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Crise econômica coloca em risco progressos contra Aids e malária, alerta casal Gates

As mortes por Aids despencaram desde 2004 - Efe
As mortes por Aids despencaram desde 2004 Imagem: Efe

Donald G. Mcneil Jr.

24/09/2017 04h00

Um relatório mundial divulgado pelo casal Gates comemora os progressos da saúde mundial, especialmente da mortalidade infantil, da Aids, da vacinação, do tabagismo e do acesso aos cuidados básicos. Mas o documento também emite um alerta sobre a vulnerabilidade desses avanços diante da crise econômica mundial.

Bill e Melinda Gates divulgaram um relatório ao mundo na semana passada, avaliando o progresso em 18 indicadores da saúde global: mortalidade infantil, Aids, vacinação, tabagismo e assim por diante.

Chamado "Goalkeepers", o boletim era um imenso trabalho estatístico, demorou três anos para ser feito, visando diretamente os líderes mundiais reunidos na Assembleia Geral da ONU neste mês. Para atrair mais atenção, o casal Gates promoverá um evento com Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos.

Em uma série de entrevistas recentes, o casal Gates deu vários recados.

O progresso tem sido grande, mas o cansaço do doador poderia ser letal para milhões de pessoas que poderiam ser salvas com facilidade. Somente os EUA são ricos e generosos o bastante para liderar, e as organizações de caridade, incluindo a do casal, possivelmente não conseguem cobrir os cortes profundos em ajuda global que o presidente Donald Trump propôs.

Segundo eles, os jornalistas do setor de saúde estão mergulhados em negativismo, concentrando-se nos fracassos em um mar de sucessos da saúde global.

Durante conversa, Gates demonstra uma compreensão tão profunda e impressionante da ciência que estimula as descobertas por ele apoiadas, e das políticas públicas dos países onde são aplicadas, que é fácil esquecer que ele já foi um geek da informática.

Aos 61 anos, ele poderia falar com a grandiloquência afável de um professor emérito, porém, cita dados comprobatórios como um aluno de destaque em busca de um "A mais". Ele refuta perguntas céticas e insiste em ensinar a partir de seu próprio plano de estudos – e em usar sua própria palmatória.

De acordo com Gates, o relatório será divulgado anualmente. Ele se deu somente um C+ no primeiro rascunho, prometendo uma análise mais profunda no futuro.

Pesquisadora mostra mosquito da malária de perto - BBC - BBC
Mosquito da malária fotografado de perto
Imagem: BBC
Na verdade, não está atribuindo notas às autoridades mundiais da saúde, mas as está mandando para casa com um bilhete para a mãe: seu filho tem potencial, mas está virando um problema disciplinar.

Em algumas áreas, tais como mortalidade infantil, ele considera o progresso feito como "milagroso". Em 1990, mais de 11 milhões de crianças morriam antes de completar cinco anos; agora, morrem menos de seis milhões.

As mortes por Aids despencaram desde 2004 e as por malária desde 2005. Os índices de déficit de crescimento infantil, mães que morrem no parto e as mazelas trazidas por doenças tropicais raras têm caído regularmente.

Nos países pobres, aumenta o uso de vacinas, embora somente 75% das crianças recebam todas as doses necessárias. Mais pessoas têm banheiros hoje em dia.

Os avanços em outras áreas são mais lentos. O tabagismo está caindo, mas os fabricantes de cigarro estão contra-atacando. Está crescendo a oferta de anticoncepcionais, mas quase a metade das mulheres interessadas não tem acesso.

O acesso aos cuidados básicos de saúde está aumentando, segundo o novo relatório, mas o abismo entre países ricos e pobres continua enorme, porque dinheiro demais vai para os hospitais principais e não para clínicas rurais.

Uma descoberta fundamental: a maior parte do progresso não se deveu a doações, surgindo organicamente enquanto centenas de milhões de pessoas conseguiram se afastar dos níveis mais abjetos de miséria.

Em 1990, 35% do mundo vivia abaixo da linha internacional da pobreza (atualmente em US$ 1,90 por dia); agora, somente 9% vivem abaixo desse patamar. Os países que mais influenciaram neste grande salto para frente foram duas potências econômicas: China e Índia.

Os temas mais assustadores do relatório são suas projeções para os próximos 15 anos.

Supondo que o progresso econômico continue, melhorias na maioria das categorias de saúde irão se nivelar ou cair. Contudo, desde a crise econômica de 2008, os doadores vêm perdendo a vontade de contribuir.

