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Fyre Festival: sucesso da Netflix expõe falsidade da "cultura de Instagram"

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOIL, em São Paulo

08/02/2019 04h00

Lançado há algumas semanas, um novo documentário da Netflix repercutiu nas redes sociais e deixou até celebridades como a cantora Anitta, que comentou sobre o filme no seu Instagram, espantadas. 'Fyre Festival: Fiasco no Caribe' conta os bastidores do fracasso de um novo festival de música num paraíso caribenho.

Há inúmeros elementos que levaram ao absurdo fiasco desse festival e poderíamos passar o texto todo enumerando-os. Mas vamos nos ater a um: a participação das redes sociais no frenesi criado em torno do Fyre Festival --e também no seu fracasso quase inacreditável.

Algumas informações para começar a história: o Fyre aconteceria em 2017 numa praia privada do Caribe e teria bandas populares como blink-182, Major Lazer e Disclosure. Os convites tinham preços estratosféricos e prometiam acesso a uma "experiência musical imersiva", luxo e exclusividade.

Só que virou um pesadelo.

Expectativa: influenciadores e paraíso

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Belas modelos participaram de vídeo de divulgação do festival Imagem: Reprodução

A estratégia por parte dos organizadores, representados principalmente pelo empresário Billy McFarland e o rapper Ja Rule, parecia perfeita. Eles perceberam o poder das redes sociais e foram espertos de achar que os influenciadores seriam decisivos para o sucesso da empreitada.

O documentário conta em detalhes como a organização se preparou para divulgar o festival. McFarland e seus pares incentivavam que uma câmera os seguisse para todos os lados, filmando as decisões tomadas pelas pessoas envolvidas no projeto. Ou seja: não faltou material para o filme.

O primeiro grande passo do departamento de marketing foi levar para uma festa na ilha paradisíaca do Caribe supermodelos e influenciadores, como Alessandra Ambrósio, Hailey Baldwin, Emily Ratajkowski e Bella Hadid. As belas mulheres foram filmadas se divertindo em barcos, brincando com porcos, andando de jet ski, curtindo fogueira, dividindo drinks e uvas... Pareciam viver o ápice de suas vidas num cenário de águas transparentes e areia branca e, claro, registraram este momento no Instagram.

Pagas para participar dessa festa inicial, as modelos posteriormente apareceram em um vídeo promocional do Fyre Festival que deixou a internet em polvorosa. Era tudo perfeito.

A divulgação do vídeo (veja ele completo no topo do texto) foi acompanhada de uma campanha de marketing enorme nas redes sociais. O documentário cita, inclusive, que Kendall Jenner teria recebido US$ 250 mil para divulgar em seu Instagram o festival com o termo "#fyrefestival" e um desconto para seguidores.

Estamos vendendo uma ilusão para perdedores, para o homem comum do centro dos Estados Unidos 

Billy McFarland, organizador do festival, em cena flagrada pelas câmeras

Em 48 horas, foram vendidos 95% dos ingressos, que custavam de milhares a centenas de milhares de dólares, de acordo com o tipo de acomodação e outros mimos.

A expectativa das pessoas era de viver a primeira edição de uma nova moda que seria lembrada por anos.

Realidade: o Instagram da vida real

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Fyre Festival prometia um cenário paradisíaco Imagem: Reprodução

Mas quem pagou pelo convite não levou o prometido --do momento em que subiu no avião (comercial velho, não privativo como aparecia no vídeo de divulgação) até sair do "paraíso". Ao chegar às Bahamas, as pessoas encontraram tendas inundadas e sem luxo algum, desorganização, falta de comida e água, iluminação e som ruins, malas perdidas, fila enormes. Os artistas que deveriam se apresentar começaram a cancelar. Quem queria ir embora não encontrava voo.

Foi o Instagram da vida real 

Jillionaire, DJ e produtor

O festival vendeu nas redes sociais só as coisas maravilhosas e deixou de lado os problemas. Soa familiar?

Foi erro atrás de erro. Remendo atrás de remendo. Para resumir: pouco tempo antes da festa, os organizadores foram expulsos da ilha paradisíaca onde deveria acontecer o evento e precisaram achar um outro lugar para acomodar todo mundo nas condições que já haviam vendido. Ou seja, quartos de frente para a praia e cabanas exóticas para milhares de pessoas.

Nos dias anteriores ao fim de semana dos shows, a desconfiança começou a crescer e os clientes recorreram ao Instagram para tentar tirar dúvidas sobre como estava o festival --afinal, não era por lá que eles se divulgavam? "Vocês podem mandar fotos das acomodações?" "Não tenho detalhes do meu voo!" E, é claro, os comentários passaram a ser apagados.

Um site surgiu só para evidenciar tudo de falso que havia sido vendido, com fotos diárias e reais das obras. A confusão foi tanta que a equipe contratada para as redes sociais passou a achar a ação tão absurda que se demitiu.

Um tweet marcou fiasco

Se o festival veio das redes sociais, ele também morreu por meio delas. Mas, ao contrário da divulgação, não foi necessário o pagamento de milhões de dólares em influencers para que o escândalo fosse exposto.

Modelos famosas postando um quadrado laranja foi o que construiu o festival. E um garoto com 400 seguidores postando a foto de um sanduíche de queijo, que viralizou, acabou com ele

 Mick Purzycki, CEO da Jerry Media, contratada para divulgar o festival nas redes sociais

Reprodução
Imagem que viralizou do Fyre Festival Imagem: Reprodução

A tal foto foi postada por uma conta do Twitter e mostrava a comida distribuída pelo festival. Em um isopor, estava um pão com queijo e salada. Não era nem de perto a alimentação feita por chefs prestigiados e com requintes luxuosos que a organização havia prometido.

Quando a foto viralizou, as "pessoas normais" que até então deveriam invejar a festa passaram a detonar o festival. Não há nada que a internet goste mais do que um alvo fácil para tirar sarro.

Processos e consequências

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Vídeo de divulgação fez que 95% dos ingressos fossem vendidos em poucas horas Imagem: Reprodução

Muita gente perdeu muito dinheiro, McFarland foi processado e preso --ficou pouco tempo detido e continuou fazendo negócios duvidosos. Mas, um detalhe chama a atenção: os influencers também sofreram ações na Justiça por causa das propagandas feitas para o festival.

Os advogados entenderam que os influenciadores ajudaram e tiveram responsabilidade no fiasco e quiseram dar uma pressionada. A defesa deles afirmou que eles foram pagos para uma divulgação, o que ocorre com frequência no meio, mas a lição funcionou.

Bella Hadid chegou a pedir desculpas a seguidores, e Kendall Jenner deletou o post publicitário. Desde então, a pressão para que fique explícito quando uma postagem é publicidade paga cresceu.

Se o desastroso evento serviu para algo, foi para ensinar o básico da internet: não acredite em tudo que está nas redes sociais.