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Como as chinesas conseguem oferecer celulares muito bons e mais baratos?

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Smartphone da chinesa Xiaomi Imagem: Getty Images

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-03-30T04:00:00

30/03/2019 04h00

Mesmo sem grande representatividade por aqui, os celulares chineses estão ganhando cada vez mais espaço entre os brasileiros por serem bonitos e potentes, capazes de fazer frente aos melhores aparelhos vendidos por marcas mais conhecidas. Mas o que chama muito a atenção de quem se interessa por um dele é o preço.

Esses celulares costumam ter especificações muito acima do que nos acostumamos a ver, custando menos que os concorrentes.

Um Xiaomi Redmi Note 5, por exemplo, com câmera dupla, 4 GB de RAM, 32 GB de armazenamento e bateria de 4.000 mAh é listado por R$ 985 em marketplaces do Brasil. Um celular com especificações próximas desse aparelho seria o Moto Z3 Play, que custa R$ R$ 1.450 à vista. Apesar do celular da Motorola trazer o dobro de armazenamento do Redmi (64 GB), tem só 3.000 mAh na bateria.

É claro que você pode encomendar algo parecido em lojas onlines do exterior e pagar ainda menos, mas isso requer uma boa dose de sangue frio para aguardar a entrega e lidar com a alfândega.

Isso se repete com diversos smartphones, especialmente se considerarmos o segmento dos aparelhos intermediários e intermediários premium -- entre os tops de linha também há muitas vantagens de preço, mas em menor escala.

Diante disso é inevitável perguntar: como isso é possível?

Há uma série de fatores que, em conjunto, pesam a favor de tornar os celulares de marcas chinesas mais competitivos. Nenhum deles, porém, é a suposta baixa qualidade dos produtos oriundos da China.

"Os celulares chineses passam por um processo que outros produtos já passaram, que é o de gerar desconfiança inicialmente para serem reconhecidos pela sua qualidade com o passar do tempo", explica Reinaldo Sakis, gerente de Pesquisa e Consultoria de Consumer Devices da IDC, que também cita a experiência na fabricação:

Os principais componentes que eles usam, como processadores e memória, são os mesmos de outros produtos. Além disso, os chineses se beneficiam da expertise de quem está fabricando a maior parte dos aparelhos do mundo
Reinaldo Sakis, gerente de Pesquisa e Consultoria de Consumer Devicesda IDC

Sakis cita como exemplo os primeiros carros japoneses que chegaram ao mercado norte-americano, entre os anos 1970 e 1980. Tidos como de baixa qualidade, eles acabaram se tornando referência nessa área com o passar do tempo.

"Essa globalização de componentes acabou com velha ideia de que os produtos chineses utilizam peças de segunda linha. Hoje, as diferenças entre as marcas se concentram em pequenos detalhes estéticos como parafusos, metais brilhantes e cores para cada determinado modelo", diz o professor João Carlos Lopes Fernandes, do curso de Engenharia da Computação do Instituto Mauá de Tecnologia.

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"As companhias chinesas têm crescido muito em mercados internacionais. Um exemplo é o OnePlus top de linha com 256GB, que é superior a modelos famosos como o Samsung Galaxy S9 em vários aspectos e chega a custar quase 40% menos", acrescenta Fernandes.

Componentes sem royalties

Tina Lu, analista sênior da consultoria CounterpointResearch, conta que as empresas às vezes usam componentes de outros fornecedores, geralmente em itens secundários, mas que acabam tendo um impacto considerável no preço final.

"Procurar fornecedores alternativos acaba sendo uma forma de diminuir os royalties pagos para grandes empresas, o que ajuda a diminuir os custos do aparelho e, consequentemente, seu preço"
Tina Lu, analista sênior da consultoria Counterpoint Research

Para termos uma ideia do quanto esses royalties impactam no preço final de um smartphone, basta olharmos para alguns dados levantados em 2014 e são tema de um estudo produzido em conjunto pela vice-presidente de assuntos corporativos e legais da Intel, Ann Armstrong, e os advogados Joe Mueller e Tim Syrett, que já representaram a Apple.

De acordo com o material, cerca de 30% do preço de um smartphone corresponde ao pagamento de royalties e direitos para empresas detentoras de patentes dos componentes e soluções usadas. Muitas vezes, o custo de um componente é inferior ao valor cobrado pelos seus direitos de uso.

Muita gente para indicar caminho certo

Outro fator que pesa a favor das fabricantes chinesas de smartphones é o fato de elas serem chinesas.

