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Emiliano Agazzoni


Startups brasileiras se esforçam por diversidade e inclusão

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Emiliano Agazzoni

Empresário, mentor e Head of Experience da Distrito no Brasil, Emiliano já operou e abriu 8 espaços de coworking nas cidades de São Paulo e Curitiba como Plug, Cubo e Distrito. A partir de 2013 foi um dos organizadores do Silicon Drinkabout São Paulo e, desde 2017, lidera a expansão da comunidade pelo Brasil e América Latina. Foi gerente de abertura da rede de hotelaria Che Lagarto, abrindo unidades no Brasil, Uruguai e Argentina. Foi professor e consultor de empresas em várias regiões da Argentina. Hoje também é representante no Brasil da TecnoSur, uma organização que fomenta a aproximação dos ecossistemas latino-americanos de startups. Convive semanalmente com mais de 600 empreendedores e 150 startups. Nesta coluna, Emiliano vai contar como as startups podem mudar sua vida e gerar impactos no seus negócios.

17/08/2018 04h00

Machismo, discriminação de pessoas LGBT, número reduzido de negros em ambientes de trabalho, acesso difícil para deficientes físicos, maiores de 50 anos excluídos do mercado de trabalho. Já ouviu algo assim antes? Você é parte de algum desses grupos? Então, você é parte da discussão sobre diversidade e inclusão. Se você não pertence a nenhuma destes também faz parte do debate.

Diversidade e inclusão são temas que estão deixando de ser tabu no ambiente empresarial tradicional. As empresas mais novas, como as startups, já lideram iniciativas de inclusão que devem servir de exemplos para todas as outras. E aqui, apresento iniciativas que devem ser referências na hora de montar um plano de diversidade para sua empresa.

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Programaria começou como um clube de programação para mulheres que queriam aprender a programar. Iana Chan, fundadora da iniciativa, se reuniu com outras mulheres, designers, jornalistas e programadoras e, juntas, detectaram dificuldades e barreiras entre elas e a tecnologia. Como se tratava de um problema de muitas outras mulheres, decidiram criar uma iniciativa com a missão de empoderar mulheres com tecnologia e programação.

Inspiração, representatividade, quebra de barreiras e educação são pilares do trabalho da Programaria. Mas e na hora de buscar emprego? As empresas buscam programadores mulheres? Esse é um dos grandes obstáculos, então iniciativas como a da Programaria ajudam a desenvolver não só habilidades técnicas de programação, mas também servem de inspiração para que mais mulheres ocupem este tipo de cargo, liderado hoje quase que exclusivamente por homens.

Outra iniciativa no mundo da tecnologia que em pouco tempo conseguiu se tornar uma empresa diversa foi um projeto da Le Wagon São Paulo, comandado por Fernando Jardim. Como começou? Eles sabem que a porcentagem de público feminino nos cursos de programação é de 15% globalmente, então questionaram como podiam reverter isso. Esse é um dos pontos básicos para você começar seu plano: olhe ao seu redor e veja como está distribuído o quadro de pessoas da sua equipe. A partir disso, tome uma iniciativa.

Fernando, da Le Wagon, conta que, como primeira medida, adotou uma política de trazer o máximo de mulheres possíveis para serem as facilitadoras de workshops. Segundo, começaram a fazer parcerias com grupos específicos de mulheres ligadas à tecnologia como rails girls, ruby ladies, womakers, ela líder, codamos.club. 

Idade e raça

A diversidade não se limita a homossexuais, negros e mulheres. Diversidade deve acontecer em todos os níveis de idades, sexos, cores, etnias e nacionalidades. Por isso, busquei entender como funciona o universo das pessoas com mais de 50 anos. Conversei com Morris Litvak, CEO da Maturijobs, uma plataforma que conecta empresas em busca de candidatos acima de 50 anos. Para ele, a população brasileira está envelhecendo rapidamente e é crucial preparar as empresas para a nova realidade.

A plataforma da Maturijobs é bem completa e oferece treinamento e consultoria, recrutamento em grande escala, workshops e treinamentos. A empresa me mostrou os dados de uma pesquisa em 400 restaurantes do Mc Donalds onde se identificou que, nas lojas onde a satisfação do cliente era 20% acima da média, era onde se empregavam pessoas acima de 60 anos.

Preta Lab é uma proposta que começou dentro da Olabi, que busca democratizar o uso da tecnologia incluindo mulheres negras dentro do mundo da inovação brasileira. "As mulheres negras (27% da população brasileira) acumulam os piores indicadores sociais no Brasil. No trabalho, elas recebem os menores salários e têm os mais altos índices de desemprego", comenta Sil Bahia, fundadora do projeto.

Preta Lab mapeou quais são as mulheres que hoje já trabalham com tecnologia para criar conteúdo e inspirar mais mulheres. Na sequência, criaram workshops para ensinar programação. Ela acredita que a criação de tecnologia digital ganha escala facilmente e impacta muitas pessoas.

Outro grande avanço do trabalho da Preta Lab foi criar uma parceria com a ThoughtWorks para recrutar pessoas negras. O mais importante da proposta da Preta Lab é o diálogo que abre para todas a sociedade. Nunca o projeto ficou reduzido a um cluster para este grupo. Sempre levou propostas para todos os setores, empoderando as mulheres negras do Brasil.

Vou fechar este texto com talvez uma das iniciativas mais importantes para o mercado da tecnologia. Recentemente, foi criado o comitê da diversidade da Associação Brasileira de Startups. Quem lidera o comitê é a Tania Gomes, empreendedora que assumiu o desafio de injetar diversidade no ecossistema das startups brasileiras.

Tânia me explicou que quando se é parte de uma minoria, independente do cargo que você ocupa, implicitamente esperam que você tenha um papel de ativista. O comitê da diversidade é um grupo de 14 pessoas, todas ligadas ao ecossistema e o mais diverso possível. São mulheres, homossexuais, negros e negras. No fim das contas, não se pode imaginar que uma startup crie uma solução inovadora sem discutir com uma equipe diversa o impacto desta solução num mundo completamente diverso.

Em uma análise mais superficial (porque ainda não temos pesquisas sobre isso), acreditamos que empresas não diversas perdem dinheiro, já que colocam no mercado produtos que nascem com um viés que não atenderá todo seu público potencial.