Topo

Tecnologia

Inovação


De fazenda virtual a celular caça-bactérias: as previsões futuristas da IBM

Helton Simões Gomes

Do UOL, em San Francisco*

12/02/2019 09h51

Você se arrisca a dizer como será o futuro daqui a cinco anos? O time de pesquisa da IBM se arriscou e apresentou sua aposta de cinco inovações tecnológicas e científicas que devem mudar a forma como você lida com o mundo dentro dos próximos anos.

As ferramentas em que a gigante da tecnologia deposita suas fichas estão sendo desenvolvidas em seus laboratórios ou no de outras empresas. São tecnologias como a criação de clones virtuais de uma fazenda ou do uso do celular para achar bactérias no alimento que você está prestes a comer.

Todos os anos fazemos esse exercício de prever quais são as cinco tecnologias que em cinco anos achamos que estarão transformando o mercado

Ulisses Mello, diretor do laboratório de pesquisa da IBM no Brasil

Algumas das previsões feitas anteriormente e que vingaram foram a das cidades inteligentes, a conexão do mobiliário urbano para que responda a gestos do cidadão e colete informações para melhorar políticas públicas, e da criptografia quântica, uma evolução da criptografia tradicional para se adaptar à chegada dos computadores quânticos.

Divulgação
Sensores de câmera equipados com inteligência virtual darão ao celular a capacidade de identificar bactérias Imagem: Divulgação

Celular versus bactérias

O mesmo celular que você usa para conversar com conhecidos ou jogar games será usado para identificar se a sua comida está contaminada. Sensores acoplados ao aparelho capaz de coletar imagens microscópicas usarão inteligência artificial para detectar traços de bactérias. 

A IBM espera que o uso desses aparelhinhos possa diminuir a identificação de um agente patogênico de dias para segundos. A tecnologia, ainda em desenvolvimento pelos pesquisadores da IBM, pode virar um teste rápido, como o exame de gravidez de farmácia, diz Mello.

"Com esses testes rápidos, as pessoas vão poder ter respostas rápidas pra perguntas como 'Posso tomar essa água?', porque é naquela hora que ela tá com sede. Não dá pra esperar o resultado [de um exame de laboratório]"

Divulgação
Fazendas ganharão clones no mundo real, que reproduzirão do solo e recursos ambientas ao maquinário presente nas propriedades agrícolas Imagem: Divulgação

Clone digital de fazendas

Outra das previsões da IBM é uma evolução de uma ideia já existente atualmente mas que ainda soa a ficção científica. Diversos segmentos da indústria aderiram ao chamado gêmeo digital, um sistema que usa as características de qualquer coisa no mundo físico para criar uma réplica virtual - isso mesmo: um clone que existirá apenas no mundo digital. Mello dá o exemplo da Boeing, que antes criava uma réplica em tamanho real do projeto do avião para testar em túneis de vento, por exemplo, qual design melhor se adequaria ao ambiente. Hoje em dia, essa réplica é feita digitalmente, assim como os testes.

A IBM prevê que, em breve, será comum criar clones digitais de fazendas. Esse gêmeo digital reproduzirá com precisão as atividades da propriedades agrícolas, os recursos à disposição, o maquinário. Também mostrará qual a produtividade potencial nos anos seguintes considerando o clima para a região e características do solo e das características ambientais. Esse gêmeo  poderá ser acessado por produtores, fornecedores de equipamentos agrícolas, distribuidores de alimentos, departamentos de agricultura e saúde, bancos e até organizações humanitárias em todo o mundo. Isso poderá levar a um compartilhamento de recursos, aumentar a produtividade das terras e ampliar a segurança alimentar.

A gente vai ter um volume de dados que vai melhorar a tomada de decisão

Ulisses Mello

Ele diz que não há nada de estranho em aplicar um processo típico de indústrias ao agronegócio. "Já há muita gente que enxerga uma fazenda como uma indústria, em que você planta, colhe, empacota e distribui. A diferença é que há riscos maiores, como controlar de pragas e prever o clima." Fazendas no Brasil e na África do Sul já mantêm clones virtuais de suas fazendas.

Divulgação
O blockchain, a tecnologia por trás do sucesso do bitcoin, começa a ser usada para mapear os vários elos da cadeia de produção de alimentos para evitar o desperdício de comida Imagem: Divulgação

Blockchain da comida

Apesar de o bitcoin não atrair mais tanta atenção, a tecnologia que representa espinha dorsal da moeda virtual, chamada de blockchain, deve ter vida longa e ser usada cada vez mais. Ela funciona como um livro contábil digital, em que há diversas cópias distribuídas pela internet. Toda transação é registrada nele - no caso do bitcoin: quem mandou, quem recebeu e quanto foi essa quantia. A aposta da IBM é que o blockchain seja usado para rastrear o caminho de um alimento, do momento em que é plantado até a hora em que você o compra. 

Mello conta que empresa começou a desenvolver uma solução de blockchain para a produção de alimentos para identificar de onde vieram produtos que tinham sido contaminados ou apresentavam alguma inconformidade. Dessa forma, seria possível descartar apenas o lote com problema, em vez de se livrar de todo o estoque.  

Só que a IBM notou que o poder dessa tecnologia é maior do que apenas indicar qual foi o produtor na África de uma baciada de mangas com problemas. A ideia é acabar com as fontes de desperdício de comida.

"A gente sabe que 40% e poucos da produção de comida não acaba sendo comida. É perdida por problemas de transporte, refrigeração. Ao rastrear [toda a cadeia] com essa precisão toda, dá para identificar os problemas e gargalos que estão gerando desperdício."

Isso é possível porque os dados armazenados na blockchain mostram com detalhe qual elo da cadeia passou adiante menos comida do que recebeu.

Divulgação
Identificar os DNAs presentes em uma amostra ajudará a detectar a presença de micróbios nocivos Imagem: Divulgação

DNA de micróbios

Não seja tão rápido em achar que todos os micróbios são ruins. Alguns contaminam sua comida, é verdade. Mas outros são inofensivos. Como saber qual é qual? A resposta pode estar no DNA deles. 

Para a IBM, levantar os perfis genéticos de organismos que estão presentes na saliva de alguém ou na casca de uma fruta ajudarão a identificar se há alguma bactéria que cria algum desequilíbrio. Mello explica que nem será preciso traçar todo o DNA desses microorganismos. Bastará apenas uma parte de RNA ou DNA que possa ser associada a uma determinada cultura.

Divulgação
Um processo químico de reciclagem permitirá que um plástico seja reutilizado diversas vezes Imagem: Divulgação

Reciclagem química

Atualmente, a reciclagem de plástico tem um limite. Os produtos criados a partir do material processado não podem ser reciclados novamente infinitamente. Há um processo químico chamado VolCat, no entanto, que permite que o plástico, da garrafa pet ao poliéster, possa ser reciclado indefinidamente.

Esse processo consegue reduzir um item de plástico a suas partículas moléculas mais elementares. Dessa forma, é possível usá-las para criar outros objetos e repetir o processo diversas vezes. O material que é fruto do processo pode ser colocado diretamente em máquinas que fabricam plástico para virar novas peças e objetos. Os oceanos agradecem.

*O jornalista viajou a convite da IBM