Topo

Tecnologia

Negócios


Aluguel ilegal: empresa usou serviço da Airbnb para lucrar milhões em NY

Divulgação/Town Residential
Apartamentos bons a US$ 600 por noite eram parte de esquema imobiliário para ganhar milhões Imagem: Divulgação/Town Residential

Luis Ferré-Sadurní

Do New York Times

2019-03-31T04:00:00

2019-04-01T13:04:26

31/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A US$ 600 por noite, apartamentos em Tribeca eram pechincha para muitas pessoas
  • Mas eram parte de um esquema imobiliário que contornava a lei e regras do Airbnb
  • Empresa arrecadou mais de US$ 20 milhões alugando ilegalmente 130 apartamentos
  • Punição ao império foi marco na crescente batalha entre Airbnb e Nova York

Olhando por fora, não havia nada especialmente notável no pequeno prédio branco na esquina de uma rua de paralelepípedos em Tribeca. Mas até recentemente, era um local crucial de um imenso império.

"Lindo Loft Tribeca 4 quartos / 2 banheiros, 10 pessoas", descrevia o anúncio no Airbnb para um apartamento por lá.

Dois dos três apartamentos no prédio eram populares entre os turistas que queriam ficar em um dos bairros mais desejados de Manhattan --a US$ 600 por noite cada, eles estavam uma pechincha para muitas pessoas.

Mas eles também eram ilegais --parte de um elaborado esquema imobiliário para ganhar milhões, contornando as leis estaduais e municipais e as próprias regras do Airbnb.

O prédio, na Greenwich Street, fazia parte de uma empresa maior que arrecadou mais de US$ 20 milhões alugando ilegalmente 130 apartamentos em Manhattan para quase 76 mil visitantes por meio do Airbnb, informaram autoridades municipais.

O plano foi feito para contornar as regulamentações da cidade, que visam impedir que os blocos de apartamentos sejam transformados em hotéis improvisados que, dessa forma, evitam o pagamento de impostos e a fiscalização.

A ação punitiva ao império no mês passado foi um marco na crescente batalha entre a Airbnb e a cidade de Nova York --o maior mercado da empresa nos Estados Unidos. A Airbnb condenou a exploração de sua plataforma, mas o esquema mostrou como o site de compartilhamento de casas deu aos oportunistas um novo tipo de fraude.

Entrevistas e documentos oferecem uma ideia de como o esquema de Nova York funcionou. De acordo com o processo, os integrantes do esquema usaram várias identidades enganosas para evitar as regras da Airbnb, comunicar-se com turistas e reservar apartamentos a viajantes com orçamento limitado. Endereços foram falsificados para evitar uma análise minuciosa da empresa.

No total, mais de cem contas da Airbnb e 18 corporações foram criadas para administrar um negócio ilegal de hotéis que se estende do norte de Tribeca ao SoHo, Gramercy, Upper East Side e Harlem, de acordo com uma ação movida pela cidade.

As regulamentações de Nova York devem impedir que os apartamentos sejam retirados de um mercado de aluguel já apertado para atender ao comércio turístico. Eles especificam que é ilegal alugar um apartamento na maioria dos edifícios por menos de 30 dias, a menos que o inquilino permanente esteja presente enquanto o locatário estiver lá.

Postar na Airbnb um apartamento que não deveria ser listado no site é uma ofensa civil, não criminal, e a cidade geralmente emite violações que podem resultar em multas de milhares de dólares; processos judiciais são arquivados na maioria dos principais casos. Neste processo, a cidade está exigindo mais de US$ 20 milhões dos réus.

No centro do esquema está Max Beckman, 35 anos, ex-corretor de imóveis, de acordo com o processo. Beckman, que se mudou para os Estados Unidos há 18 anos vindo de Israel, foi uma das cinco pessoas acusadas. Não houve um veredicto e o caso continua aberto.

Beckman concordou em ser entrevistado, deixando claro que ele acreditava que não fez nada de errado.

"Nós não somos criminosos", disse ele em seu escritório de advocacia.

Em 2012, Beckman, segundo ele mesmo, estava lutando para ganhar dinheiro como corretor de imóveis. Ele disse que tinha uma péssima nota de crédito e apenas US$ 100 quando usou esse dinheiro para pagar a taxa de inscrição de um quarto no Upper East Side.

Ele começou a alugar o quarto, a curto prazo, para turistas por meio da Airbnb e embolsou a diferença depois de pagar o aluguel. Era um modelo de negócio simples que ele iria replicar.

"O negócio decolou e eu ganhei mais dinheiro, e então consegui outro", disse Beckman. "Eu não conseguia parar."

Em 2015, Beckman deixou seu emprego como corretor de imóveis na Metropolitan Property Group, uma corretora de Manhattan, para se dedicar em tempo integral ao seu empreendimento na Airbnb.

