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Onde nascem os gadgets: a cidade chinesa que alimenta o mundo com celulares

Kin Cheung/AP Photo
Funcionários da Foxconn em Shenzhen: cidade alimenta o mundo com gadgets Imagem: Kin Cheung/AP Photo

Felipe Zmoginski

Colaboração para o UOL Tecnologia

09/09/2018 04h00

Shenzhen, na China, é uma cidade de trabalhadores. A cidade, que cresce acima da média chinesa e empoleira doze milhões de pessoas em condomínios verticais construídos às pressas, era uma pacata vila de pescadores ainda no início dos anos 80. Hoje, ela é a capital mundial do hardware. É lá onde nasce a maioria dos gadgets do mundo.

A mudança começou quando um projeto desenhado nos gabinetes de Pequim a consagrou como Zona Econômica Especial (SEZ, na sigla em inglês). A decisão foi uma tragédia para os pescadores locais e um bilhete premiado para todos os cidadãos que tiveram permissão de migrar para lá. Na época, o fluxo de pessoas dentro do país ainda era controlado pelo governo central e obter uma permissão para viver e trabalhar numa SEZ era como ganhar um passe para superar a pobreza.

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Desde as quatro da manhã, quando o tráfego portuário é aberto, até às duas horas da próxima madrugada, quando fecham os mercados noturnos de Huadong, quase tudo o que se vê lá é trabalho. Quando os primeiros raios de sol vencem a densa névoa de neblina e poluição que cobre a baía de Houhai, está dado o sinal para mais um dia de produção. A luz natural é condição essencial para o tráfego de transatlânticos que fazem filas de até 6 quilômetros da costa esperando sua vez para entrar numa das 152 rotas de carregamento de mercadorias.

Um exército de estivadores com pouco mais de 1,60 m e operadores de guindastes postados em cabines a 20 metros do solo, organizam o embarque de smartphones, televisores, drones e notebooks produzidos em algum dos 10 distritos industriais do município. As embarcações que deixam Shenzhen apinhadas de gadgets quase nunca chegam vazias à cidade. Trazem chips de memória flash da Coreia, baterias de lítio de Hong Kong, processadores do Japão, chipsets da Alemanha e receptores de GPS dos Estados Unidos. Do Canadá, Austrália e Brasil, chegam silício, ferro, bauxita e alumínio despejados aos milhares de toneladas nos silos para alimentar a mais faminta indústria siderúrgica do mundo.

Parece uma loucura, mas é só começo. A meta do governo chinês é dobrar a área portuária da cidade até 2025.

Reuters
Porto de Shenzhen é a porta de saída para o mundo de muitos eletrônicos Imagem: Reuters

Cidade de imigrantes

Experimentada desde o começo dos anos 2000, a maior liberdade migratória interna da China fez Shenzhen crescer a um ritmo alucinante. Milhares de camponeses do Cantão, região sul da China, têm descoberto no polo tecnológico as dores e alegrias do milagre econômico.

Bairros inteiros foram construídos a cada ano e taxistas se perdiam o tempo todo ao topar com ruas e avenidas que não existiam. Ao caminhar pelos bairros mais afastados do centro, é impossível não cruzar condomínios residenciais brilhando de novos, mas ainda com calçadas e rampas de acesso à garagem por fazer. Comércios abrem as portas antes mesmo de janelas serem instaladas e até hotéis são inaugurados sem que toda a mobília tenha chegado aos quartos.

A maioria das pessoas que chega a esses novíssimos bairros é composta por camponeses em busca de emprego nas zonas industriais. Jovens de pequenas vilas do interior ainda se espantam com a presença de ocidentais na cidade, que aparecem sob seus olhos pela primeira vez fora da TV ou do cinema.

No distrito de Longgang, enormes complexos fabris produzem eletrônicos que levam as marcas de gigantes da tecnologia, como Apple, Acer, HP, Dell e Motorola. Um estudo do governo da província de Guandong estima que US$ 30 bilhões foram derramados em Shenzhen só por companhias estrangeiras desde que a cidade se tornou uma SEZ.

