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Gigantes em guerra: por que Apple baniu apps internos de Google e Facebook

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Apple puniu Facebook e Google por violações a regras de desenvolvedores Imagem: Getty Images

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

2019-02-02T04:00:00

02/02/2019 04h00

A Apple se envolveu em uma espécie de "guerra" nesta semana contra Facebook e Google. A companhia de Tim Cook chegou a banir aplicativos internos das duas gigantes rivais do seu sistema operacional, o iOS, em atitude que abalou as relações entre as empresas. Mas por que a maçã resolveu ser "dura" contra duas das maiores companhias do mundo?

No meio da briga, estão uma suposta tentativa da Apple de proteger a privacidade de usuários dos seus produtos - algo que a companhia vez ou outra promove como um benefício em relação ao Android, da rival Google - e abusos cometidos pelas duas companhias punidas.

Tudo começou com uma reportagem do site TechCrunch na última segunda (28), que apontou que o Facebook pagava usuários, incluindo adolescentes, para que usassem um aplicativo chamado "Research" ("Pesquisa") e que acessava todos os dados dos usuários nos celulares, abusando de seus direitos como desenvolvedor dentro da App Store.

Dias depois, outra reportagem revelou que o Google estava fazendo basicamente a mesma coisa com um aplicativo chamado "Screenwise": dados sendo colhidos de usuários do sistema iOS.

O que Google e Facebook fizeram de errado?

Tudo é muito simples. Para desenvolver aplicativos para plataformas da Apple, as empresas e as pessoas que produzem apps devem obedecer regras. Dentro da App Store existem diferentes certificados para desenvolvedores, que dão autorização em variados níveis para que eles construam aplicativos no sistema.

Na App Store, ao contrário da Play Store do Google, todo aplicativo é checado pela empresa para ver se é seguro aos usuários - o que torna o sistema operacional iOS menos suscetível (mas não imune) a vírus e outras anomalias mais comuns no Android.

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Entenda

Algumas empresas, entretanto, possuem permissões "especiais", que criam exceções à regra geral de desenvolvedores da Apple. Gigantes da tecnologia, Facebook e Google tinham essas permissões, o que permitia que as empresas criassem apps unicamente, por exemplo, para os seus funcionários - como menus de restaurantes das sedes da empresa, apps de transporte para funcionários e versões de testes internas de seus aplicativos grandes.

Uma regra, no entanto, é que a permissão especial não deve ser estendida a "usuários normais". E foi aí que tanto Facebook quanto Google deixaram a Apple "pistola".

O caso do Facebook é especialmente emblemático. O app de pesquisa, que pagava às cobaias US$ 20 (cerca de R$ 80) por mês, era uma nova versão de um aplicativo que já havia sido banido da App Store pela Apple considerar que ele coletava muitos dados. Para instalar o app, o usuário deveria baixá-lo manualmente fora da loja, usar uma espécie de VPN para que os dados fossem enviados diretamente para os desenvolvedores e seguir vários passos que culminavam até em dar confiança aos níveis mais profundos do celular.

Como consequência, o Facebook tinha acesso até a dados criptografados como iMessage e emails - exceto o de aplicativos com certificados próprios, que poderiam barrar a ação. É difícil, contudo, saber quais dados o Facebook colheu, mas na prática ele tinha acesso a quase tudo: conversas em redes sociais, fotos e vídeos, emails, pesquisas na internet, localizações de usuários...

O caso do Google é um pouco diferente, apesar da companhia também ferir as regras da Apple ao abrir um app que supostamente seria interno para usuários em geral. O "Screenwise" coletava dados e enviava para a gigante de tecnologia para fins de pesquisa, mas não podia acessar informações criptografadas como mensagens. Ambas as companhias podiam coletar até dados de pessoas que interagiam com as "cobaias" no celular.

No fim das contas, Facebook e Google se aproveitaram de um programa destinado para testes internos de aplicativos para conduzir uma vasta pesquisa de mercado que colhia uma quantidade considerável de dados. Por meio de pesquisas como essa, as empresas podem checar que apps começam a virar tendência - como provavelmente o Facebook notou com o WhatsApp e Snapchat.

Apple mostra força na briga

Ao descobrir a história, a Apple não se acuou e mostrou força na briga. A companhia bateu o pé e removeu a permissão especial do Facebook e, depois, do Google. Com isso, parte dos 35 mil funcionários do Facebook e 94 mil do Google que usavam iPhones não puderam mais ter acesso a aplicativos internos.

Além disso, foram banidas também versões de teste de aplicativos das duas empresas. Na prática, todas os desenvolvimentos baseados nas permissões "especiais" das duas companhias foram banidos, no que a Apple disse ter feito para "proteger os usuários e seus dados". O caso, contudo, não chegou a afetar aplicativos disponíveis para os usuários finais.

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Relembre os escândalos

A mensagem da Apple para as duas empresas durou poucos dias - os aplicativos do Facebook e Google já foram restaurados após a punição. Mesmo assim, o caso foi visto como um forte recado da empresa para as duas gigantes da tecnologia, suficiente para causar transtornos ao menos por um dia internamente.

Imagine como as gigantes foram afetadas com apps essenciais ao trabalho tirados do ar. Segundo a imprensa norte-americana apontou, o Facebook, por exemplo, terá que reconstruir "algumas dezenas" de aplicativos internos, em um processo que pode levar semanas.

Em um memorando interno obtido pelo Business Insider, o executivo do Facebook Pedro Canahuati escreveu que "o relacionamento com a Apple é muito importante, que muitos funcionários confiam no iOS e que não iriam colocar em risco o relacionamento intencionalmente".

Nos últimos tempos, o CEO da Apple, Tim Cook, já vinha provocando as rivais sobre privacidade dos usuários, uso de dados e ameaçando fechar o cerco. Essa foi a oportunidade encontrada para uma resposta mais dura, no que analistas apontam como uma "reação poderosa" e "uma mostra de como a Apple pode afetar ambas as empresas". Apesar de se declarar como vítima na situação, nem todo mundo ainda está feliz com a Apple pelo excesso de permissões e poder que a companhia tem sobre os usuários.

O que dizem as empresas

Nos Estados Unidos, senadores já começaram a questionar o Facebook sobre o caso - um deles acusou a rede social de estar "grampeando" adolescentes no país. É provável que o caso ainda dê mais dor de cabeça para a empresa - se for descoberto que europeus estavam envolvidos na pesquisa ou sofreram efeitos dela, o Facebook ainda pode ser enquadrado na nova lei geral de dados europeia.

Em sua defesa, o Facebook alegou que a pesquisa não era secreta e que não visava espiar os participantes, além de pedir consenso para que a pesquisa fosse conduzida. A rede social ainda disse que menos de 5% dos participantes eram adolescentes e todos tiveram um consentimento assinado pelos pais.

Já o Google, após ser questionado sobre o aplicativo Screenwise, afirmou que removeria o app do programa de desenvolvimento e desabilitaria do sistema iOS. A empresa afirmou que cometeu um erro e pediu desculpas, afirmando que o app era voluntário. O Google ainda disse que era honesto com os usuários sobre como os dados eram usados.

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