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Seu contato vale R$ 0,24: como funcionam as "máquinas de spam" no WhatsApp

Foto: AFP
Imagem: Foto: AFP

Helton Simões Gomes e Mário Padrão*

Do UOL, em São Paulo

2018-10-20T04:00:00

2018-10-21T10:25:50

20/10/2018 04h00Atualizada em 21/10/2018 10h25

Para mandar mensagens pelo WhatsApp, você recorre a um celular ou computador, escreve, aperta um botão e pronto, certo? Esse, porém, não é o único jeito de mexer no aplicativo mais usado no Brasil. Principalmente se você for uma empresa que queira distribuir campanhas publicitárias ou eleitorais por lá.

Existem agências de marketing que oferecem "máquinas de distribuição em massa", ou seja, robozinhos especializados em disparar milhares de mensagens pelo WhatsApp de uma vez só.

Se uma dessas mensagens já chegou ao seu WhatsApp, saiba que a companhia que pagou por dela desembolsou até R$ 0,24 para te importunar. Você pode achar besteira pagar para usar um app que é gratuito, mas pense na escala: as agências por trás desse negócio vendem pacotes com até 200 mil envios.

Para dar conta sozinho da demanda, você teria que disparar quase 139 mensagens por minuto durante todas as 24 horas de um dia.

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Só que, segundo informou a "Folha de S.Paulo", os robôs dessas companhias foram usadas por empresas para mandar campanha política contra o PT -- o candidato do partido, Fernando Haddad, disputa a Presidência da República com Jair Bolsonaro (PSL). A lei eleitoral proíbe que empresas doem a diretórios políticos ou contribuam com ações de campanha, o que configura abuso de poder econômico. Recorrer a esses serviços também esbarra em outras regras da Justiça Eleitoral (veja abaixo).

Robôs que simulam

Segundo o jornal, as agências responsáveis pelos envios foram a Quickmobile, a Yacows, a Croc services e a SMS Market. Como a política do WhatsApp veta o envio de mensagens em massa, essas agências foram afastadas do app e receberam nesta sexta-feira (19) notificações para que interrompessem o serviço.

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Entenda

Ainda assim, as plataformas estiveram disponíveis a candidatos durante a maior parte da eleição -- elas atuam também para empresas de marketing, firmas de recuperação de crédito, seguradoras e call center.

O que torna essas empresas eficientes é que elas criam robôs que simulam uma ação no aplicativo, como se mandassem mensagens individuais. Elas não são encaminhadas em listas de transmissão

Rodrigo Jorge, especialista em segurança da informação

Como funciona

Aos interessados, o primeiro passo é fazer um cadastro em uma plataforma online. No sistema da Yacows, por exemplo, é preciso comprar créditos, cada um a R$ 0,12, pagos com boleto ou por transferência bancária.

A cobrança varia: gasta-se um crédito para enviar mensagens de texto, de até 1.000 caracteres, e dois créditos quando são incluídos fotos, vídeos, áudios e outros arquivos.

Só que o preço também varia conforme o pacote escolhido. No mais básico, de 5.000 créditos, por exemplo, enviar documentos de mídia custa o dobro do custo para mandar texto. Em um dos mais premium, que oferece 200 mil créditos, não há diferenciação.

Como lidam com grandes quantidades de interações no WhatsApp, essas agências possuem técnicas para escapar do filtro anti-spam do app, como evitar usar um mesmo número muitas vezes para não chamar atenção. "Como os disparos são individuais, fica mais difícil de ser rastreado, pois o sistema do WhatsApp não vai entender que está sendo enviado em massa", diz Jorge.

Elas sempre respeitam os limites para não burlar as ferramentas de proteção do WhatsApp e não serem enquadrados como spam. Elas conhecem esses parâmetros, e tem centenas de contas de WhatsApp diferentes para fazer essa distribuição

Para configurar a mensagem, um cliente só precisa acessar a plataforma online, escrever o texto e incluir os arquivos. É por meio dela também que as empresas contratantes devem informar quais contas no WhatsApp irão receber o envio. Para isso, devem inserir um banco de contatos.

