Topo

Tecnologia


Vida louca: triunfos e deslizes em 2018 aumentam pressão sobre Elon Musk

Mike Blake/Reuters
Tanto no pessoal quanto no profissional, Elon Musk faz muito barulho em 2018 Imagem: Mike Blake/Reuters

João Paulo Vicente

Colaboração para o UOL Tecnologia

02/09/2018 04h00Atualizada em 12/09/2018 13h21

Elon  Musk é o maior exemplo de um novo tipo de celebridade: empreendedores moderninhos cuja fama e persona pública rivaliza com astros de cinema. Bilionário, entusiasta de cultura pop e criador de uma série de negócios inovadores, é idolatrado por uma legião de fãs. Ao mesmo tempo, suas dificuldades em lidar com críticas e em cumprir promessas mirabolantes resultam em uma faceta antipática para os não convertidos.

Com toda essa pressão nos ombros, 2018 é o ano em que Elon Musk derrete a olhos vistos.

VEJA TAMBÉM

O caso mais recente aconteceu no dia sete de agosto, quando ele tuitou que pensava em comprar de volta todas as ações da Tesla por US$ 420 e fechar o capital da companhia. O mercado financeiro virou uma bagunça, o conselho da empresa que fabrica carros movidos a eletricidade chiou e Musk passou as semanas seguintes explicando que atravessava um momento de estresse e trabalho em excesso.

Ao que tudo indica, sempre foi assim. Aos 30 anos sua fortuna já passava de US$ 150 milhões e ele é conhecido por afirmar que um executivo de sucesso precisa estar disposto a encarar jornadas de trabalho semanais de até 100 horas. Mas se a fama e a riqueza vieram na América do Norte, a história de Musk começou do outro lado do Atlântico, na África do Sul.

Jovem prodígio

Musk nasceu em Pretória em 1971. Foi uma criança tímida, o clichê do jovem introspectivo que se refugia nos livros para fugir dos colegas brigões. Resultado: com apenas 12 anos, ele criou um jogo de videogame, chamado Blastar, e vendeu por US$ 500 seu código para a revista "PC and Office Technology". E a faceta gamer, aliás, é mantida até hoje (e dá até para jogar!). 

A evolução de quem era meio nerd e tinha olhos para os negócios veio os 17 anos, quando foi estudar física e economia no Canadá. Pouco depois, em 1992, já estava nos Estados Unidos para um PhD que nunca concluiria.

À época, a primeira onda das empresas ponto com batia forte, e ele fundou juntou ao irmão Kimbal Musk a Zip2. A empresa era uma espécie de guia virtual de atrações da cidade. Um conceito ridículo de comum hoje, mas inovador duas décadas atrás. Em 1999, a Compaq comprou a Zip2 por mais de US$ 300 milhões. Milionário antes dos 30, Musk poderia ter tirado um ano sabático para curtir praias paradisíacas, mas ainda em 1999 ele fundou o X.com, que logo viraria o PayPal.

E tome mais dinheiro: em 2002, o PayPal foi comprado pelo Ebay por US$ 1,5 bilhão. Ele tinha saído da categoria dos empreendedores que enriqueceram rapidamente com a internet para se tornar um astro.

Reprodução/Pinterest
Elon Musk em 1994, muito antes de faturar com empresas de internet Imagem: Reprodução/Pinterest

No asfalto...

Entre os livros que fizeram a infância de Musk, havia vários de ficção científica. E entre esses, destacava-se a série "Fundação", de Isaac Asimov. Em resumo, Fundação conta a história de um homem chamado Hari Seldon, que prevê um futuro de trevas para a humanidade e traça um plano para evitar que ele se torne realidade.

Segundo Musk, a lição que ele tirou da obra de Asimov é a necessidade de agir para prolongar a existência da civilização humana. Entre as ações essenciais nesse sentido, estava reduzir a emissão de gases poluentes. Um ponto de partida seriam os carros elétricos.

Em 2004, ele encontrou o lugar perfeito para colocar essa ideia em prática: a Tesla, uma empresa fundada no ano anterior por Martin Eberhard e Marc Tarpenning. Após anos de investimento pesado, a Tesla lançou o Roadster, um carro veloz, bonito e 100% elétrico.

