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Na França, incubadora quer usar a inclusão para bater o Vale do Silício

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Imagem: Divulgação

Felipe Maia

Colaboração para o UOL Tecnologia, em Paris

07/05/2018 04h00

De um lado, esculturas originais de conhecidos artistas plásticos, como Jeff Koons e um Ai Weiwei. De outro, o futuro da inteligência artificial (ou a nova menina dos olhos do mundo tecnológico). É a França, onde arte e tecnologia podem conviver sob o mesmo teto. No caso, o teto da Station F, o maior campus de startups do mundo.

"É engraçado que algumas pessoas que visitam Paris agora vão à torre, ao Louvre e à Station F", diz Roxanne Varza, 30, enquanto apresenta a estação ao UOL Tecnologia. "Isso mostra o papel da tecnologia na sociedade."

Trinta programas de aceleração de empresas, mais de mil pessoas envolvidas diretamente com startups e três mil postos de trabalho à disposição já fariam valer o título de primeiro lugar ao projeto. Além disso, são 34 mil metros quadrados de superfície em um edifício cujo comprimento é equivalente à altura da torre Eiffel.

Funcionando a menos de um ano, a antiga estação de trem que abriga o campus está situada não longe de outros monumentos de Paris. Junto de um extenso saguão central, duas alas de três andares servem de espaço de trabalho com mesas, pufes, laboratórios, contêineres transformados em salas de reunião, auditório, café, cabeleireiro e até chuveiros. "Consideramo-nos mais um campus que uma aceleradora", diz ela.

O objetivo não difere de outros projetos do gênero: estimular o desenvolvimento de startups por meio de um ecossistema favorável. A megalomania por trás da Station F, contudo, aumenta a concorrência para entrar ali. "Tivemos 4 mil candidatos de mais de 50 países para um de nossos projetos de aceleramento", diz Varza. "200 startups foram escolhidas."

 "O primeiro objetivo é não perder dinheiro", diz ela. "E então ajudar startups a alcançarem sucesso."

A seleção pode durar meses. O processo é composto por, entre outros, entrevistas e avaliação de investidores. Segundo Varza, diversidade é uma preocupação. Um terço das startups ali não é francesa, as mulheres formam 40% do total de pessoas no campus e há projetos para grupos incomuns entre empreendedores, como refugiados ou ex-presos.

A função social dos projetos é um fator relevante na Station F. Alguns exemplos são o Meet My Mama, serviço em que é possível encomendar uma refeição típica feita por cozinheiros nativos de determinado país, ou do Digitall, startup que desenvolve um sistema de segurança inteligente para veículos. O fundador cumpriu pena por roubo de carros. "Quem melhor para resolver esse problema?", diz Varza.

Já a Euveka, que cria manequins conectados para empresas têxteis, foi fundada e tem uma mulher no comando. No começo do ano, a startup causou certo barulho na CES, uma das maiores feiras de eletrônicos do mundo. 

Prestes a também completar um ano no cargo, Varza começa a somar outros sucessos. A startup francesa Recast.ai é uma das primeiras crias da Station F. O projeto de chatbots e processamento de linguagem recebeu apoio da Microsoft assim que chegou ao campus. Em fevereiro, a empresa foi adquirida pelo conglomerado europeu SAP.

Além da gigante dos softwares e empresas como Facebook e Google, escolas de negócios e centros de pesquisa também desenvolvem programas no campus. Elas agrupam startups por temas como saúde ou finanças.

No Vale do Silício o dinheiro é quem manda. Mas as pessoas começaram a pensar que é preciso ter cuidado, encorajar empreendedores a fazer a coisa certa. O que estamos tentando fazer não é apenas ter projetos bons para a sociedade, mas, também, ter projetos que incluam diversidade e acessibilidade

Roxanne Varza, diretora da Station F

Mulher no cargo

Varza diz não conhecer todos na Station F — "quando eu sei quem são, o programa acaba e eles vão embora" —, mas muita gente sabe quem é a jovem norte-americana que lidera o projeto. "Ela é a big boss", diz alguém em um dos corredores da estação. A chefona ri e refuta o título.

"As pessoas percebem que tem uma mulher no cargo", diz ela. "Além disso eu não sou francesa, aparentemente sou jovem para esse trabalho, enfim, acho que Xavier certamente considerou isso: ele quis passar uma mensagem."

Xavier Neil iniciou sua carreira nas telecomunicações do seu país nos anos 90 com um projeto de tele-sex via computador. Hoje ele é um dos proprietários da Free, um dos maiores provedores de internet franceses, e do jornal Le Monde. Niel investiu 250 milhões de euros para tirar a Station F do papel.

Roberto Frankenberg/The New York Times
Xavier Niel e Roxanne Varza, que comandam a Station F, maior berço de startups do mundo Imagem: Roberto Frankenberg/The New York Times

O empresário conheceu Varza em um evento de tecnologia. Ela já havia passado por várias startups e escrevia sobre esse mundo para o site norte-americano TechCrunch. Xavier conhecia seu trabalho e pediu umas sugestões para o projeto até então sem nome. Em pouco tempo, Varza estava no canteiro de obras acompanhando o nascimento Station F.

Hoje, o campus de startups é parte de um movimento de liderança do país no que diz respeito ao desenvolvimento de novas tecnologias. Em um mundo com Brexit e Donald Trump, a França do presidente Macron vende uma imagem favorável aos negócios.

Desde 2015 temos visto mais financiamento, mais desafios tecnológicos e estamos em um lugar mais barato que o Vale do Silício. Eu acho que a Station F é mais um catalisador de algo que está acontecendo naturalmente

Roxanne Varza

Com o tempo, outros paradigmas vão se quebrando. A Station F funciona 24h por dia, todos os dias — algo raríssimo na França. Nos próximos meses, o projeto deve abrir um conjunto habitacional para 600 empreendedores. E como tal, Varza tem duas preocupações básicas: suas finanças e seu produto.

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