"Entendi a teoria do caos freqüentando o vodu"; UOL Tablóide desvenda os mistérios haitianos

RODRIGO BERTOLOTTO
Enviado especial a Porto Príncipe (Haiti)

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia, já dizia o bardo muito tempo atrás (você nem era nascido, amigo internauta). Mas eis que chega o Editor do UOL Tablóide e, um a um, os mistérios vão caindo. Mesmo quando está de mãos e pernas atados, o editor consegue dar um jeito e colocar a pessoa certa no lugar certo - principalmente se o lugar certo for o Haiti, na América Central.

O vodu, por exemplo. Segundo o dicionário, "religião de origem africana, de raiz semelhante ao candomblé praticado no Brasil, seguida esp. pelos negros do Haiti e, em menor grau, tb. de outras ilhas das Índias Ocidentais". Na prática, entretanto, é mais do que isso: trata-se de um mistério, algo que incita a imaginação.

E, destemido que é, o repórter Rodrigo Bertolotto aceitou o convite e tornou-se o primeiro enviado especial do UOL Tablóide à América Central. Sugestão: coloque para rolar "Voodoo Child", com Jimi Hendrix (ao vivo em Woodstock!) e leia este relato em primeira pessoa sobre o vodu:
 

AFP
Haitianos fazem celebração para o deus do trabalho, Kousin

Cheguei a Porto Príncipe num domingo de manhã, justo na hora da missa. Famílias inteiras saíam das igrejas. Mulheres e meninas emperequetadas em verdes ácidos e azuis metálicos. Homens e meninos, alinhados, de terno. Na chegada ao hotel, ligo a TV e, ao vivo, o bispo comanda o culto na catedral local. Mas, afinal, o Haiti não é o país dos zumbis, dos bonecos com agulhas e batuque do vodu? Oficialmente, 90% da população é católica, e há uma minoria de protestantes. Mas, fora dos boletins oficiais, todos seguem o vodu.

François, o taxista-segurança-intérprete que foi meu guia no país, foi logo avisando: "Essas mesmas pessoas vão para o vodu nas noites sagradas de terça, quinta e sábado". Como voltaria ao Brasil na manhã de quinta, a única oportunidade seria ao anoitecer de terça.

A pauta é obrigatória para todo repórter forasteiro no Haiti. Afinal, coma a eterna crise local, os militares e os jornalistas são os únicos hóspedes dos hotéis haitianos. Há até terreiros indicados, "tipo exportação", perto do centro, ideais para uma apuração rápida.
 

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Mulher carrega velas para Erzulie, deusa do amor dentro do vodu

E mais fácil ainda é ir ao hotel gótico Oloffson, que nas noites de sexta tem o show "Puritan Voodoo", com uma banda de world-music haitiana. Sua decoração inclui estátuas das divindades como Erzulie, a deusa do sexo e da arte, e Zaka, o deus da agricultura.

Antes do terreiro, fui visitar Frank Etienne, escritor, pintor e principal intelectual haitiano e que se nega a deixar a ilha. Uma frase sua me chamou atenção: "Entendi a teoria do caos freqüentando o vodu". Professor de física e matemática, ele partiu para o taoísmo e o misticismo após bater o tambor do vodu. E eu parti para sua casa, uma ilha de tranqüilidade no pobre e tumultuado bairro Delmas.
 

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Haitiano vestido de diabo em celebração

No vodu, não existe distância entre o divino e o mortal. Por isso, deuses "baixam" nos fiéis. Por isso, animais, plantas e acidentes geográficos, como cachoeiras, rios ou montanhas, são sagrados. Por isso, homens diários viram animais noturnos. Por isso, a crença nos zumbis.

"Como tudo no Haiti, o vodu também se degradou. Foi usado pelo Papa Doc para amedrontar a população. Pode ser usado como atração turística. Mas é nossa tradição, nossa forma de ver o mundo que empobrece junto com nossa economia", teoriza Etienne.

O médico rural François Duvalier virou o presidente Papa Doc, se manteve no poder entre 1957 e 1971 e colocou seu filho, Jean-Claude, vulgo Baby Doc, se aliando com líderes do vodu e personificando nas fotos oficiais Baron Samedi, deus representado sempre com roupas escuras, óculos escuros e chapéu.