Impostos baixos, menor burocracia para empreender, oferta de terra, câmbio desvalorizado, energia abundante, frouxas regras ambientais e infraestrutura logística impecável são os trunfos de uma SEZ. A todos estes fatores, soma-se um ingrediente poderoso, capaz de desequilibrar a balança da competição internacional a favor da China: um mercado de trabalho com mão de obra farta e impedida de organizar-se livremente.

Na China, os contratos de emprego permitem jornadas de até 60 horas semanais, o que equivale a trabalhar 10 horas por dia, de segunda a sábado, descontado o tempo gasto em pausas para refeições ou para ir ao banheiro

Jiahui Huang, diretora da organização China Labours Watch

Esse limite, no entanto, é frequentemente desrespeitado. Segundo Jiahui, são fartos os relatos de jornadas superiores a 70 horas semanais por salários mensais de 2000 yuans, ou menos de R$ 1.000 (incluindo todos os bônus por horas extras).

Bem-vindo a iPod City

A mais famosa máquina de superexploração, chamada de iPod City pelos moradores locais, são as fábricas da Foxconn. O conjunto de construções que forma a unidade que fabrica produtos da Apple reúne 15 galpões dedicados às linhas de produção, além de prédios-dormitórios, silos de armazenamento de peças e áreas de lazer, como piscina, quadras de esporte, refeitórios e supermercados.

Quem vive na iPod City tem acesso até a um canal exclusivo de televisão, a Foxconn TV, que transmite sua programação para um milhão de trabalhadores espalhados pela China continental. Deste total, 450 mil espectadores vivem na planta de Shenzhen, maior instalação da Foxconn no país.

Junto com toda essa grandeza, relatos de suicídios nas instalações foram recorrentes na década passada. 

Gilles Sabrie/The New York Times
No começo da década, condições de trabalhadores de Shenzhen causou polêmica Imagem: Gilles Sabrie/The New York Times

A repercussão internacional das mortes na iPod City fez Apple e Foxconn reagirem. Por semanas, Terry  Gou, executivo-chefe e fundador da Foxconn, deu expediente em Shenzhen e acompanhou de perto melhorias nas condições de trabalho dos operários. Gou recebeu pessoalmente jornalistas de agências internacionais de notícias e os levou para visitar dormitórios novos, equipados com ventiladores e televisão, e conhecer os refeitórios e a piscina disponíveis no complexo.

Os operários receberam, ainda, um aumento de 30% em seus salários e o número de horas extras que cada trabalhador pode fazer foi limitado. Preocupado com as notícias que recebia na Califórnia, Steve Jobs pediu que seu homem de confiança, o então diretor de operações Tim Cook, conhecesse pessoalmente o fornecedor chinês.

Um estudo da consultoria francesa Alternatives Économiques mostra que a eficiência e o baixo custo das fábricas chinesas são um pilar fundamental na recente ascensão da Apple, alçada em 2011 pela primeira vez ao posto de empresa de tecnologia mais valiosa do mundo.

Vale do Silício vermelho

Arranha-céus envidraçados, restaurantes estrelados por chefs europeus e centros de compras com lojas de grife compõem o cenário do High Tech Park, bairro que concentra os laboratórios das companhias chinesas ZTE, Huawei e Lenovo, e atrai parte das mentes mais brilhantes do país. Executivos bem-sucedidos em San Francisco, Londres e Nova York dividem os escritórios do Park com jovens programadores escolhidos em rigorosos programas de seleção nas universidades de Shanghai e Pequim, as mais prestigiosas da China. 