Ele convenceu dois amigos que também eram corretores na empresa a se tornarem seus parceiros, contou. Os homens, Alon Karasenty e Simon Itah, também foram processados pela cidade. Eles não responderam a vários pedidos da reportagem para comentar o assunto.

No final do ano, o trio gerenciava dezenas de anúncios no Airbnb, incluindo grandes espaços em alguns dos bairros mais procurados da cidade, de acordo com documentos judiciais.

"Ganhamos dinheiro, perdemos dinheiro, aprendemos", disse Beckman.

O processo alegava que a empresa onde Beckman trabalhou, a Metropolitan Property Group, e seu diretor-executivo, Sami Katri, e sua esposa, Shely Katri, também estavam envolvidos.

Algumas das 18 corporações que receberam pagamentos da Airbnb foram registradas usando os endereços dos escritórios da Metropolitan Property Group. O processo também alegou que os nomes dos Katris estavam ligados a duas contas na Airbnb e a taxas de serviços públicos de dois apartamentos na 200 E. 116th St. no East Harlem, onde todas as sete unidades estavam na Airbnb.

Mas Beckman disse que os endereços foram usados sem o conhecimento da empresa e que os Katris não estavam envolvidos.

Douglas Pick, advogado dos Katris e da corretora, também negou que seus clientes estivessem envolvidos e disse que a cidade não forneceu nenhuma evidência de que a Airbnb havia desembolsado pagamentos a eles. Ele disse que os três homens pararam de trabalhar para a empresa até 2015 e que "começaram a operar por conta própria".

Sami Katri, por meio de seu advogado, disse que trabalhou com Karasenty e Itah para alugar legalmente apartamentos no prédio do East Harlem, mas não sabia que eles foram alugados pela Airbnb.

Yoram Nachimovsky, o advogado que representa os três homens e suas empresas, disse que a ação era "uma decisão política do prefeito".

"Basicamente, o prefeito está sendo patrocinado por essas operadoras de hotéis e está fazendo o que é melhor para eles", disse ele.

Christian Klossner, diretor-executivo do Gabinete de Execução Especial do prefeito, que liderou a investigação, disse que sua função é a de "preservar a moradia dos novaiorquinos e garantir que tanto os novaiorquinos quanto os visitantes estejam em segurança e tratados de forma justa".

A Airbnb há tempos afirma que a maioria de seus anfitriões são moradores de Nova York que alugam um quarto de hóspedes ou disponibilizam seus apartamentos quanto tiram longas férias.

Ainda assim, a empresa retirou voluntariamente mais de 5.000 anúncios comerciais desde o final de 2015. A cidade estima que cerca de um terço dos anúncios de sites de compartilhamento de casas são gerenciados por operadoras comerciais; a Airbnb contesta esses números.

Sob a política "Um Anfitrião, Uma Casa" da Airbnb, os nova-iorquinos podem inscrever apenas um apartamento, com poucas exceções.

Mas Beckman e seus parceiros parecem ter contornado essa política ao criar contas na Airbnb usando endereços de email diferentes e várias identidades, incluindo as de parentes e algumas com variações do mesmo nome.

Eles também forneceram à Airbnb endereços incorretos ou incompletos para obter apartamentos com o intuito de evitar investigações, de acordo com o processo judicial.

Josh Meltzer, chefe de políticas públicas da Airbnb no Nordeste dos EUA, condenou o comportamento e reconheceu as limitações das regras da empresa, que segundo ele foram feitas como um paliativo de curto prazo.

"Estamos falando de um conjunto muito restrito de pessoas que trabalham de forma muito criativa e muito diligente", disse ele. "É por isso que apoiamos o que eu diria ser uma legislação muito restritiva e abrangente no nível estadual que essencialmente exigiria que a plataforma e o governo trabalhassem juntos para evitar esse tipo de comportamento."

A cidade também processou cinco prédios por não reprimir o esquema administrado por Beckman e seus parceiros, apesar das violações cometidas pela cidade.

A Abington Properties, proprietária de três dos prédios, não respondeu a várias solicitações de comentários. Uma secretária da Helm Management, que administra um edifício do East Harlem que acabou se tornando um hotel de fato, disse que a empresa não comentou sobre os litígios pendentes.

Beckman afirmou que deseja chegar a um acordo com a cidade, mesmo que isso signifique pagar uma boa multa. Ele disse que, apesar do processo, resolveu falar ao "Times" porque achava que a cidade o havia retratado injustamente como um criminoso.

"Não há nada de mal em nós", disse ele. "É por isso que estou feliz por conceder esta entrevista a você."

Vou de app! Na briga com o Uber, os táxis não morreram

Confira o especial