Segundo o relatório, se isso persistir, o caos pode voltar. Infecções por HIV podem duplicar, voltando a níveis só vistos na década de 1990. E a malária poderia voltar a crescer ao ponto máximo de 2005.

HIV e malária são especialmente vulneráveis às flutuações no financiamento porque estão concentrados na África, onde a melhoria econômica tem sido mais lenta do que na Ásia ou América Latina e onde a taxa de natalidade continua alta, produzindo um grande número de vítimas potenciais todos os anos. A malária tem um histórico de repique assim que a pressão é diminuída; tanto os mosquitos quanto os parasitas logo desenvolvem genes resistentes.

A taxa de natalidade mundial está no seu auge – provavelmente para sempre – em cerca de 134 milhões de bebês por ano. "O impressionante é o quanto a mudança no local do nascimento dificulta as coisas para nós", afirma Gates. 

bebê - Shutterstock - Shutterstock
Nascem cerca de 134 milhões de bebês por ano
Imagem: Shutterstock

Manter as crianças vivas se torna mais difícil quando elas nascem em locais com guerra civil, estradas de terra e curandeiros que rejeitam a medicina ocidental.

De forma surpreendente, o relatório não foi uma reação às ameaças de Trump de cortar a ajuda externa em 32%.

De acordo com o dr. Christopher J.L. Murray, diretor do Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, que coletou os dados, tudo começou três anos atrás quando Gates ficou com medo que o mundo estivesse parando de pensar em saúde.

O relatório "Goalkeepers" se refere a uma métrica que o mundo ignora, mas não o casal Gates: os objetivos estabelecidos periodicamente pela ONU, a saber, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, de 2000, e as Metas de Desenvolvimento Sustentável, de 2015.

O primeiro objetivo enfatizava principalmente pobreza e saúde. Já o segundo compreende 169 metas em vários campos, da redução do excesso de pesca a levar energia limpa e oferecer empregos bons a todos – o que tem um ar meio utópico.

O mundo prefere objetivos simples, tais como declarar guerra à varíola, mas a menção à guerra estimulou o casal Gates. Os pedidos por uma "geração livre da Aids" – o grito da moda seis anos atrás – eram "prematuros", e ele afirma que se sente "envergonhado" por ter dito que a malária poderia ser eliminada até 2015.

Ele prefere um "pensamento ao estilo da Microsoft" a estabelecer metas realistas. "As pessoas esperam certo grau de honestidade. Elas querem saber se Bill e Melinda acompanham essas coisas."

Em resumo, ele está registrando a busca do mundo por suas próprias metas enquanto auxilia nesse propósito.

Em entrevistas anteriores, Gates não quis criticar Trump, mas deu a clara impressão de acreditar que o Congresso iria ignorar a maioria dos cortes propostos pelo presidente. O Congresso parece estar agindo dessa forma.

Ao ouvir o discurso de Gates, até o partidário mais fiel da ideologia "Estados Unidos em primeiro lugar", por ele qualificada de "egoísta", sucumbe à sua fuzilaria de dados. 

Melinda e Bill Gates - Reuters - Reuters
O relatório "Goalkeepers" foi idealizado pelo casal Melinda e Bill Gates
Imagem: Reuters

Antes da renúncia de Stephen K. Bannon, estrategista-chefe de Trump, Gates se reuniu com ele na Casa Branca. "Ele disse: 'A África sempre foi uma confusão'", conta Gates. "Repassei com ele os números dos avanços no continente. Ele ficou impressionado."

O ponto fraco do relatório é ele não poder, por exemplo, prever quantos mais ugandenses morreriam de Aids se as doações norte-americanas caíssem 20%, da mesma forma que o Comitê de Orçamento do Congresso consegue calcular quantos norte-americanos perderiam o seguro-saúde conforme determinado projeto de lei.

Existem muitos fatos imprevisíveis na saúde global. Um país não iria simplesmente cortar brutalmente o tratamento de 20% de pacientes com HIV, argumenta Gates. Ele pode cortar o orçamento militar, pode tentar ampliar a duração dos remédios disponíveis, provocando sua falta.

Enterrados no relatório cheio de gráficos encontram-se casos curiosos demonstrando como a engenhosidade pode ser tão importante nessa área quanto o dinheiro. Na Etiópia, por exemplo, as grávidas receberam uma maca especial para ajudá-las a chegar às maternidades; elas temiam as macas normais porque as pessoas normalmente carregadas nelas morriam. E um imame no Senegal descreveu como convenceu outros imames a aceitar o controle de natalidade: citando uma frase do profeta Maomé implicando que as crianças deveriam nascer a intervalos de dois anos.