Criado logo após a decisão de tornar Shenzen uma zona econômica especial, o distrito é uma espécie de "Vale do Silício Vermelho", uma área onde a China tenta superar sua recente condição de chão de fábrica e tirar a diferença que a separa dos vizinhos Japão e Coreia do Sul no desenvolvimento de novas tecnologias. Historicamente acusadas de criar cópias baratas dos melhores produtos concebidos nos mercados mais avançados, as empresas chinesas já emplacam projetos de alta tecnologia embarcada.

São exemplos deste fenômeno os laboratórios de pesquisa e desenvolvimento da Huawei, companhia que detém a maior parte das patentes das futuras conexões 5G, os laboratórios de carros e ônibus elétricos da BYD e companhias inovadoras de drones e robótica, como DJI e UBTech. Em todos estes casos, os produtos são não apenas “assembled in China”, mas também “designed in China”, com tecnologias e patentes reconhecidas internacionalmente.

Mao Siqian/Xinhua
Banco de genes: a cidade aposta em alta tecnologia para manter o crescimento Imagem: Mao Siqian/Xinhua

Cidade de falsificadores 

A inovação e alta tecnologia, porém, ainda convivem com uma miríade de fabricantes de baixo custo, muitos deles situados em Futian. Neste bairro varejista, as descoladas lojas de rua que vendem produtos originais da Apple e Samsung são eclipsadas pelos grandes shoppings verticais que se espalham ao longo da avenida Huaqiang. Prédios com até 30 andares são repartidos em mínimos estandes, alguns com um mísero metro quadrado, que vendem toda sorte de equipamentos eletrônicos, desde chipsets e transistores até cabos de fibra óptica e gigantescos racks para servidores.

A integração de eletrônicos em Futian faz as fábricas da Foxconn parecerem um resort de luxo. Garotos chineses que não aparentam mais de 15 anos se espremem em corredores com menos de um metro de largura e compartilham mesas que não oferecem mais que 40 centímetros de espaço para cada um. Sob forte iluminação artificial e sem ventilação adequada, muitos garotos trabalham sem camisa ou descalços para suportar o calor.

O resultado desse esforço sobre-humano são pilhas de smartphones e notebooks baratos, com design e configuração inventivos. Em algumas lojas, o cliente pode até escolher qual marca deseja associar a seu hardware genérico, entre adesivos plásticos de marcas famosas, entre elas empresas sofisticadas da china, como a Xiaomi, Huawei, Vivo e Oppo, fabricante de smartphones de alta qualidade.

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Prédios comerciais no distrito de Futian: andares tomados por barraquinhas de componentes Imagem: Getty Images

Transformação

O começo marcado por todas as dores de uma explosão de desenvolvimento vai ficando para trás. A qualidade do ar ainda não é boa o suficiente, mas isso se deve menos a fábrica poluidoras que a frota de automóveis movidos a combustíveis fósseis. Aos poucos, esses carros vão sendo substituídos por frotas elétricas, como a da companhia BYD, líder na fabricação de carros e ônibus movidos a energia limpa na China.

A água dos rios e afluentes que desembocam no mar de Shenzhen certamente não são tão limpos quanto o eram nos anos 70, mas já não geram o mar de algas e espuma química que assustou o mundo em 2008 - ano em que a China esteve sob os holofotes globais por sediar os Jogos Olímpicos. Se é verdade que não há sindicatos livres, os tempos dos baixos salários também vão ficando para trás e indústrias de menor valor agregado, como a têxtil ou de beneficiamento simples, se mudaram para Vietnã e Indonésia. O trabalhador chinês ficou mais rico, exigente e melhor remunerado.

Se os planos do governo derem certo, em duas décadas Shenzhen vai transferir também a fabricação dos gadgets para outros mercados, conectados pela “rota da seda” (ambicioso projeto logístico que ligará o país aos vizinhos do Sudeste Asiático e ao interior da China). Na Shenzhen de 2040, sonha o governo chinês, só haverá empresas de inteligência artificial, robótica e tecnologias inovadoras. É possível que, neste futuro, usemos gadgets com alguma inscrição como “Designed in Shenzhen. Assembled in somewhere  outside China".

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