De acordo com dados de um estudo sobre o mercado global de dispositivos móveis feito pela consultoria Newzoo e divulgado em maio de 2018, há mais de 775 milhões de usuários de smartphones na China, o que corresponde a 55,6% da população total do país. Isso mostra que, além de potencial para crescer, conquistar 1% dessa base instalada significa vender mais de 7,7 milhões de aparelhos.

"Pelo tamanho do mercado chinês, uma fabricante que tenha uma boa participação por lá acaba sendo relevante no mundo. A China representa por volta de 30% do mercado global de smartphones, então se uma empresa está entre as dez maiores vendedoras de smartphones por lá, é praticamente certeza que ela estará entre as dez maiores do mundo", diz Sakis.

Escala barateia preço final

Ele também aponta que ter à disposição um mercado desse tamanho também ajuda na hora de validar novidades e tendências nos produtos, facilitando que as fabricantes escolham qual caminho seguir.

Vender muito significa, por tabela, produzir muito. E por terem esse ganho de escala de produção, as fabricantes chinesas também conseguem preços melhores junto aos fornecedores.

Soma-se isso ao fato de que, por terem um mercado doméstico gigantesco, marcas chinesas tendem a ganhar em volume de vendas, não no lucro por unidade. "A produção é massiva. As marcas mais bem-sucedidas, como Huawei, Xiaomi e Oppo vendem seus produtos com uma margem de lucro pequena", explica Lu.

Menos lucro por aparelho

Um exemplo extremo disso é a Xiaomi. Um estudo feito pela Counterpoint Research indica que a marca chinesa ganha meros US$ 2 por smartphone vendido. O valor é ínfimo se comparado com os US$ 151 de lucro da Apple em cada iPhone e dos US$ 31 da Samsung por unidade.

A estratégia extremamente agressiva nos preços dos smartphones - que correspondem a 70% das vendas da marca - acaba sendo compensada pelas vendas na sua loja de apps e também de serviços de conteúdo. É uma estratégia replicada nos outros 70 produtos que a marca oferta além dos celulares: cobrar pouco pelo hardware, aumentar a base de usuários e ganhar na prestação de serviços.

Outras marcas chinesas, como Huawei, Oppo e Vivo trabalham com margens mais folgadas - US$ 15, US$ 14 e US$ 13, respectivamente -, mas, ainda assim, inferiores aos valores de marcas mais tradicionais.

Claro, o custo da mão de obra

Para completar a ajuda do "fator China", há o sempre citado custo de mão de obra. "É preciso considerar a relação desse fator com a qualidade. E é nisso que o país é atrativo. Para se ter uma ideia, um país como a Argentina tem um custo do tipo 5,5 vezes superior ao da China", afirma Lu.

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Pouca propaganda

Quem assistiu aos jogos da Copa do Mundo da Rússia deve ter visto propagandas da fabricante Vivo em totens nas laterais do campo. De acordo com os especialistas consultados pelo UOL Tecnologia, essa estratégia de marketing é um caso isolado se considerarmos as fabricantes chinesas.

"Marcas como Apple e Samsung investem quantias astronômicas em propaganda, principalmente televisiva. Já os fabricantes chineses tendem a gastar pouco com publicidade fora da China e isso influencia bastante o preço dos produtos", salienta Fernandes.

Vendas pela internet

Outro fator de peso é o uso da internet para vender seus produtos. Fernandes cita a parceria comercial com sites de vendas como AliExpress, GearBest, entre outros como um fator de economia para as marcas.

Essa é um ponto também ressaltado por Lu. "Ao vender via internet, essas empresas gastam menos em distribuição, o que faz com que o sistema logístico possa ser otimizado para gerar menos custos".

Se essa estratégia faz com que as fabricantes chinesas nadem de braçada no mercado local, onde têm quatro fabricantes entre as cinco que mais vendem smartphones, o desafio é permitir que essa competitividade cada vez mais se reflita em bons resultados globais.

Por ora, a chinesa mais bem-sucedida nesse quesito é a Huawei, que chegou a ultrapassar a Apple e se tornar a número 2 em vendas de smartphones em 2018, atrás somente da Samsung, mas voltou a ocupar o terceiro lugar de acordo com o relatório mais recente da consultoria IDC. As também chinesas Oppo e Xiaomi completam o top 5.

A julgar por esses números, a fórmula do "bom e barato" tem tudo para levar os celulares chineses ainda mais longe nos próximos anos.