Festa fetichista vira opção bem alternativa na noite paulistana

Rodrigo BertolottoDo UOL NotíciasEm São Paulo

Entrevistar fetichistas em ação pode ser considerado o verdadeiro desafio da reportagem. Desafio como ver a publicitária masoquista Dília, tranquilamente, gabar-se de sua resistência enquanto toma tapas no traseiro: "O pessoal fala que eu resisto muito, só percebo quanto me bateram no dia seguinte vendo as manchas pretas, verdes e vermelhas".
 

PISA, BATE E AMARRA

  • Thiago Marzano/Divulgação

    Passos na pista de dança incluem até pisotear escravos

  • Thiago Marzano/Divulgação

    Aqui o tapa não vira boletim de ocorrência

  • Thiago Marzano/Divulgação

    Garota é amarrada por seu dominador e vira rapel sexual

Um careca tira o cinto e começa a flagelá-la, desferindo cintadas em Dília, que, amarrada, nem contrai o rosto a cada golpe - no máximo, sorri da bordoada. "Me esqueceram aqui", se queixa à reportagem do UOL Notícias. "Quem não aguenta a sessão é cinto de couro e tachinhas. Racha no meio", diz. "Você só me dá prejuízo. É o segundo cinto que perco", reclama, carinhosamente, o carrasco calvo.

Outra agrura jornalística é entrevistar a dominadora Nefertiti, que interrompe várias vezes o diálogo para disparar ordens a seu escravo, que tenta dar seu depoimento mesmo quando seu capuz de couro negro só permitia a visão de seus olhos:

- Trabalho em uma imobiliária, tenho subordinados, mas o que me satisfaz é o que realizo aqui. Quando eu era criança gostava muito quando a Mulher Gato batia no Batman, revelou o senhor com coleira no pescoço e andando de quatro, comportadamente, como um cachorrinho de madame.

- E qual é seu nome?, arrisquei para ter uma identidade do personagem.

- O nome dele é Nada. Ele não é nada. Só vai ser alguém quando seguir os sete passos de submissão. Quem interrompe é sua dona, explicando a grafia dele: [Nada]_Nefertiti, mostrando de forma gráfica a relação entre os dois.

Ela é só um dos personagens da fauna do Projeto Luxúria, uma das festas fetichistas que acontecem mensalmente e viraram uma opção de lazer bem alternativa na noite paulistana.

O promotor do evento, Heitor Werneck, explica o limite que separa a festa de uma orgia ou de baladas convencionais. "O limite da festa é que não pode haver sexo no local. Quem quiser que vá ao motel. Aceitamos todos os fetiches, menos os que envolvam animais e crianças", declara o empreendedor, vestido de arlequim. Ah, ele só falou depois ter pingar cera quente de uma vela na própria língua.

Menos disposta a queimar a própria língua e servindo drinques está uma garota islamicamente coberta por uma burca, que em outras edições ficou responsável por performances mais radicais - como ficar amarrada e pendurada por cordas.

A trapezista sexual da noite é Margô. "Sempre gostei de namorado de pulso firme. Depois descobri que dor não é castigo e me assumi como masoquista", confessa a garota de 25 anos, após se desatar da amarração de seu companheiro sádico MFD, 42. "Sou técnico mecânico e laço coisas no serviço. Mas os arranjos que faço aqui são bem mais complicados", diz o escoteiro fetichista.

Um gancho no teto, mosquetão de aço galvanizado e um distorcedor de duralumínio suportam as cordas de cânhamo que seguram Margô suspensa e imobilizada a um metro do piso. Ele desenvolve a técnica japonesa de kinbaku, amarração sexual também conhecida no Ocidente como shibari (termo que significa "amarrar" no Japão). A origem seria um sistema de tortura que os nipônicos desenvolveram para asfixiar e atrapalhar a circulação sanguínea de seus inimigos.

"Isso aqui é uma tortura friamente calculada para a dor virar prazer", define o maquiador João, 26, que desde os 18 anos, quando vivia na Alemanha, é adepto de modalidades que um jornalista só espera encontrar nas prisões norte-americanas de Guantánamo ou Abu Ghraib.

"A sociedade é fetichista, mas, quando essa característica é associada com sexo, é considerada um coisa suja", teoriza João, que se define como "switcher", termo no grupo que denomina quem aceita mudar de papel e topar tudo ("Só não gosto de ficar de ponta cabeça, porque passo mal", complemente, porque tudo tem limite, né?).

Outra switch é Emilia, 21. "Estou sempre conjugando o verbo `ir?. Vou em todas", explicou. Ela também vai a outras celebrações do tipo. "Já fui a outras festas, mas são mais frias, sem música, cheias de regras e com todo um ritual. Prefiro seguir minha vontade na hora."

Outra que não gosta de tanta liturgia na sacanagem é Ana, dominatrix que também frequenta o clube Dominna. "Lá tem muita inveja, muita fofoca, uma dominadora quer ser mais que a outra."

Ela faz seu escravo ajoelhar a seu lado. "Também tenho meus momentos frágeis, quero colo", conta Ana, soltando uma frase que não combina com o que acabou de fazer: espancar uma garota amarrada. A ação, porém, obedece um código de conduta com a sigla SSC (são, seguro e consensual). Quando o masoquista não aguenta mais a dor, faz um gesto para parar a sessão.

Na pista de dança, predomina o rock dark, com o clímax chegando com "Bela Lugosi is Dead", música da banda oitentista Bauhaus que anima duas garotas de espartilho e cinta-liga. Ah, elas estão se roçando com um rapaz. No telão, cenas em preto e branco mostram um adepto da necrofilia. Uau.

Depois vem o "Parabéns pra você" pelos três anos da festa fetichista. Heitor Werneck, o idealizador, apaga as velas engolindo a chama. Um pedaço de bolo vai parar no decote generoso de uma sádica rechonchuda e vira um recipiente sob medida para os convivas se alimentarem.

O sabor do bolo? Chocolate. Nada de baunilha; afinal, na gíria sadomasoquista esse sabor denomina essa gente estranha que se limita ao sexo convencional e vê o reino do fetiche como bizarrice.

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