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Inteligência artificial


Há um limite para a consciência nas máquinas? Exposição levanta a questão

Divulgação
Exposição propõe um olhar artístico para a inteligência artificial e a computação quântica Imagem: Divulgação

João Paulo Vicente

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-03-28T14:00:26

28/03/2019 14h00

Resumo da notícia

  • "Consciência Cibernética [?] Horizonte Quântico" está no Itaú Cultural, em São Paulo
  • Exposição traz obras que utilizam inteligência artificial e robótica para questionar limites
  • Quando podemos considerar que as máquinas têm consciência?

Duas lâmpadas cirúrgicas da década de 50 conversam entre si. Transformadas em robôs, as máquinas leem posts em redes sociais e comentam o conteúdo deles. Em russo do século 19, como se contemporâneas de Dostoiévski. E não adianta tentar chegar perto - elas fogem de humanos e só estão interessadas em si mesmas.

Criada pelo austríaco Thomas Feuerstein em parceria com o Laboratoria Art&Science Foundation, da Rússia, a obra dá a tônica do que pode ser visto na exposição Consciência Cibernética [?] Horizonte Quântico, que fica no Itaú Cultural até meados de maio. Borgy & Bees, como são chamadas as lâmpadas, são guiados por um tipo de inteligência artificial chamada rede neural artificial que dita como devem se comportar.

A questão é: isso faz delas conscientes? Do ponto de vista objetivo, a resposta é não. Do filosófico, fique à vontade para divagar. "É muito difícil definir o que é consciência, o que é inteligência", diz Marcos Cuzziol, gerente do Núcleo de Inovação do Itaú Cultural e responsável pelo conceito da mostra.

Ele aponta a duas obras do turco Memo Akten interpretam imagens a partir de um algoritmo para criar novas cenas. "Há um determinismo na computação. São uma sequência de instruções executadas. Mas ela é tão complexa e rápida que não nos é possível prever o que acontece", explica. "Uma rede neural artificial é isso, eu treino ela com imagens mas não faço ideia do que vai propor depois de treinada. Não há mágica, o que exibe tem um determinismo, mas um determinismo que escapa da percepção".

Enquanto Cuzziol fala, um piano explode a tocar aleatoriamente ao seu lado. É Cloud Piano, do americano David Bowen. Ligados a dedos robóticos, um software transforma o movimento das nuvens captadas por um câmera em uma música. Naquele momento, no entanto, um técnico fazia os ajustes finais na câmera - e a interpretação feita pelo algoritmo dessa imagem foi uma cacofonia interessante.

Inteligência quântica

Se hoje há limites para o alcance da inteligência artificial, a computação quântica pode levar esse campo para outro patamar. Visto como uma das fronteiras a ser conquistada na computação, a ideia de uma máquina quântica é complexa de ser explicada. Grosso modo, enquanto num processador tradicional um bit equivale a um 0 ou um 1 - dois valores diferentes de informação -, num processador quântico um bit pode ser o 0 e o 1 ao mesmo tempo - ele possui todos os valores possíveis de informação.

Na prática, isso significa que um algoritmo quântico funciona em uma magnitude diferente do que estamos acostumados. Cuzziol explica que enquanto uma rede neural, por exemplo, escolhe a melhor opção dentro de um conjunto aleatório de soluções possíveis para um problema, uma inteligência artificial quântica conhece todas as soluções possíveis.

"Na minha opinião, isso muda muito inteligência artificial", diz ele. "A gente passa a ter a melhor solução possível e não uma solução possível."

Hoje, no entanto, a computação quântica ainda é uma realidade um pouco distante. Há máquinas do tipo fabricadas pela IBM, assim como por uma empresa canadense chamada D-Wave, mas ainda em estágio embrionário. Da mesma forma, existem simuladores quânticos, mas com alcance limitado.

