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O que esperar da MWC: overdose de celulares dobráveis e briga por 5G

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Logo de cara, os celulares dobráveis já roubaram as atenções Imagem: Reprodução

Helton Simões Gomes

Do UOL, em Barcelona (Espanha)*

2019-02-25T04:00:00

25/02/2019 04h00

Feiras de tecnologia geralmente são um apanhado gigante de grandes promessas e muita frustração. A edição deste ano da Mobile World Congress (MWC), a maior delas quando se trata de tecnologia móvel, começa oficialmente nesta segunda-feira (25) com a grata surpresa de ser o palco onde pelo menos duas revoluções vão ganhar corpo: o 5G e a onda dos smartphones que se dobram.

Por um lado, diversas fabricantes prometem apresentar seus celulares dobráveis para fazer frente à Samsung e ao Galaxy Fold. Isso vai arejar a indústria do smartphone que, apesar de aumentar telas, matar botões e colocar furos em tudo que é canto dos displays, não promovia uma mudança tão radical assim no design de seus aparelhos desde? bem, desde o iPhone, o marco inicial da coisa toda. 

Por outro lado, o 5G deixará de ser só conversa. Além de conectar todas as coisas, do seu celular a carros autônomos, a banda larga móvel ultrarrápida substituta do 4G é pano de fundo de uma tremenda disputa internacional: governo dos Estados Unidos versus Huawei, a chinesa líder mundial em equipamentos de telecomunicação.

No MWC, o que está quente vai ferver: a chinesa, uma das estrelas do show, praticamente joga em casa, pois é líder na Europa; já os norte-americanos querem convencer governos a pensar duas vezes antes de apoiarem na Huawei suas redes futuras de 5G. Motivo? Dizem que a China está de olho.

Por tudo isso, o MWC deste ano pode definir o que você carregará no bolso nos próximos anos e como sua internet será. Melhor prestar atenção.

Dobre, mas se não curve

Vamos começar com os celulares dobráveis. Desde que Steve Jobs subiu ao palco e mostrou ao mundo o primeiro iPhone, você aprendeu que smartphone é assim: tem o corpo retangular, tela sensível ao toque, alguma(s) câmera(s) e roda uns programinhas. Mas isso foi em 2008. 

Tire seu celular do bolso, compare com a descrição acima e pense no que mudou. A tela aumentou. As fotos melhoraram. Ele roda serviços mais complexos - apesar de sucesso mesmo serem os mais simples: o WhatsApp tá aí para provar. A bateria, apesar de você não acreditar, melhorou bastante. Mas a cara dele é a mesma.

É esse marasmo que os celulares dobráveis vieram para sacudir. E, olha, já está sacudindo.

A Samsung provou disso na semana passada: lançou o S10 com câmeras que endireitam fotos tortas, carregam outros aparelhos apenas encostando neles, reconhece sua digital só de você encostar na tela e até possui uma versão com 5G. Parece incrível.

Mas ela também mostrou o Galaxy Fold, que se dobra ao meio para permitir que você o use como um smartphone regular e, quando aberto, coloca na sua mão um tablet, em que é possível usar três aplicativos ao mesmo tempo. E o Fold dobrou a apresentação e a colocou no bolso. Só se falou dele.

A sul-coreana reinou durante pouquíssimo tempo como a única a ter o seu modelo dobrável. Terá a companhia justamente das chinesas, as empresas que mais crescem no mundo. Huawei e Xiaomi mostraram seus aparelhos no MWC em eventos antes da feira.

A aposta da Huawei nessa briga é o Mate X, que, em comparação com o Galaxy Fold, é mais fino (11 mm x 17 mm) e, quando aberto, tem tela maior (8 polegadas x 7,3 polegadas).

Outra aparente vantagem sobre o rival sul-coreano é que ele já vem com capacidade de acessar o 5G. Por outro lado, vai custar 2.299 euros (R$ 9.777), enquanto o dobrável da Samsung vai ser vendido por US$ 1.980 (R$ 7.702). 

