negativas quando são privadas de sono do que nos dias em que dormiram uma noite inteira.

Um estudo de 2010 descobriu que os homens eram mais propensos a brigar com suas esposas depois de uma noite de sono perturbado. Em um estudo de 2014, os casais que relataram um sono ruim durante o período de duas semanas reportaram também mais conflitos conjugais diários do que aqueles que dormiram melhor.

Mas o estudo da Universidade do Estado de Ohio deu um passo adiante para medir como a discórdia conjugal combinada com a privação do sono pode se tornar tóxica para a saúde de uma pessoa. Cada parceiro do estudo também forneceu amostras de sangue, antes e depois da briga com seu cônjuge. As amostras serviram para medir índices de inflamação, que têm sido associados a doenças cardíacas, câncer e outros problemas de saúde.

O estudo descobriu que, quando os parceiros desfrutavam de menos horas de sono, eles não só eram mais propensos a ter conflitos hostis, mas também tinham níveis mais altos de proteínas inflamatórias no sangue após essas brigas. Em suma, as discussões conjugais são mais tóxicas para o seu corpo quando você não dorme o suficiente.

"A falta de sono não atrapalha só o relacionamento", afirma Kiecolt-Glaser, um dos principais autores do estudo, publicado em maio na revista Psychoneuroendocrinology. "Ela torna o conflito mais prejudicial ao corpo."

Houve algumas boas notícias no estudo. Quando um parceiro descansou mais, foi possível atenuar o efeito da privação do sono no outro. Os casais em que um estava descansado eram menos propensos a se envolver em conversas hostis do que quando ambos os parceiros haviam sido privados de sono.

"O sono e o conflito juntos aumentaram a inflamação, mas o sono de cada um dos parceiros importa", diz Stephanie Wilson, autora principal do estudo e pós-doutora da Universidade do Estado de Ohio. "Quando uma pessoa estava descansada, isso protegia o casal de ser mais desagradável um com o outro."

Problemas de sono em um relacionamento não são incomuns. A National Sleep Foundation descobriu que quase 25% dos casais dormiam em camas separadas. Outras pesquisas mostram que ter um parceiro de cama afeta o quanto e quão bem uma pessoa dorme. E quando uma das partes não dorme bem, é mais provável que seu parceiro apresente saúde e bem-estar ruins.

Embora o estudo recente tenha examinado apenas casais heterossexuais, os resultados provavelmente são relevantes para todos os casais, incluindo quem apenas vive junto, gays e lésbicas. "São processos de relacionamento universais", afirma Wilson. "Saber que esses efeitos são possíveis pode ajudar as pessoas a ter em mente a importância de dormir bem e de lidar com cuidado com os conflitos."

A lição, dizem os autores do estudo, é que antes de concluir que o relacionamento está em apuros, os casais que discutem regularmente devem fazer um balanço não apenas do relacionamento e da forma como estão gerindo os conflitos, mas também dos hábitos de sono.

"Perder o sono aqui e logo encontrar tensões interpessoais no cotidiano é realmente comum", explica Wilson. "São pequenas vulnerabilidades que podem se somar. Isso ensina sobre a importância de descansar todas as noites e de lidar com desentendimentos de uma maneira consciente."

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