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Lula x Bolsonaro: como a polarização política deforma a Wikipédia

Arte/UOL
Intervenções foram vistas nos arquivos das páginas dos dois políticos Imagem: Arte/UOL

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

2018-10-05T04:00:00

05/10/2018 04h00

Se você andou lendo ultimamente a Wikipédia, pode ter topado com os seguintes disparates: segundo o artigo de Manuela d'Ávilla, a vice na chapa de Fernando Haddad participou no esfaqueamento de Jair Bolsonaro e, na verdade, se chama Joseph Stalin; o texto sobre Fernando Henrique Cardoso informava que ele se chama Luiz Inácio Lula da Silva; a página sobre Jair Bolsonaro, de uma hora para outra, deixou de exibir a explicação sobre os planos dele para explodir a Adutora do Rio Guandu, pelo qual ele foi processado quando ainda estava na ativa, no fim dos anos 1980; também chamaram o candidato à presidência de "ladrão" e de "meu presidente em 2018".

Todas essas intervenções, mentirosas ou mal-intencionadas, foram vistas nos arquivos das páginas pela reportagem do UOL Tecnologia e refletem a polarização política que já contamina desde os assuntos mais falados no Twitter até as conversas no grupo da sua família no WhatsApp. E não deixaram de fora a maior enciclopédia do mundo, segundo administradores da versão brasileira da Wikipédia.

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A Wikipédia tem mais verbetes que a Enciclopédia Britannica. O que explica isso é ser colaborativa, ou seja, poder ser editada por qualquer um. E, se você acha que isso é meio caminho andado para ser um celeiro de erros, errou: a Wikipédia possui tantas incorreções quanto suas irmãs de papel. Isso ocorre porque uma rede de editores ronda os artigos diariamente pinçando equívocos e analisando se mudanças devem ser mantidas ou retiradas.

Eleições agitadas

Em todo ano de eleição, o maior trunfo da Wikipédia vira um tiro no pé, porque as páginas de candidatos são inundadas por alterações enviesadas.

Em toda época eleitoral, acaba aumentando a propagação de ações de partidos, como a retirada de críticas ou a inclusão de biografia montada

Érico Wouters, estudante de 21 anos e um dos administradores da Wikipédia

São alvos não apenas as páginas de presidenciáveis e outros candidatos, mas também a de movimentos políticos e históricos contestados ou defendidos por eles. Só que o ambiente de estremecimento político em que vive o Brasil está alimentando uma onda atípica de vandalismo nas informações. Esse é o nome dado à inclusão de informações falsas e ofensivas ou a simples remoção de trechos desabonadores em artigos da Wikipédia.

Esse movimento promove, por exemplo, a troca de Ditadura Militar (1964-1985) por termos como "Contrarrevolução Militar" e "regime", tortura por "práticas de obtenção de informação" e golpe por "revolução" em artigos históricos.

Uma coisa comum e que é resultado do que a gente vive agora é mudar em artigos de ditadura para "regime militar", escrever que a luta da esquerda era para implantar a ditadura do comunismo, que o [ex-presidente] Jango [Goulart] não sofreu um golpe e que os presidentes militares não eram ditadores por serem eleitos

Érico Wouters

'Questões mesquinhas'

Talvez você não se dê conta da importância da enciclopédia virtual, mas ela é uma das fontes de pesquisa mais usadas por estudantes e um dos primeiros pontos de contato de qualquer um com algum assunto - escolha um tópico, pesquise-o no Google e uma página da Wikipédia será um dos primeiros resultados exibidos.

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Em setembro, mês que antecede ao da eleição, os artigos mais acessados, por exemplo, foram o de personalidades diretamente envolvidas com o processo eleitoral. Veja abaixo:

  1. Jair Bolsonaro - 1.623.730
  2. Ciro Gomes - 834.564
  3. Independência do Brasil - 684.648
  4. Fernando Haddad - 520.978
  5. João Amoêdo - 483.683
  6. Fascismo - 441.610
  7. Mr. Catra - 423.012
  8. Brasil - 227.671
  9. Manuela d'Ávilla - 218.832
  10. Lista de presidentes do Brasil - 218.413
  11. Marina Silva - 217.882
  12. Cabo Daciolo - 207.914
  13. Luiz Inácio Lula da Silva - 199.674
  14. Museu Nacional - 188.585
  15. Henrique Meirelles - 184.149

Tem tanta gente nesse país que não tem acesso a livros e enciclopédias, e é muito triste ver pessoas tentando burlar um projeto desses, que, antes de tudo, é gratuito, por questões tão mesquinhas. É bastante irritante

Heitor Carvalho Jorge, jornalista de 26 anos e também administrador da Wikipédia

"As pessoas esquecem que a gente está trabalhando em uma enciclopédia", diz. Ainda que fale em trabalho, a atuação de qualquer pessoa na enciclopédia é voluntária. E não envolve pagamento algum da Wikimédia, a fundação responsável pela manutenção do serviço, como, por exemplo, introduzir novas ferramentas de edição.

