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País da diversidade: por que o Brasil é um prato cheio para startups

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Riqueza étnica do Brasil, somada a problemas de um país em desenvolvimento, são fatores que tornam o país bom para startups Imagem: Getty Images

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

14/12/2018 04h00

Trânsito. Ônibus lotado. Filas em hospitais. Burocracia sem fim. Pouca variedade no que pedir de comida para o jantar de sábado. Soou familiar para você? Pois são questões que milhões de brasileiros encaram no dia a dia. As origens desses defeitos podem ser políticas públicas e serviços concentrados na mão de poucas empresas, públicas ou privadas. Em outros casos, é apenas uma demanda que ainda não tinha sido preenchida anteriormente.

Essas deficiências, ou serviços inexistentes, são o principal motivo para o Brasil ser uma terra ideal para o surgimento de startups, que têm se multiplicado e ganhado destaque no país nos últimos anos. O potencial brasileiro nesse ramo é reconhecido internacionalmente, tanto que no evento Start 101, criado para incentivar o empreendedorismo nessas iniciativas digitais, palestrantes estrangeiros destacaram os casos recentes de sucesso no país, como 99, Nubank e DogHero.

Ryan Nadeau, diretor de projetos especiais da Galvanize, uma startup americana de educação, valorizou o fato de o "Brasil estar à frente do resto do mundo em termos de diversidade". Para ele, esta qualidade deveria ser melhor capitalizada, mas empresas como o iFood já o fazem e se dão bem por causa disso.

"O Brasil é um país multicultural que tem diversas comunidades de imigrantes. Por exemplo, aqui existem as maiores comunidades japonesas e árabes fora de seus países. Vemos a diversidade como um ponto positivo para nossa atuação", afirmou Carlos Moyses, executivo-chefe da empresa. Exemplo disso é que o aplicativo de entregas pode oferecer 30 tipos diferentes de culinária a seus clientes.

O último censo do IBGE apontou que a população do país chegou a 208,4 milhões, outro fator bem favorável. Bruno Raposo, gerente da espanhola Glovo no Brasil, aponta o número enorme de potenciais consumidores que falam a mesma língua e o fato de o Brasil ter a mesma estrutura legal e financeira para todo o país são atrativos excelentes.

"Isso permite que startups ganhem escala com uma mesma plataforma e um mesmo modelo de operação", declarou.

Aproveitar esses milhões de brasileiros como consumidores, no entanto, depende da internet. Mas, como explica André Penha, cofundador e chefe de tecnologia do QuintoAndar, o Brasil é muito conectado, com uma internet de boa penetração.

Mercados gigantes normalmente significam potencial de crescimento alto. E alto crescimento é o que fundadores e investidores querem em suas startups

André Penha

Problemas como oportunidades

Cindy Blanco é uma das cofundadoras da Startup GDL, uma organização sem fins lucrativos que fomenta startups no México. No Start 101, ela traçou um paralelo entre o contexto mexicano e brasileiro: países em desenvolvimento, com dificuldades estruturais, muitas delas originárias de problemas governamentais.

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Ela citou especificamente o transporte público como um exemplo de serviço ruim, com um monopólio estatal e questionou: que cidadão tem lealdade a um sistema que atrapalha sua rotina? Quando surge uma alternativa, como Uber ou 99, há uma transição da população. Isso invariavelmente gera um atrito entre os modelos, como mostra a notícia de que empresas de ônibus passaram a notificar cidades contra os serviços de corrida compartilhada.

O mesmo se aplica ao mercado da saúde, que tem gargalos de atendimento especialmente em hospitais públicos. "150 milhões de brasileiros não têm plano de saúde. As pessoas esperam na média 3 meses por uma consulta. 69% dos nossos dados médicos ainda estão em papel e custos com planos de saúde sobem 20% ao ano. Isso é insustentável", disse Matheus Silva, executivo-chefe da Cuidas, startup que conecta empresas com médicos de família para atendimentos no local de trabalho.

Outra alternativa é o oferecimento de consultas remotas, para casos que não necessitariam a ida a um pronto atendimento. "A telemedicina proporciona dinamismo ao atendimento médico, resolve os problemas em filas de hospitais, clínicas e principalmente no SUS. É um apoio indireto ao governo", explicou Marcelo Callegari, executivo-chefe da startup Teldoctor.

Yellow/Divulgação
Em quatro meses, Yellow atingiu marca de 1 milhão de viagens e expandiu serviços para o Rio de Janeiro Imagem: Yellow/Divulgação

Enquanto a telemedicina é uma nova forma de prestar um serviço de saúde, aplicativos fornecem novas formas de explorar cidades. Se Uber e 99 serviram de alternativa aos táxis, as startups Yellow e Grin introduziram jeitos de fugir do trânsito com bicicletas e patinetes elétricas.

Celebrando a marca de 1 milhão de corridas alcançadas quatro meses depois do lançamento da Yellow, Ariel Lambrecht, cofundador da empresa, falou como as metrópoles brasileiras são perfeitas para o surgimento de startups de mobilidade.

"Startups existem para resolver problemas que afetam seriamente a vida de muitas pessoas em muitos lugares, ao mesmo tempo", afirmou. "Isso ocorre com muito maior força nos grandes centros (urbanos) dos países em desenvolvimento, pois nos países desenvolvidos muitos desses problemas estão mais bem equacionados. No caso da mobilidade, por exemplo, muitas cidades da Europa têm boa oferta de transporte público e os EUA têm ótima infraestrutura."

Combinando a densidade populacional das metrópoles do Brasil com a penetração dos smartphones, Lambrecht classificou as grandes cidades do país como um "habitat perfeito para as startups". Paula Nader, cofundadora da Grin, exaltou o tamanho do mercado brasileiro e as oportunidades que isso oferece.

"A Grin está apoiando a mudança de comportamento que as pessoas querem fazer: cada vez mais gente quer se sentir livre para se deslocar pelas cidades da maneira mais conveniente e rápida possível", afirmou.

No caso do aluguel de residências, as dificuldades passadas pelos próprios fundadores do QuintoAndar motivaram a criação de um serviço novo. "O modelo tradicional de aluguel residencial é muito burocrático no Brasil, o que é ruim tanto para o proprietário quanto para o inquilino. Sentimos isso na pele quando tentamos alugar nossos próprios apartamentos", lembrou André Penha.

Para solucionar os problemas que ele mesmo viveu, André diz que a empresa se concentra em tecnologia, ciência de dados e atenção à experiência dos usuários. Desta forma, podem oferecer um processo mais rápido e fácil do que a burocracia tradicional, sem perder nada em termos de segurança.

Ainda pode melhorar

Na opinião de Marcelo Callegari, embora o país tenha pouco investimento do governo e da iniciativa privada no ramo da tecnologia, as startups têm mais aceitação por aqui do que em países onde não falta dinheiro para iniciativas de novas empresas. Bruno Raposo avalia que, apesar de sérios problemas sociais, o Brasil tem vivido, desde os anos 90, uma previsibilidade que incentiva a confiança (e os recursos) de investidores.

Carlos Moyses acredita que brasileiros estão investindo na qualificação e profissionalização de áreas que estão crescendo, como as relacionadas à inteligência artificial.

Com a "concentração de pessoas talentosas, com perfil e energia, atraídas pelo desafio de construir uma empresa do zero, sem as estruturas e o conforto das grandes corporações", como descreveu Paula Nader, o Brasil tem a capacidade de dar à luz novas iniciativas inovadoras, como tantas outras que surgiram em tempos recentes.