Já o smartphone dobrável da Xiaomi se dobrará em três partes, e isso é tudo que se sabe sobre ele. Agora, se são bons de usar ou se engasgam a toda hora, só saberemos durante o MWC.

Correndo por fora

Os anos anteriores, no entanto, mostraram que outsiders abusados podem roubar a cena. Nenhum aparelho chamou mais atenção em 2018 do que a renovação do Nokia 3300, trazido diretamente dos anos 1990, onde fez sucesso como o telefone de "Matrix", pela finlandesa HMD. E nem smartphone ele era: era só um "burro-fone", nos moldes dos antigos modelos, que aprendeu alguns truques novos como acessar o WhatsApp e manteve o carisma ao trazer de volta "Snake" - ou, cá entre nós, o jogo da cobrinha.

A HMD pretende chamar alguma atenção novamente neste ano, mas não com uma reedição e, sim, com um aparelho com incríveis cinco sensores de câmera na parte traseira. A expectativa, claro, é que a empresa explique para que serve tanta câmera.

Já a LG mostrou um aparelho que dispensa falantes para tocar áudio, já que o som de músicas, vídeos ou jogos é emitido pelo próprio display. Essa tecnologia até já existe, mas apenas nas TVs mais ultramodernas que estão longe de chegar a sua sala de estar.

5G

Mas o que seriam das novidades citadas acima se você não puder mostrar ao mundo a foto tirada com seu aparelho de seis câmeras, ou ver um vídeo em um dispositivo com som na tela ou ainda conversar com amigos no WhatsApp na mesma tela dobrável em que vê um vídeo no YouTube e faz uma busca no Google? Pois é, para tudo isso você precisa de internet. E ela está prestes a mudar graças ao 5G.

Essa tecnologia permite velocidades até 20 vezes maiores que o 4G - que, apesar de você não notar, já é mais rápido que o wi-fi no Brasil. Ela vai também reduzir o tempo de resposta entre uma ação e outra no mundo conectado, algo chamado tecnicamente de latência - é isso que dá a sensação de seu adversário em um jogo online estar mais rápido que você.

Mas tem mais: o 5G vai permitir que diversos aparelhos se conectem à internet sem que um congestionamento enorme de dados aconteça e nada funcione direito. Não só TVs e videogames, mas de eletrodomésticos, como geladeiras e panelas elétricas, a equipamentos urbanos, como semáforos e câmeras, passando por máquinas de todo tipo, como carros que dirigem sozinho, drones e sistemas de cirurgia à distância.

Tudo isso faz com que o potencial dessa tecnologia seja enorme. E os negócios feitos para que ela funcionem também. Esse detalhe nos trás à treta entre EUA, que sempre esteve na dianteira quando o assunto eram novas tecnologias, e a Huawei, que agora está na ponta para fornecer os aparelhos necessários para fazer redes 5G decolarem.

Os EUA já acusam a chinesa de roubar propriedade intelectual desde o começo dos anos 2000. Essa acusação foi engrossada com a suspeita de que a empresa pode colaborar com o Partido Comunista da China, o que seria desastroso visto que ela está presente na base da telecomunicação do mundo todo. No ano passado, os norte-americanos baniram o uso de produtos dela por diversas órgãos federais.

O lance de maior tensão foi a detenção da presidente financeira da empresa, Meng Wanzhou, no Canadá, a pedido dos EUA. Ela ainda está por lá aguardando extradição para o território norte-americano ou outro desfecho. A acusação é de que a Huawei furou o embargo dos EUA a países como Coreia do Norte e Irã e vendeu a eles produtos que continham propriedade intelectual norte-americana. No processo judicial movido pelo Departamento de Estado, há ainda acusação de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

* O jornalista viajou a convite da Huawei.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado anteriormente, é a Coreia do Norte que sofre embargos dos Estados Unidos, não a Coreia do Sul. O erro foi corrigido.