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Jorge monitora os artigos de todos os presidenciáveis, para afastar ou reverter vandalismo. Ele conta que ataques são comuns quando alguma personalidade entra em evidência - quando virou tema da redação no Exame Nacional do Ensino Médio, a filósofa Simone de Beauvoir teve em seu texto a inclusão de que era pedófila e nazista. Essas manifestações costumam ser esporádicas, diz. No caso das páginas de conteúdo político, porém, o vandalismo tem perdurado e até se intensificou neste ano. "A gente percebe isso faz alguns meses, mas, desde a ascensão do Bolsonaro, a coisa ficou agressiva."

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O líder nas pesquisas de intenção de voto não é o único que motiva vândalos da Wikipédia. "Existe um culto à personalidade tanto com o Bolsonaro quanto com o [ex-presidente] Lula. [Militantes] apagam conteúdo de que não gostam ou mudam as palavras para excluir ou minimizar para tentar tornar a imagem do candidato mais favorável."

Editores favoráveis a Bolsonaro já apagaram toda a sessão de controvérsias do artigo do deputado federal, que inclui suas declarações polêmicas ou ofensivas, como a que ele associou refugiados à "escória do mundo". Também já aumentaram o número de projetos de lei aprovados pelo parlamentar - em 27 anos de Congresso, apenas dois foram aprovados, e apenas um virou lei. No texto dele, também trocaram a expressão "ditadura militar no Brasil" por "Revolução de 1964" e "tortura no Brasil" por "punição severa de bandidos".

Já os Partidários de Lula removeram de texto dele a imagem do Pixuleco, o boneco inflável que veste o ex-presidente de presidiário.

Horas de trabalho, ameaças de morte...

Conter esses excessos já altera a rotina dos administradores. Jorge conta que, se antes passava 4 horas editando os textos, agora gasta 6 horas. Além dos artigos sobre diferentes temas, a Wikipédia exibe ainda as discussões que embasaram as alterações em cada capítulo. É praxe que cada ponto controverso levantado nos textos seja respondido.

"Está sendo bastante complicado, porque os editores experientes sofrem mais porque têm de explicar as controvérsias, e as pessoas não entendem. Muita gente não entende que só pode adicionar informações na Wikipédia com referência confiável", diz.

Jorge conta que o artigo de Bolsonaro exigiu várias intervenções para que o texto ficasse mais imparcial. O texto, diz Wouters, é um dos mais críticos. "Ele é um cara controverso e, como a companha está adotando um tom moderado em relação ao passado, acaba havendo atrito porque há muitas descrições do que ele falou", diz. "Mas é um artigo bom, porque reflete tudo que ele já falou e fez."

Ainda assim, não agradou. "Sempre aparece alguém dizendo que os editores são esquerdista e que vamos morrer depois da eleição do Bolsonaro. Mas a gente não tem vínculo com nada", diz Jorge. "Eu já recebi várias ameaças de morte."

A estratégia do vandalismo

Para evitar ataques a páginas visadas, administradores blindam alguns artigos, para impedir que editores anônimos ou que não tenha um histórico consistente de edição façam alterações. Estão protegidos artigos críticos como os de Dilma Rousseff, ex-presidente e candidata ao Senado, e Jair Bolsonaro.

Quando isso ocorre, o vandalismo na Wikipédia migra para páginas com menor visibilidade, como aquelas sobre movimentos políticos em que personagens políticos estiveram envolvidos. "Em épocas eleitorais, é bastante comum tentarem reescrever a história nesses artigos menos visados. Isso é bem complicado de detectar", diz Wouters.

No texto "Luta armada de esquerda no Brasil", por exemplo, um usuário chamou a Ditadura militar de "Contra-revolução militar", ignorou que o movimento foi um golpe de estado e escreveu que "o Congresso Nacional elegeu uma série de presidentes militares (...) para a proteção da democracia". As alterações foram desfeitas.

Outra artimanha de militantes é criar contas apenas para alterar textos vedados a perfis anônimos. Usuários que recorrem a essa estratégia, assim como aqueles que inserem informações falsas em textos, podem ter o endereço de IP bloqueado.

Nazismo (não é) de esquerda

O trabalho de formiguinha é feito por 80 administradores. Eles são editores eleitos entre os quase 5 mil colaboradores da versão em português da Wikipédia que monitoram mais de 1 milhão de artigos. A título de comparação, a versão inglesa da enciclopédia tem 6 milhões de capítulos, mas conta com cerca de 1.700 mil de administradores e quase 100 editores.

Surgiu entre os anglófonos uma das ferramentas para tentar evitar que informações controversas já debatidas entre os editores sejam incluídas em artigos. Para evitar que a toda hora alguém incluísse a falsa consideração de que o Nazismo era uma corrente política de esquerda, eles criaram uma sessão de "perguntas e respostas" no fórum de discussão do artigo. A ideia foi levada para outras páginas, como a do Evolucionismo, que era infestada com trechos de religiosos que negavam a tese científica.

A partir daí, qualquer intervenção nesse sentido passou a ser sumariamente retirada. Sem discussão. A Wikipédia em português adotou a mesma estratégia para assuntos como Nazismo, Evolução e Aquecimento Global. Sinal dos tempos, o último capítulo a ganhar o tópico foi o da Ditadura Militar.

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