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Brasileiros usam tecnologia para 'salvar o mundo' e ganham grana do Google

Nereu Jr/Google/Divulgação
Google faz 'feira de ciência' de escola para mostrar projetos tecnológicos em seu centro de engenharia de Belo Horizonte (MG) Imagem: Nereu Jr/Google/Divulgação

Helton Simões Gomes*

Do UOL, de Belo Horizonte

23/10/2018 19h06

A sala repleta de nerds ao lado de cavaletes com painéis repletos de diagramas e fórmulas matemáticas tentando explicar complexos esquemas tecnológicos mais parece uma "feira de ciência" de escola. Mas, longe disso, é a exposição dos projetos que receberam R$ 2 milhões do Google para solucionar problemas como medir o efeito do aquecimento global no derretimento de geleiras, dividir terrenos para reforma agrária e rastrear as diversas modificações de uma notícia falsa.

"O que estamos buscando são projetos para os cidadãos comuns, porque nós, acadêmicos, estamos acostumados a ficar presos dentro dos muros da academia", diz Berthier Ribeiro-Neto, cientista-chefe do centro de engenharia do Google na América Latina, que fica em Belo Horizonte (MG).

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O próprio Berthier é fruto da academia, de onde saiu para virar funcionário do Google quando a gigante dos Estados Unidos comprou sua startup, fundada com outros professores da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele conta que nada disso seria possível se não tivesse recebido uma mãozinha importante em sua carreira. "Meu doutorado foi totalmente financiado pelo contribuinte brasileiro." Foram 6 anos estudando na Califórnia.

Para o cientista-chefe do Google, não dá para empresas cruzarem os braços e esperar que a mágica do surgimento de novos talentos aconteça sozinha.

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Berthier Ribeiro-Neto, cientista-chefe do Google Imagem: Nereu Jr/Google/Divulgação

"Não estamos apoiando esses projetos com o objetivo de ter acesso às tecnologias. O objetivo é ajudar no desenvolvimento de um ecossistema de tecnologia da informação", diz. "O Google só mantém acesso a uma rede distribuída de engenharia para ter acesso ao talento local. E o que é importante para isso? Boas universidades, bons alunos e um ecossistema de TI. Para ele florescer, você precisa de pesquisa movida de dentro da universidade para fora", explica.

Em sua sexta edição, o programa de distribuição de bolsas de pesquisa do Google para a América Latina selecionou 26 projetos de desenvolvimento de tecnologia da região -- 17 brasileiros. Eles foram escolhidos dentre mais de 300 pretendentes.

Aquecimento global

Um desses projetos é o de Jorge Arigony Neto e Guilherme Tomaschewski Netto, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Eles monitoram geleiras para averiguar efeitos do aquecimento global sobre seu derretimento.

Arigony Neto conta que o método tradicional, usado atualmente, exige que a equipe de pesquisadores vá a cada seis meses à Patagônia, no Chile. O que fazem é fincar uma estaca no gelo e, tempos depois, medir quanto dela ficou exposto.

Combinam esse dado com as medições das condições meteorológicas nesse período que são mensuradas por um sensor que custa US$ 20 mil. Com o dinheiro do Google, planejam criar uma rede de medidores já combinados com as estacas que custam mais barato, cerca de US$ 500, e enviam os dados sem que os cientistas tenham que encarar o frio: as informações são mandadas por satélite.

"Nós sabemos que, em em seis meses, a geleira derreteu seis metros, mas não sabemos se nesses caracterizar o que mais contribuiu, do ponto de vista atmosférico, para esse derretimento seis meses", conta. Pode ter sido, a radiação solar, a temperatura ou ainda a entrada de frentes frias.

Reforma agrária

Os problemas do campo e da agropecuária brasileira resultaram em três propostas vencedoras. Um deles é o de Alex Zoch Gliesch, também da UFRGS. A ideia é usar inteligência artificial para dividir lotes provenientes da reforma agrária de forma que cada gleba tenha as mesmas condições de solo, água e localização. 

"Atualmente, o Incra faz o que é chamado de quadrado burro: lotes retangulares com a mesma área. Mas existem atributos importantes para serem levados em conta, como qualidade do solo, declividade e acesso a recurso hídrico e a estradas."

Armadilhas inteligentes

Outro desses projetos é o de Paulo Roberto Ferreira Júnior e de William Dalmorra de Souza, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A ideia é substituir o uso de agrotóxico em plantações com o controle biológico de pragas, ou seja, liberar insetos inofensivos à lavoura para combater aqueles que detonam culturas agrícolas.

O que os pesquisadores buscam é saber quando liberar seus insetos. Antes disso, precisam saber se há alguma ameaça ou não. Para isso, criaram "armadilhas inteligentes" para pragas: elas capturam os bichinhos, tiram fotos deles, processam os dados e indicam para o fazendeiro se é o momento de atuar.

Notícias falsas

Outra área bastante explorada pelos pesquisadores são as notícias falsas. Um dos projetos nessa linha é o de Anderson Rocha e Antônio Carlos Theóphilo Costa Júnior, da Unicamp. Eles estão desenvolvendo uma forma de identificar a autoria de uma postagem na internet usando apenas o estilo do texto. O método é pensado para auxiliar em investigações policiais, mas também pode ser aplicado para averiguar de onde partiu uma fake news ou como ela tomou corpo ao longo do tempo. 

"Quando alguém se apodera de uma conta de rede social e faz uma ameaça a alguma outra pessoa, o dono daquela conta pode sempre alegar que não foi ele. Como verifica isso? Você tem que descobrir o padrão de comunicação daquela pessoa para poder casar com os posts que ela diz que não são dela", explica Rocha.

Para conseguir fazer isso, diz, o sistema "analisa estilo de cada pessoa: letra maiúscula ou minúscula, substantivo, artigos e verbos usados como frequência, a riqueza ou a pobreza do vocabulário, o uso de onomatopeias ou emojis".

"A segunda aplicação é no contexto de fake news. Se você consegue identificar possíveis autores, consegue identificar esse histórico de como determinada postagem ao longo do tempo."

*O jornalista viajou a convite do Google

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