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Como softwares piratas podem ter levado fabricante de guitarra à falência

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Pirataria de programas de produção musical pode ser culpada pela baixa das guitarras Imagem: Getty Images/iStockphoto

João Paulo Vicente

Colaboração para o UOL Tecnologia

09/05/2018 04h00

As guitarras estão na pior, e os programas de computador podem ser um dos culpados pela queda. Com dívidas que somam US$ 500 milhões, a Gibson declarou falência no dia primeiro de maio de 2018. Os problemas financeiros da empresa, uma das maiores fabricantes mundiais de guitarras junto a Fender, são um sinal da queda de popularidade de um dos instrumentos mais emblemáticos do século 20.

Outros sintomas não faltam: a Guitar Center, maior rede varejista de instrumentos dos Estados Unidos, está afundando no mesmo barco - as dívidas do grupo já se aproximam do US$ 1 bilhão. Além disso, segundo dados da National Association of Music Merchants (NAMM), foram vendidas 1,1 milhão de guitarras no mercado americano em 2017, contra 1,6 milhão em 2005.

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Os motivos para esse cenário são múltiplos, mas um dos consensos é a saída de cena do rock e outros estilos fincados no uso de instrumentos analógicos e o crescimento do rap e da música eletrônica. Dados da Nielsen, empresa especializada em pesquisa de mercado, mostram que em 2017 artistas de Hip-Hop e R&B superaram os de rock pela primeira vez na história no consumo do público americano.

São nesses gêneros que a molecada sem grana que começa a produzir música acha um espaço para brilhar. Enquanto uma guitarra custa algumas centenas de reais no melhor dos casos (uma Gibson, por exemplo, não custa menos que R$ 5.000), grande parte da produção eletrônica é feita por meio de softwares direto no computador. E não é preciso nem chegar na segunda página do Google para aprender a piratear programas do tipo.

Em outras palavras, quem quiser se aventurar na música pode fazer isso investindo bem menos e sem medo de arrependimento - pense naquele seu primo que tem uma guitarra encostada em casa depois de fazer seis meses de aulas. E também vale lembrar: não basta comprar apenas a guitarra. É preciso por a mão no bolso para ter cabos, amplificador, cordas...

Ainda que seja difícil avaliar o quanto a pirataria de software musical é disseminada, é possível afirmar que está longe de ser rara. Avicii e Steve Aoki, para ficar em nomes de maior sucesso comercial, são dois produtores de música eletrônica já flagrados com programas piratas. O rapper Kanye West também já foi visto em um vídeo no YouTube com uma versão pirata de um programa cuja licença custa US$ 200

Luiz Café, produtor que já trabalhou “com quase todo mundo” do rap brasileiro, diz que não estaria onde chegou sem essa mãozinha no começo da carreira.

Eu comecei com PC velho emprestado e plugins  crackeados [pirateados]. Me ajudou a decidir que era o caminho que eu queria seguir

Luiz Café, produtor musical

“Minha geração, do final dos anos 90 e começo dos 2000, começou com essa história dos piratas. Um amigo meu conseguiu o Fruit Loops, que foi meu programa de entrada para começar a produzir”, diz Vinicius Nave, o Nave Beatz, que já criou bases para músicas do Emicida, Rodrigo Ogi e Karol Conka, entre outros. “Se não fosse a pirataria eu não tava aqui falando com você.”

Como era de se esperar, a indústria de software de produção vez ou outra reclama da pirataria e até mantém páginas com tom educacional, meio parecido com aquilo que as gravadoras faziam durante a popularização de CDs piratas. 

Aprendizado moleza

Luiz e Nave ressaltam, no entanto, que a curva de aprendizado é um fator tão importante quanto o financeiro na preferência por começar a trabalhar com música no computador. Enquanto o domínio da guitarra ou outro instrumento analógico demanda anos de prática e certo treinamento formal, algumas semanas de tutoriais são o suficiente para ter resultado nos softwares de produção.

No ano passado, vale lembrar, MC Fiote fez o hit "Bum Bum Tam Tam" com o microfone do celular em um computador em menos de uma noite. A música tem mais de 800 milhões de visualizações no YouTube. Exemplos do tipo não faltam.

Para quem começa, o software é mais intuitivo e instigante. É bem mais interessante do que comprar um instrumento, mas é possível que alguém me queime por falar isso 

Lucas Dimitri, músico produtor do Formaflúida.

