Miss Universo também é um papo K.Beça, mostra o Editor do UOL Tablóide, direto de Paris

Editor do UOL Tablóide
Em Paris (França), indo para Nha Trang (Vietnã)

Toda vez que vai cobrir um concurso de miss, o Editor do UOL Tablóide reúne-se com representantes da nata da intelectualidade nacional para discutir o assunto.

AFP
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Não foi diferente desta vez: na sexta-feira, professores das principais universidades, das áreas de história e de artes plásticas, tiveram com o Editor uma séria discussão sobre o assunto. Mais uma vez, apesar das profundas reflexões, ficou a sensação de que as cabeças pensantes do país não dão a devida atenção aos concursos de beldades.

Mas a situação não é tão ruim quanto atestou certa feita este profissional dedicado do jornalismo. A leitora do Tablog Adriana informou, há alguns meses, que há pelo menos um paper digno sobre os concursos de beleza no Brasil, escrito pela brasilianista Susan K.Beça, digo, Susan K. Besse, do City College, de Nova York.

Durante seu rápido trânsito por Paris, capital dos K.Beças de todo o mundo, o Editor não pôde resistir a tentação de aproveitar suas horas e horas no aeroporto para resumir as principais conclusões de K. Besse.

Besse começa informando que o primeiro Miss Brasil ocorreu em 1921, em comemoração ao centenário da independência (que ocorreria em 1922) e no mesmo ano em que ocorreu o primeiro Miss América. O segundo Miss Brasil é de 1929, e desta vez, a representante nacional já foi enviada ao Miss Universo em Galveston (Texas, EUA) - o presidente do júri era o escritor Coelho Neto, membro da Academia Brasileira de Letras.

Mas é nos anos 1930 que os concursos de beleza nacionais tornaram-se símbolos da identidade nacional, graças ao papel ativo de intelectuais e a um exuberante sucesso popular. Para Besse, os concursos de miss e o samba ajudaram a forjar a "identidade nacional", num momento de grandes mudanças sociais. "Poderiam os brasileiros ser modernos e, ao mesmo tempo, confiar nas suas tradições nacionais? O 'Miss Brasil' provou ser um bastante poderoso símbolo visual na reconfiguração de velhas identidades e construção de outras novas", escreve ela.

Analisando o que escreviam os jornais e revistas que promoveram o concurso de 1929, Besse identifica um discurso pautado pelo discurso cientificista e racial. Para essas publicações, o concurso de beleza não era um puro exercício de vaidade, uma simples diversão para leitores de revistas frívolas, mas um atestado de qualidades da suposta e emergente "raça brasileira". Tanto quanto a força, a beleza é, para essas publicações, um certificado de riqueza etnológica e de qualidade eugênica. Um povo fraco e decadente seria incapaz de produzir modelos de beleza.

Nesse sentido, a primeira Miss Brasil, Olga Bergamini de Sá, foi transformada num símbolo de graça e charme "da raça", resultado da fusão de "muitos diferentes elementos étnicos" e conformando uma perfeição em que se poderia ver e proclamar o charme e o esplendor de um novo povo - "numa nova pátria, eternamente jovem".

Apesar do discurso dos organizadores e dos periódicos, que cantava a diversidade regional e a mistura das raças, as fotos das misses indicam que a "democracia racial" das palavras não se realizava na prática: "Virtualmente todas as candidatas cujas fotografias foram reproduzidas pelo periódico que patrocinava [o Miss Brasil] eram brancas". O Miss Brasil acabaria significando, naquele momento, uma unidade ilusória, em que uma pequena minoria passava a representar a nação como um todo, explica a pesquisadora.

As primeiras misses brasileiras também forjariam uma idéia de feminilidade em que a beleza era associada à caridade, à fé católica e a um comportamento discreto - o da jovem virgem e branca, nas palavras de Besse. Bastante crítica em relação ao papel das misses, K. Besse argumenta que o papel de Miss Brasil requeria a sublimação da sexualidade. "Mais que um objeto de desejo, ela era casta como um 'anjo tutelado': um poderoso modelo de moralidade e respeitabilidade", escreve ela. Um contraste com o papel da mulher no samba, em que a mulata representava a mulher da rua que escapou do controle da família, tornando-se objeto do desejo ilegítimo. Quase ao fim de seu texto, Susan K. Besse puxa uma nota de rodapé e informa que uma afro-brasileira só ganharia o Miss Brasil em 1986.

Para internauta do UOL Tablóide que curte um papo K.Beça e também a diversão dos atuais concursos de misses, ficam, na opinião do Editor, duas lições: 1) os primeiros concursos de miss queriam ser democráticos, mas não escaparam do racismo nacional; 2) os concursos de miss podem ser encarados como coisa séria - como muita coisa nessa vida, inclusive o UOL Tablóide. Ou seja, não é porque a coisa diverte que não tem problemas ou não faz pensar, sacou?

O texto completo de Susan Besse, de 2005, está publicado no site da revista acadêmica israelense Estúdios Interdisciplinarios de America Latina y El Caribe, em inglês: http://www.tau.ac.il/eial/XVI_1/besse.html.

Ah, dê sua opinião sobre o Miss Universo e as misses em disputa no UOL Tablog.

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