Brasileiro que tem dois corações vira celebridade

Da Redação
Em São Paulo

Ele tem dois corações batendo em seu peito e uma série de entrevistas marcadas na agenda. Há três meses, Horácio Antônio do Nascimento Neto lutava contra o tempo para continuar vivo e hoje em dia, depois de ter um segundo coração acoplado ao original, o fazendeiro luta para administrar a fama repentina.

"Estou saindo de uma entrevista para entrar em outra. O ritmo está acelerado e já não estava mais acostumado a isso", disse Nascimento Neto, referindo-se ao assédio que vem sofrendo por parte da mídia depois do sucesso da sua cirurgia ter sido anunciado.

"Tenho uma bateria dentro do meu peito e graças a ela estou vivo até hoje", declarou emocionado o homem de 49 anos, que mora em Barretos, no interior de São Paulo. Ele é a oitava pessoa a entrar para o seleto grupo de brasileiros que vivem com dois corações - o original e um transplantado.

Depois de sofrer dois enfartes do coração e passar os últimos dois anos sentado na varanda de sua fazenda por causa de sérios problemas cardíacos, a única chance de sobrevivência de Nascimento Neto era uma operação de transplante heterotópico, que acopla um novo coração ao órgão original necrosado. A técnica foi usada com sucesso pela terceira vez no Hospital Beneficência Portuguesa. Adotada apenas em situações extremas, não substitui o transplante convencional e foi trazida pela equipe do hospital para o Brasil em 1989.

"Não sei nem como isso é possível, o que sei é que hoje tenho uma capacidade ainda maior de amar e vou recuperar o tempo perdido", disse esfuziante, referindo-se a seus dois órgãos.

A mulher e os três filhos se tornaram a prioridade na vida do fazendeiro. Depois de passar um longo tempo sem planejar o futuro, ele afirmou que atualmente o seu maior sonho é "viver o bastante para conhecer os netos".

Se depender da opinião do médico José Pedro da Silva, coordenador-geral da cirurgia de Nascimento Neto, ele tem chances. Não há um limite de expectativa de vida diretamente relacionado ao transplante. "A operação foi um sucesso e o coração original está se recuperando de uma forma surpreendente", disse o médico, que é chefe da área de transplantes do hospital, em São Paulo.

Antes da intervenção, apenas 15% do coração de Nascimento Neto estava funcionando, atualmente o órgão trabalha com 35% de sua capacidade. "Isso acontece porque o coração novo está incentivando o outro a se recuperar", disse Pedro da Silva.

O órgão foi doado pela família de um jovem de 26 anos, vítima de aneurisma cerebral, que tinha entre seus hobbies o surfe.

"Estou me sentindo revigorado, acho que a energia do jovem sobreviveu dentro do meu corpo", comemorou o transplantado, que não descarta a possibilidade de se aventurar no esporte depois de estar completamente recuperado.

Segundo o médico que acompanha o fazendeiro há sete anos, a qualidade do coração realmente influencia na recuperação do paciente. "Se o órgão vier de alguém que tinha hábitos saudáveis, certamente a recuperação e a vida do transplantado será melhor", afirmou.

Pedro da Silva comentou que os problemas cardíacos do fazendeiro certamente possuem um forte fator genético, mas que foram também intensificados por hábitos pouco saudáveis de vida.

"A má alimentação unida ao hábito de fumar e a uma alta carga de estresse diária prejudicaram o paciente ainda mais", disse.

A cirurgia, que durou cerca de seis horas, foi realizada no dia 4 de novembro do ano passado na capital paulista. Nascimento Neto voltou para sua fazenda em Barretos no dia 24 de dezembro.

"Foi o Natal mais feliz da minha vida e o melhor é que os médicos me liberaram para tomar uma taça de vinho e comer um pouco da tradicional leitoa que assamos para a data."

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