Quando Baby Doc se exilou em 1986, populares depredaram o mausoléu de Papa Doc no cemitério central -dizem que usaram os ossos em feitiçaria.

Tudo parecia mudar quando Jean-Bertrand Aristide, um ex-padre esquerdista e leitor da Teologia da Libertação, subiu ao poder. Mas, ao final, ele lançou mão dos mesmos expedientes dos Duvaliers: no lugar dos "tonton macoutes" estavam a tão ou mais temida milícia dos chimères (em português, quimeras, os animais míticos). Após sua queda, chegaram a falar que ele tinha mais de 20 corações de opositores em seu palácio. Pode parecer ficção, mas, para muitos haitianos, é bem real.
 

AFP
Duas mambos (mães-de-santo) deixam oferendas em altar

"O problema de Aristide não é se ele é padre católico ou bruxo vodu. Ele foi um péssimo presidente. Levou todo seu ressentimento para o poder e se isolou", afirma Étienne.

E foi após a queda de Aristide que entraram na história as tropas brasileiras, o maior contingente fora do país desde da Segunda Guerra Mundial para substituir os habitués marines dos EUA, com mais de 20 intervenções no país caribenho.

Há uma lenda sobre um exército de zumbis que dominam o país à noite, enquanto as tropas estrangeiras dormem nos quartéis. A armada morta-viva é tão presente no imaginário ianque que circulou há pouco tempo na Internet uma notícia que os terroristas do Al Qaeda recrutaram zumbis do Haiti, os únicos no mundo à prova de bala e sem medo de morrer, para derrotarem os EUA. Agora, porém, é a vez dos 1.200 homens brasileiros imaginarem os inimigos, do lado de fora dos muros da base, à solta pela escuridão de Porto Príncipe.

Mas eu próprio entrei no breu que é a capital haitiana depois que escurece. Não há luz pública no país, só uns postes perto do palácio presidencial. As pessoas ficam nas calçadas com velas, até que elas se apagam, e todos vão para suas casas.

Pedi ao taxista que me levasse a um culto mais autêntico. Saímos do hotel em Pétionville, área montanhosa onde estão os hotéis e os sobrados dos endireinhados do país, mulatos, brancos, alguns libaneses também. Os morros, ao contrário do Brasil, são o refúgio dos ricos para o insalubre centro de Porto Príncipe.

Seguimos numa camionete 4x4 pela estrada esburacada. O cenário cada vez fica mais rural. Ficam para trás as poucas luzes da cidade. Passamos um canavial e chegamos ao galpão. Ao fundo se escutam os tambores.

Na frente do templo, o cenário é parecido com a igreja de domingo: crianças correm de um lado para o outro, adolescentes paqueram, senhoras velhas sentadas conversam. Animais sacrificados e mortos só os frangos assando em cima de um braseiro -claro, em certas datas, há mortes de cabritos e galos, e o sangue rola pela roupas dos participantes.

As pessoas estão menos emperequetadas que no dia de missa. As mulheres vestem saia e camiseta, com lenços na cabeça.

Já o bruxo, chamado de hougan, é um capítulo e tanto na vestimenta. De corrente de ouro sobre camiseta Nike, óculos de sol e boné com o logo da marca, ele mais parece um rapper saído de uma rua do Bronx.

O cenário não difere muito dos terreiros brasileiros. Só perto da meia-noite o batuque se intensifica, algumas mulheres começam a revirar os olhos. Vasculho pelo lugar atrás das tais bonecas espetadas. Nada. Pergunto para o taxista. "Isso é feito outra hora. A pessoa tem de comprar uma bonequinha no mercado e trazer com o cabelo da pessoa a ser enfeitiçada."

O tempo passa e o culto não engrena, tenho que sair, afinal, devo estar às 7h da manhã para acompanhar no aeroporto Toussaint Louverture as verdadeiras aparições no Haiti: a comitiva presidencial e a da CBF, com Lula, Ronaldo e Ronaldinho celebrando a "diplomacia da bola". A paixão pelo futebol, junto com o vodu, são os únicos fatores de união no tumultuado país caribenho.

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