Topo

Tecnologia

Apple


Google e Apple recebem pressão para remover aplicativo que ajuda sauditas a limitarem as viagens de mulheres

Tasneem Alsultan/The New York Times
Mulheres caminham pela praça Al Bujairi em Riad, na Arábia Saudita Imagem: Tasneem Alsultan/The New York Times

Ben Hubbard

Em Beirute (Líbano)

15/02/2019 00h01

Um aplicativo móvel saudita que permite que os homens rastreiem e restrinjam os movimentos de mulheres no reino ganhou maior atenção nesta semana, com um senador americano e grupos de direitos pedindo à Apple e ao Google que o removam de suas plataformas, acusando as gigantes de tecnologia de facilitarem a discriminação de gênero.

As "leis de tutela" sauditas dão às mulheres um status legal semelhante ao de menores de idade em muitas áreas de suas vidas. Toda mulher saudita, independente da idade, possui um "guardião" masculino, geralmente seu pai ou marido, mas às vezes seu irmão ou filho, que deve dar sua permissão para que ela obtenha um passaporte, viaje para o exterior, possa ser submetida a certos procedimentos médicos ou se case.

O aplicativo em questão, chamado Absher, foi lançado em 2015 pelo governo saudita. Ele permite que os homens administrem as mulheres sob sua tutela, lhes permitindo dar ou revogar o direito de viajar pelos aeroportos, rastreá-las por seus documentos de identidade e passaportes. Os homens podem ativar notificações que os alertam com uma mensagem de texto toda vez que uma mulher sob sua guarda passe por um aeroporto.

Absher, cuja tradução aproximada seria "sim senhor", pode ser baixado tanto na loja Google Play quanto na loja de aplicativos da Apple, o que os críticos dizem que torna as empresas de tecnologia cúmplices na repressão às mulheres sauditas.

O esforço para remoção do Absher das plataformas ganhou um reforço nesta semana, quando o senador Ron Wyden, democrata do Oregon, exigiu isso em uma carta para ambas as empresas.

"Não é novidade que a monarquia saudita busca restringir e reprimir as mulheres sauditas, mas empresas americanas não deveriam capacitar ou facilitar o patriarcado do governo saudita", escreveu Wyden na carta, que foi divulgada na segunda-feira.

Dirigindo-se a Tim Cook e Sundar Pichai, os presidentes-executivos da Apple e do Google, Wyden disse que as empresas estavam "facilitando para os homens sauditas controlarem suas familiares por meio da conveniência de seus smartphones e restringirem os movimentos delas".

Ele pediu que impedissem que suas empresas fossem "usadas pelo governo saudita para permitir a vigilância e controle abomináveis das mulheres".

Representantes da Apple e do governo saudita não responderam imediatamente aos pedidos de comentário. Um porta-voz do Google confirmou que a empresa está avaliando o aplicativo para determinar se ele está de acordo com suas políticas.

A Arábia Saudita tem um dos ambientes mais restritivos do mundo para as mulheres, apesar do líder de fato do país, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, ter buscado relaxar algumas das restrições desde que seu pai, o rei Salman, ascendeu ao trono em 2015.

De lá para cá, o reino relaxou as restrições de vestuário das mulheres, expandiu os campos que podem contar com mulheres em sua força de trabalho e começou a oferecer aulas de educação física para meninas nas escolas públicas.

No ano passado, a Arábia Saudita suspendeu uma antiga proibição de mulheres ao volante, uma medida saudada como um marco importante.

Mas os críticos dizem que as mulheres sauditas não podem atingir a igualdade enquanto o reino mantiver suas leis de tutela. As autoridades sauditas argumentam que essas restrições estão enraizadas em sua cultura e são apoiadas por muitos no reino.

Quando perguntado a respeito em uma entrevista no ano passado, o príncipe herdeiro Mohammed disse que a Arábia Saudita precisava "encontrar uma forma de tratar disso que não ferisse as famílias e nem a cultura".

O Absher, que pode ser usado pelos sauditas e por aqueles que vivem no reino, de forma mais ampla é um portal online no qual tanto homens quanto mulheres podem acessar uma série de serviços públicos, desde o pagamento de multas de trânsito até requerer novos documentos de identidade. O controle das mulheres é apenas uma de suas funções.

A repressão às mulheres sauditas ganhou manchetes no mês passado quando uma saudita de 18 anos, Rahaf Alqunun, montou barricada em um quarto de hotel no aeroporto de Bancoc para evitar ser devolvida à sua família. Ele escapou de sua família durante um feriado no Kuait e tomou um avião para a Tailândia, mas foi detida no aeroporto. O Canadá acabou lhe concedendo asilo.

Outra mulher saudita que fugiu do reino para a Austrália descreveu ter usado secretamente o telefone de seu pai para acessar o Absher e lhe dar permissão para viajar, o que permitiu que deixasse o país sem ser detectada.

Grupos de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, há muito fazem campanha pela derrubada das leis de tutela, mas o foco no Absher e em sua disponibilidade em plataformas de tecnologia ocidentais é novo.

Hala Aldosary, uma acadêmica e ativista saudita baseada nos Estados Unidos, disse que a remoção do aplicativo pela Apple e Google poderia enviar uma mensagem importante para líderes como o príncipe herdeiro Mohammed, que têm buscado parcerias com firmas globais de tecnologia em esforços para melhorar suas economias.

"Se as empresas de tecnologia disserem: 'Você está sendo opressor', isso significaria muito", disse Aldosary.

Mas a remoção do aplicativo não levaria ao fim das leis de tutela do país, ela disse, e os homens ainda poderiam mudar o status de suas parentes online ou em repartições públicas.

"O aplicativo é um meio para um fim, mas não o fim em si", ela disse. "Mas ele facilita a vida dos guardiões."