Algumas empresas oferecem suas próprias bases de dados. Usá-las é controverso, segundo a lei eleitoral, já que, em tese, apenas eleitores que toparam receber propaganda podem ser alvo desse conteúdo. Yacows e Croc Services negaram fazer isso.

No entanto, no site do serviço Bulk, da Yacows, está escrito: "Temos contrato com uma empresa que está entre as líderes desse segmento de comercialização de base de dados (...). Uma campanha eficaz no Whatsapp envolve segmentação de base de dados e também o 'freshness' da base, isso quer dizer que os dados tem que estar constantemente atualizados."

A empresa oferece ainda segmentações por idade, sexo, estado, cidade, renda, escolaridade, classe social, cargo, CEP e geolocalização.

Em 2016, escreveu no site: "A Bulk Services já está em sua segunda eleição realizando campanhas políticas mobile, sendo mais de 25 milhões de envios de WhatsApp em massa em mais de 1.500 campanhas, nossa plataforma exclusiva disponibiliza de uma lista telefônica com mais de 100 milhões telefones com WhatsApp ativo totalmente por geolocalização."

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Entenda

Os robôs usados pelas agências ainda conseguem saber se um número da lista de contatos informada pelo cliente possui ou não conta no WhatsApp. A Yacows, por exemplo, só cobra pelas mensagens que, de fato, chegaram ao celular de destino -- e promete enviar de 40 a 75 mil por dia.

Para comprovar, elabora um relatório sobre os disparos feitos que mostra quantos deles foram recebidos de fato e quantos foram lidos, ou seja, tiveram o tique azul.

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Os números de celular usados são aleatórios, mas, de acordo com a Yacows, possuem sempre DDD local.

"Trabalhamos 100% com chips nacionais, garantindo uma rejeição menor que os números estrangeiros utilizados por outros tipos de envios, bem como evitando ao máximo a aparência de spam da mensagem", diz o site.

A agência informa que não há como os clientes saberem qual telefone vai ser usado para enviar a mensagem. Por isso, a mensagem costuma vir acompanhada de um telefone de contato. A empresa diz usar números de celular de outros países apenas quando os disparos miram destinatários de fora do Brasil. Há quem duvide disso.

Lindolfo Antonio Alves Neto, diretor da Yacows, disse ao UOL que a agência não tem acesso ao conteúdo da mensagem.

Já Pedro Freitas, sócio da Croc Services, afirmou ao UOL Tecnologia que sua equipe averigua todas os disparos feitos por sua plataforma. A "Folha" relatou que as mensagens disparadas por empresas apoiadoras de Bolsonaro atacavam o PT.

"No caso de campanha eleitoral, de malfeitores ou marketing, a mensagem sempre vai chamar para assuntos sensacionalistas. O usuário não tem checado a fonte. Só lê a manchete e passa adiante porque achou interessante", comenta Jorge.

Crimes eleitorais

Segundo especialistas consultados pelo UOL Tecnologia, o uso dessas plataformas pode configurar, pelo menos, três crimes eleitorais:

  1. Doação de empresas, o que caracteriza abuso de poder econômico;
  2. Financiamento de campanha não contabilizado;
  3. Impulsionar mensagens automaticamente com serviço não disponibilizado pela plataforma web

Se ficar comprovado que a plataforma foi usada para espalhar disseminar boatos para prejudicar adversários, configura mais um crime.

Embora Bolsonaro diga que não pode controlar os que empresários simpáticos a ele fazem, o simples conhecimento do candidato sobre a máquina eleitoral de campanha no WhatsApp, com possível uso de notícias falsas para prejudicar os concorrentes na disputa eleitoral, já pode gerar ações contra ele, inclusive cassação da chapa. Essa é a opinião de juristas ouvidos pelo UOL Tecnologia sobre o caso. (Colaborou Fabiana Uchinaka)

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