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Como China virou pedra no sapato da Apple e a fez deixar de valer US$ 1 tri

Consumidores testam o iPhone em uma loja da Apple em Pequim, na China - Gilles Sabrie/The New York Times
Consumidores testam o iPhone em uma loja da Apple em Pequim, na China Imagem: Gilles Sabrie/The New York Times

Helton Simões Gomes e Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

04/01/2019 15h13

Bastaram quatro meses para a Apple cair do posto de empresa mais valiosa de Wall Street, quando tinha valor de mercado superior a US$ 1 trilhão, à incômoda posição de rever o faturamento bilionário estimado para o último trimestre de 2018.

A pedra no caminho, apontada pelo executivo-chefe da Apple, Tim Cook, foi a desaceleração da economia da China. Mas a justificativa esconde outros percalços relacionados ao maior mercado de celulares do mundo, como a guerra comercial travada entre o país e os Estados Unidos e a ascensão de novos concorrentes do iPhone, como as fabricantes chinesas Vivo, Oppo e, especialmente, a Huawei.

Os novos desafios enfrentados pela Apple foram descortinados por Cook para explicar a revisão da estimativa da receita do quarto trimestre. Antes, a expectativa de faturamento girava entre US$ 89 bilhões e US$ 93 bilhões, mas passou a ser de US$ 84 bilhões.

Não previmos a magnitude da desaceleração econômica, particularmente na Grande China

E completou:

A economia da China começou a desacelerar na segunda metade de 2018. O governo informou que o crescimento do PIB no terceiro trimestre foi o segundo menor nos últimos 25 anos

O mercado reagiu mal e, a Apple terminou o pregão desta quinta-feira (3) com perda de US$ 72,4 bilhões em seu valor de mercado - o montante é superior ao valor de mercado do Bradesco (US$ 68,6 bilhões), segundo maior banco privado do Brasil. Ao fim das negociações na Bolsa, a empresa era avaliada em US$ 674,7 bilhões (o valor é calculado ao multiplicar o preço de cada ação pelo total de papéis disponíveis no mercado).

Só que isso foi apenas um reflexo da admissão por parte da Apple de que as coisas não vão tão bem quanto o esperado. Desde que atingiu o valor de US$ 1,12 trilhão e se tornou a primeira empresa da Bolsa norte-americana a ultrapassar a marca trilhardária, a Apple já viu US$ 446,1 bilhões desse valor derreter.

Analistas e o próprio Tim Cook ajudam a entender como isso aconteceu.

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China x EUA

Desde o começo do ano passado, os governos dos Estados Unidos e da China trocam farpas em uma guerra comercial. Primeiro os norte-americanos sobretaxaram a importação de ferro e alumínio, depois miraram produtos trazidos da China. Nesse meio tempo, a potência asiática elaborou uma lista de equipamentos feitos nos EUA que teriam de pagar tributos alfandegários extras.

Em meio a tudo isso, a Casa Branca acusou as gigantes chinesas das telecomunicações Huawei e ZTE de infringir o embargo imposto ao Irã --elas teriam incluído em equipamentos vendidos ao país do Oriente Médio tecnologia feita nos EUA. Além disso, órgãos federais passaram a boicotar o uso de conexão da Huawei por desconfiarem de que ela pudesse ser instrumento de ciberespionagem do governo chinês.

Nós acreditamos que o ambiente econômico na China foi impactado pela crescente tensão com os Estados Unidos

Tim Cook

O clima de conflito comercial não é só ruim para a China. Pode acabar prejudicando a Apple, que já vem sendo tratada pela mídia chinesa como candidata em potencial a ser alvo das retaliações do governo chinês. Além dela, a fabricante americana de processadores Qualcomm corre risco de ser prejudicada. Em 2018, a empresa tentou adquirir a holandesa NXP Semiconductors, mas desistiu depois de não ter conseguido aprovação do acordo com as autoridades reguladoras da China.

