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Censura, fake news: o que será discutido em sabatina de CEO do Google

Jeff Chiu/AP
Sundar Pichai, executivo-chefe do Google, será questionado por congressistas americanos Imagem: Jeff Chiu/AP

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

2018-12-11T04:00:00

11/12/2018 04h00

Em abril, Mark Zuckerberg foi submetido a uma sabatina por membros do Congresso dos Estados Unidos. Nesta terça-feira (11), será a vez de Sundar Pichai, executivo-chefe do Google, prestar esclarecimentos aos políticos em Washington. A situação é de pressão, ainda que não tanta quanto a que o chefão do Facebook sofria quando deu as caras para explicar como funcionava sua empresa.

Pichai preferiu se ausentar, em setembro de um comitê do Senado americano que contou com figurões do Vale do Silício - Jack Dorsey, do Twitter, e Sheryl Sandberg, do Facebook -, uma decisão que pegou mal. Desde então, a imagem pública do gigante das buscas ganhou novas feridas, pois um projeto secreto veio a público: um mecanismo de pesquisa exclusivo para China, com direito a bloqueio de palavras-chave como "direitos humanos" e "prêmio Nobel".

Este deve ser um dos tópicos da audiência, que está na agenda do Congresso com o nome "Transparência e responsabilidade: examinando o Google e suas práticas de coleta, uso e filtro de dados". Analistas americanos enxergam o evento como crítico na carreira de Pichai, que está no Google desde 2004, mas nunca teve que lidar com políticos.

Isso muda a partir de hoje, no evento que terá início às 13h (de Brasília).

O que será discutido?

O tema mais quente é o chamado projeto Dragonfly, uma versão adaptada do buscador do Google para a China - e sua internet altamente regulada pelo Estado. Escondido até agosto desse ano, quando foi descoberto pelo "The Intercept", o projeto está em curso desde 2017 e foi alvo de críticas de organizações de defesa dos direitos humanos e políticos de ambos espectros partidários dos Estados Unidos.

Internamente, a ideia foi recebida com resistência, tanto é que cerca de 1,4 mil funcionários assinaram uma carta com questionamentos éticos sobre o projeto. Há também quem defenda a versão censurada do buscador, como noticiou o "Tech Crunch" há duas semanas.

O Google também teve seu nome relacionado a outras notícias negativas neste ano, como a multa-recorde de 4,34 bilhões de euros aplicada pela Comissão Europeia pelo fato do Android ser usado para consolidar a posição de domínio da empresa no ramo das buscas online. Questões nessa linha, de competitividade de mercado, também devem ser feitas a Pichai.

O executivo-chefe será certamente pressionado sobre como a empresa usa e protege dados. O assunto foi levantado a Mark Zuckerberg em abril e foi um dos temas tecnológicos de 2018, especialmente após o escândalo de Cambridge Analytica. Os vazamentos de dados do Google+ servem como garantia de que isso será debatido.

Assim como Zuckerberg, Pichai deverá ouvir questionamentos sobre algoritmos supostamente tendenciosos contra parte dos políticos e suas bases eleitorais. Isso porque congressistas, de maioria republicana, acreditam que as maiores plataformas digitais têm ferramentas que minam conteúdos valorizados por conservadores. O presidente Donald Trump é um dos que defendem essa tese.

"Resultados de buscas do Google para 'notícias Trump' mostram apenas a visão/reportagem da imprensa fake news. Em outras palavras, eles têm a busca manipulada para mim e outros, para que a maioria das notícias sejam ruins", escreveu o político em seu Twitter.

Trump cita "fake news", que é outro tema que deve ser mencionado na discussão de terça-feira com Pichai. Tanto a busca do Google quanto o YouTube tiveram problemas com a desinformação em tempos recentes, embora não haja registro de casos como os motivados pelo WhatsApp na Índia.

Além dos assuntos sérios, se a sabatina de Mark Zuckerberg serve de referência, deve-se esperar um enorme desconhecimento por parte dos políticos de como funciona o Google, cujas engrenagens são tão (ou mais) obscuras que as da maior rede social do mundo.