“No meu próximo álbum gravamos uma orquestra de câmara, sax, sintetizadores de verdade, plugin de sintetizadores e outros instrumentos digitais. No meio do caminho nem lembro de onde veio cada trecho, nem importa. Tem que soar bem, ouvir e ter prazer”, diz ele.

Um pouco de vocabulário: a produção musical em si nos computadores é feita em Digital Audio Workstations, conhecidos pela sigla DAW. São programas como FL Studio (o Fruit Loops mencionado por Nave), Logic, Cubase, GarageBand e Pro Tools, entre outros. Os plugins citados por Luiz e Lucas, por sua vez, são softwares adicionais que podem ser incorporados aos DAWs e trazem novos efeitos ou simulam o som de determinado instrumento por meio de samples.

Isso significa que mesmo que a praia do jovem aspirante a estrela da música não seja alguma vertente eletrônica, ele pode reproduzir qualquer tipo de som no computador com certa fidelidade ao instrumento original. Ênfase no certa. “Instrumento de cordas e metais são muito difíceis. Impossível recriar a corda vibrando, o movimento do músico, o groove. É difícil”, afirma Luiz.

Lucas é mais flexível, mas traça um limite para a eficiência dos plugins: “Uma guitarra distorcida é insubstituível”.

O preço dos softwares

Nave acredita que as empresas fabricantes de softwares utilizadas para a criação de músicas no computador façam vista grossa para a pirataria. “Eu não conheço uma pessoa que faz música no computador que não tenha começado com programa pirata”, diz ele. “As empresas sabem disso, que não teriam consumidores no futuro de outro modo.” Com o tempo, a tendência é que os produtores que se profissionalizam acabam por comprar toda a parafernália digital utilizada.

Quando pagos, os programas de produção musical podem custar tão caro quanto instrumentos analógicos. 

Só com plugins, eu já gastei uns R$ 40 mil. A licença do Pro Tools, o programa que uso, custou R$ 5 mil, tem atualização que custa outro R$ 1 mil, então os softwares podem sair mais caro do que seguir a carreira com um instrumento 

Luiz Café

De fato, quando o capitalismo entra em campo, a produção digital custa caro. Com um agravante: os programas, assim como grande parte do hardware utilizados para apresentação ao vivo de música eletrônica, perdem valor - e até utilidade - com o tempo.

Reprodução
Jimmy Page, do Led Zeppelin, com a sua clássica Gibson Les Paul Imagem: Reprodução

Pode não ser o fim

Em contrapartida, amplificadores, pedais de efeito e guitarras com décadas de idade podem soar tão bem - se não melhor - do que produtos recém-lançados. Este, aliás, é outro do motivo da queda na venda de novos instrumentos: além da durabilidade, há um grande mercado de usados.

A Gibson, de qualquer forma, sobreviverá. A empresa passa por uma série de reestruturações, que incluem vender o departamento de eletrônicos e acessórios, para voltar a operar no azul.

“A demanda por guitarras diminuiu. Mas não chegue a conclusões erradas. Não conclua que a guitarra morreu. A guitarra está por aí de algum jeito desde a Mesopotâmia”, disse ao The Guardian Chris Martin IV, CEO da CF Martin & Co, uma fabricante de guitarras fundada no século 19.

Na Zona Oeste de São Paulo, a Teodoro Sampaio é conhecida como a rua dos instrumentos. Em uma loja dedicada às guitarras, o funcionário explica que eles não falam abertamente sobre o tema. Pode ser o dia - segunda - ou o horário - almoço -, mas o espaço estava vazio durante a nossa visita. A queda da procura, ele conta, não é de agora, vem desde a Copa de 2014, e envolve mil outros fatores que não a mudança no gosto da juventude, como preços altos, crise econômica, crescimento de comércio eletrônico etc.

Mas ainda aparecem garotinhos e garotinhas ansiosos para se tornarem futuros astros do rock? “Aparecem, mas bem menos. E às vezes a gente percebe que é mais por influência do pai, que tenta preencher a frustração de não ter tocado um instrumento”, conta.

Se a ideia é aprender, o software é a tradução do faça você mesmo. “Muito legal essa era em que a tecnologia esteja a nossa disposição para desenvolver uma cultura musical sem depender de ensino técnico ou formação específica”, diz Lucas Dimitri.

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