Tesla
Tesla atingiu valor de mercado maior que o da GM em 2017 Imagem: Tesla

O Roadster começou a ser vendido em 2008, no mesmo ano em que Martin e Marc deixaram a empresa e Musk assumiu de vez o comando. Desde então, uma série de novos modelos têm sido lançados e o valor de mercado da Tesla cresce a passos largos. Em 2017, o valor das ações da Tesla superou pela primeira vez o da GM (US$ 51 bilhões contra US$ 50 bilhões), até então a fabricante de automóveis mais valiosa dos Estados Unidos.

Ajudou nessa escalada uma série de inovações tecnológicas implementadas pela empresa. Só que aí também residia um problema: a dificuldade em produzir em massa os veículos - sempre um motivo de tensão entre investidores e clientes. Lançado em 2017, o Tesla 3, que custa a partir de US$ 35 mil, exemplificou esse cenário.

A expectativa era produzir 20 mil unidades até o final do ano passado, mas foram feitos pouco menos que 2,5 mil. Tem gente que pagou entre US$ 1.000 e US$ 2.500 de entrada e está longe de ver o sonho do carro elétrico próprio realizado.

Foi justamente no momento em que a Tesla botou carros no mercado que a vida pessoal dele parece também ter tomado caminhos malucos. Foi em 2008 que ele encerrou um casamento de oito anos com a escritora canadense Justine Wilson, com quem teve cinco filhos - um casal de gêmeos e em seguida trigêmeos, todos por fertilização in vitro. 

Wilson chegou a afirmar que Musk era muito controlador. Exigia, por exemplo, que ela pintasse o cabelo de cores cada vez mais claras.

Reprodução/Instagram/amberheard
Elon Musk com a então namorada Amber Heard Imagem: Reprodução/Instagram/amberheard

Conforme as dores de cabeça com a Tesla ia amentando, Musk ia enfileirando relacionamentos não menos curiosos que carros esportivos ecológicos. Menos de seis semanas após o divórcio, ele engatou um namoro com a atriz inglesa Talulah Riley, 32. “Se eu não estou amando, se não estou em uma relação firme, não consigo ficar feliz”, disse ele, em entrevista à revista "Rolling Stone".

O romance com Talulah deu início a um padrão na vida de Musk, que completou 47 anos no último dia 28 de junho: relacionamentos com mulheres famosas e bem mais novas que ele. 

Depois, foi a vez de Amber Heard, atriz americana que hoje tem 32 anos. Por fim, em 2018, ele anunciou que estava namorando a cantora Grimes, de 30 anos. Por enquanto, os dois continuam juntos.

…e no espaço

Pegação à parte, não tem modelo ou artista que faça brilhar mais os olhos de Musk do que a SpaceX. Fundada por ele em 2002, dois anos antes de investir na Tesla, a SpaceX é de maneira incontestável a empresa de exploração espacial privada mais bem-sucedida do mundo.

Sua história é cheia de primeiras vezes: primeira empresa privada a colocar uma aeronave em órbita e recuperá-la, primeira empresa privada a fazer viagens até a Estação Espacial Internacional, primeira organização na história a aterrissar e reutilizar um foguete. Com valor de mercado atual de cerca de US$ 25 bilhões, a SpaceX hoje é uma das empresas de capital fechado mais valiosas do mundo.

Para Domenico Simone, professor da Faculdade de Engenharia Aeroespacial da UnB Gama, alguns fatores políticos ajudaram nesse processo. “Desde o final do programa do ônibus espacial, os russos com a Progress e a Soyus garantiram a continuidade de suprimentos e tripulações na estação espacial. A escolha de confiar parte do transporte à SpaceX é também política, evita que a vida da estação fosse muito dependente dos russos”, diz Domenico.

Divulgação
O Tesla Roadster vermelho (e seu "piloto") enviado ao espaço pelo Falcon Heavy Imagem: Divulgação

Segundo o professor, ao mesmo tempo que Elon Musk traça um caminho próprio na exploração espacial independente das vontades da NASA ou outras agências, ele ainda trabalha em cima de tecnologias consolidadas ou em desenvolvimento por diversos atores.

“Nesse sentido, Musk é um estrategista com muito talento de comunicação e publicidade. Sabe que tudo que investe nesses setores tocam o imaginário coletivo, retorna não só em termos de contratos, mas visibilidade”, afirma Domenico.

Não à toa, a jogada da SpaceX mais famosa envolveu a Tesla. No começo do ano, a empresa enviou um Tesla Roadster - o primeiro modelo, aquele de 2008 - para orbitar ao redor do Sol. Foi a primeira vez que uma companhia privada fez algo do tipo.