Logotipo da Apple da loja de Shanghai - Aly Song/Reuters - Aly Song/Reuters
Logotipo da Apple da loja de Shanghai
Imagem: Aly Song/Reuters

iPhone derrapando

Fora os efeitos do conflito EUA x China, a Apple também está sob ataque. Seu principal produto, o iPhone, tem perdido espaço para os modelos de outras empresas. As vendas aquém do esperado dos novos modelos iPhone XR, iPhone XS e iPhone XS Max foram o principal motivo para a empresa reduzir a estimativa de receita.

A receita menor do que a antecipada para o iPhone, principalmente na Grande China, responde por todo o déficit de receita em relação à nossa orientação e por muito mais do que todo o declínio de receita de um ano para outro

Tim Cook

Segundo o executivo, os consumidores têm evitado adquirir novos aparelhos porque o preço deles está salgado. Isso, por sua vez, se deve à queda dos subsídios dados pelas operadoras de telefonia e à valorização do dólar sobre outras moedas. E também porque muita gente deu sobrevida a seus iPhones antigos ao aproveitar o desconto concedido pela Apple para troca da bateria.

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Uma China no meio do caminho

Especialistas consideram que a Apple está enfrentando outra adversidade, ignorada por Cook.

Os iPhones estão enfrentando um mercado saturado de smartphones de alto padrão, com a desaceleração do crescimento e o aumento da concorrência na China

Anshul Gupta, diretor de pesquisa da Gartner, em dezembro, quando a empresa divulgou seus últimos números de vendas de smartphones

Para efeito de comparação, o Huawei Mate 20, à venda desde novembro de 2018, traz configurações muito similares às do iPhone XR, que teve suas vendas iniciadas um mês antes. Em alguns pontos, supera o modelo da Apple. A questão é que o XR custa na China 6,5 mil yuans (R$ 3.510), enquanto o da Huawei é bem mais barato: sai por 4 mil yuans (R$ 2.160), quase dois terços do valor do rival.

O Mate 20 vem com tela de 6,53 polegadas, e a do iPhone XR, 6,1 polegadas. O modelo chinês tem um entalhe menor, em gota, enquanto o da Apple é retangular. A resolução do Mate 20 é melhor também, de 2.244 x 1.080 pixels, contra os 1.792 x 828 pixels do XR.

Outras vantagens técnicas do celular da Huawei são a câmera tripla de 12 MP + 16 MP (grande angular) + 8 MP (telefoto); a câmera frontal de 24 MP; e a bateria de 4.000 mAh. No iPhone XR, temos uma câmera traseira simples de 12 MP; uma frontal de 7 MP; e bateria de 2.942 mAh. No processamento e no armazenamento, há empates técnicos: a velocidade é de até 2,6 GHz no Mate 20, e de 2,5 GHz no XR; e há memória interna a partir de 64 GB nos dois modelos.

Enquanto Tim Cook culpou a economia da China em desaceleração e a tensão comercial, nós mantemos nossa opinião de que o preço médio de venda do iPhone é o maior problema, dadas as especificações e a crescente competição na China e na Europa

Nicolas Baratte e Cherry Ma, analistas da CLSA consultoria de Hong Kong.

O Mate 20 não é o único concorrente de peso da Apple no mercado chinês. Dando uma olhada nas opções da Oppo temos o R15x por 2.500 yuans (R$ 1.350), e na Xiaomi há o Mi 8, por 2.300 yuans (R$ 1.240). Ambos trazem telas Amoled, com cores mais vivas que a LCD do iPhone XR, e o R15x ainda vem com leitor de digitais por baixo da tela.

A sul-coreana Samsung ainda mantém a liderança mundial em smartphones, e a Apple, um decente terceiro lugar. Isso porque as fabricantes chinesas de smartphones tiveram um ótimo 2018: juntas, Huawei, Oppo, Xiaomi e Vivo e outras, se tornaram, pela primeira vez na história, a maior força no mercado global de celulares, segundo a consultoria Canalys; a Huawei sozinha já é a segunda. Portanto, essa guerra comercial tem tudo para continuar quente em 2019.