Para dar um desse universo, a exposição no Itaú Cultural traz duas obras que se relacionam com o tema. Uma delas foi criada por Rejane Cantoni, única brasileira participante. A instalação, chamada QUANTUM, é uma espécie de simulador de realidade quântica - um longo corredor onde as sombras dos visitantes são decompostas em partículas que se comportam de acordo com alguns princípios da física quântica.

"Nós podemos operar sobre você duas regras quânticas. A superposição de estados, uma coisa de estar em dois lugares ao mesmo tempo, passado, presente e futuro que estão de certa forma em camadas, sobrepostos. E a outra ideia é do entanglement [entrelaçamento], da minha silhueta poder em algum momento se associar a sua. O que você fizer, a minha passa a fazer", explica Rejane, que também fez a pesquisa por trás da exposição. "Mergulhar nessa aventura ajuda a entender conceitos que não correspondem o que a gente tem da realidade de forma intuitiva", diz.

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A instalação ?Ton/2 dos suíços Cod.Act pode parecer restos de uma construção, mas é um robô que se move e emite sons de maneira aleatório Imagem: Divulgação

Robôs dançarinos

Para um desavisado, a instalação ?Ton/2 dos suíços Cod.Act pode parece os restos de uma construção, um longo anel de plástico resistente com motores de torção no interior. Na verdade, é um robô que se move e emite sons de maneira aleatório, com uma leve semelhança de uma cobra - ?Ton lê-se píton. Ela anda solta pelo ambiente da mostra e tem um comportamento tão imprevisível que a cada 20 minutos é preciso desligá-la para levá-la de volta ao ponto inicial.

Ao lado da ?Ton/2, fica uma das obras mais impactantes da mostra. É um registro em vídeo da performance do bailarino japonês Mirai Moriyama com um robô Alter, desenvolvido por Justine Emard em parceria entre as Universidades de Osaka e Tóquio. A medida que Mirai dança e interage com Alter, o robô reage na tentativa de mimetizar o humano.

Todo o processo é hipnotizante. Mirai fala e Alter tenta imitá-lo com uma voz grave, distorcida e quase assustadora. Em outro momento, mexe as mãos de maneira mecânica para emular o parceiro.

Aqui, a discussão sobre a consciência da máquina ganha contornos mais tangíveis. Alter, é óbvio, age de acordo com uma série de algoritmos - em determinados momentos, os códigos matemáticos chegam ser exibidos no vídeo. Esqueça isso, no entanto, é a impressão para quem assistir é de que robô se esforçar para superar as limitações da sua natureza e se tornar igual ao bailarino. Não à toa, a primeira referência que vem à cabeça são os replicantes de Blade Runner.

Alter, vale reforçar, não está presente na mostra. Apenas o vídeo da experiência.

Engenheiro de formação, Marcos Cuzziol começou a se interessar por inteligência artificial - ele prefere chamar de "comportamento" artificial - nos anos 90. Em meados daquela década, Cuzziol foi um dos desenvolvedores do Incidente em Varginha, um jogo de tiro em primeira pessoa lançado em 1998 que virou uma espécie de sucesso cult.

Quando trabalhava na sequência do Incidente em Varginha, que nunca foi lançada, foi convidado para auxiliar em uma exposição chamada Imateriais, também do Itaú Cultural, que utilizava o código do jogo para criar um ambiente de realidade virtual. Desde então, tem pesquisado a intersecção entre tecnologia, inteligência artificial e arte.

Para ele, no entanto, os visitantes não precisam ter qualquer familiaridade com a área para aproveitar a exposição. "Na verdade, o que acho principal de uma mostra como essa é que esses algoritmos não são usados para capturar dados, propor produtos ou como ferramenta de uma empresa", fala. "Você consegue dar um passo atrás, sair da loucura do Netflix sugerindo filme e do Facebook indicando posts e ver como eles funcionam normalmente. É uma perspectiva diferente."

Serviço

Consciência Cibernética [?] Horizonte Quântico está em cartaz no Itaú Cultural, na avenida Paulista, nº 149, em São Paulo. A exposição vai até o dia 19 de maio.