“Elon Musk sabe criar um fato. Ele já mostrou isso várias vezes", diz Felipe Chibáz Ortiz, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. “Hoje um nome como o dele é uma marca, tão poderosa quanto de grandes empresas. O marketing pessoal é uma ferramenta para promover essa marca. Por si só não é uma ferramenta negativa, mas se houver exagero, aí sim pode ser questionável”, explica Ortiz.

Odd Andersen/AFP Photo
Ao passo que tem sucessos na SpaceX, Musk tornou-se intolerante a críticas Imagem: Odd Andersen/AFP Photo

Queimando na reentrada

E como Elon Musk tem exagerado. Nadando de braçadas na relação com os fãs (conhecidos como Muskbros), ele acabou intolerante às críticas, principalmente as vindas da imprensa (um articulista do "New York Times" ligado ao mercado financeiro chegou a compará-lo ao presidente americano Donald Trump).

Em 26 de maio, ele compartilhou um artigo do "The Knife" com críticas a veículos jornalísticos. O problema é que o "The Knife" é ligado ao "NXIVM", culto religioso envolvido em casos de escravidão sexual. Musk acabou deletando o tuíte em que compartilhava o artigo, mas não sem antes defender o argumento presente nele.

Outro exemplo do comportamento desmedido em relação a críticas vem do caso dos garotos presos por uma semana em uma caverna inundada na Tailândia.

A despeito de ressalvas dos responsáveis pela operação de resgate de que o submarino não passaria pelos túneis tortuosos e apertados do local, Musk chegou a viajar com o protótipo para a Tailândia. Após os doze garotos e o técnico que os acompanhava saírem com vida, um dos mergulhadores envolvidos no salvamento, o britânico Vern Unsworth, chamou o plano do bilionário de um golpe de publicidade.

Como resposta, Elon Musk chamou o cara de pedófilo no Twitter. Dizer que pegou mal é ser muito gentil. Três dias depois do ataque sem sentido, em 18 de julho, Musk pediu desculpas a Vern. Não adiantou: no dia 30 de agosto, o mergulhador tornou público que está processando o bilionário.

Fim das polêmicas? Que nada, a vida pessoal também anda rendendo alguns barracos saborosos.

Quando Musk se juntou a Grimes, o casal fez acender uma luzinha de curiosidade em quem acompanha cultura pop. Os fãs da cantora, que faz uma música pop eletrônica tão inventiva quanto seu visual, não entenderam muito bem o que a atraiu bilionário.

A rapper Azaelia Banks, famosa por tretar com tudo e todos na internet, deu um gostinho da relação. Segundo Azaelia, Grimes a convidou até a mansão de Musk em Los Angeles para que as duas colaborassem em uma música para o disco novo da rapper. Azaelia diz, no entanto, que Grimes a deixou de lado e ficou dias cuidando de Musk, que estava mal depois do tal tuíte em que prometia comprar de volta as ações da Tesla.

Azaelia chegou a postar no Stories do Instagram que o valor anunciado, US$ 420, era uma referência à maconha. Disse também que a colaboração era só uma desculpa para que ela participasse de ‘sexo a três esquisito’ com o casal. Grimes não se pronunciou sobre o caso. Musk negou tudo, inclusive de que estava louco de maconha. 

Getty Images
Elon Musk e Grimes: acusados por Azealia Banks de querer "sexo a três esquisito" Imagem: Getty Images

Ao infinito e além

Louco ou não, Musk atravessa as polêmicas de bolso cheio e ideias ambiciosas - nada mal para o moleque que sofria bullying. Hoje, a fortuna dele é avaliada em US$ 23 bilhões e os seus negócios vão além da Tesla e SpaceX.

Entre eles estão a SolarCity, que fabrica painéis de energia solar, o Hyperloop, o trem futurista que já coloca os pés até no Brasil. Isso sem contar a The Boring Company, cujo produto de maior sucesso é um lança-chamas

Em outra frente, ele se dedica a um dos seus assuntos preferidos: a inteligência artificial. Em 2016, ele criou a Neurolink, uma startup que pesquisa possibilidades de integração direta entre o cérebro de pessoas a computadores. Se der certo, a empresa pode ajudar a criar os primeiros ciborgues. Parece ficção científica, mas é disso mesmo que ele gosta.

Se todos esses empreendimentos fizerem tanto barulho quanto a Tesla e SpaceX, os próximos anos do bilionário prometem ser ainda mais agitados quanto a última década. Veremos se sua genialidade dará conta de tudo isso sozinho ou se ele entrará em combustão como um foguete defeituoso.

Mais Tecnologia