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Por que os internautas gringos resolveram boicotar a Amazon?

Mike Segar/Reuters
Pacote de produto enviado pela Amazon, uma das gigantes do varejo online Imagem: Mike Segar/Reuters

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

2019-04-01T15:27:34

01/04/2019 15h27

Resumo da notícia

  • Jornalistas e influenciadores dos EUA pedem que usuários cancelem conta Prime
  • No exterior, a Prime é uma assinatura que é grande fonte de renda da Amazon
  • No ano passado, a empresa bateu recordes de assinaturas e de vendas
  • Motivo da campanha é oposição aos abusos trabalhistas e comerciais da Amazon

Em um ano em que finalmente teve início o debate para a possibilidade das megaempresas de tec como Google, Facebook e Apple serem divididas, por não estarem mais dando espaço aos competidores, cresce nos EUA um movimento de clientes da Amazon para cancelar contas Prime.

A Prime é um tipo de assinatura de serviços para clientes dos EUA e outros países (não tem no Brasil) que é uma das maiores fontes de renda da empresa. Com ela é possível receber encomendas em menos tempo ou assinar o serviço de vídeo Amazon Prime Video.

No ano passado, a empresa de Jeff Bezos bateu recordes de assinaturas e de vendas no Prime Day, evento anual de descontos da varejista. Em 36 horas, os usuários "Prime" no mundo todo compraram mais de US$ 100 milhões em produtos e superaram a Cyber Monday e a Black Friday.

Mas motivados pelas crescentes notícias de abusos da Amazon, alguns jornalistas e influenciadores digitais estão estimulando nas redes sociais campanhas para convencer outras pessoas a cancelar a conta Prime, como uma forma de pressão à empresa. O movimento vem tendo uma adesão discreta desde o final de 2018.

Este ano eu tenho sido tão grata ao movimento trabalhista e tão envergonhada de como facilmente dois dias de entregas de encomendas me fizeram participar na exploração do trabalhador, que nesta Ação de Graças estou fazendo o que eu não deveria feito anos atrás: cortando a dependência da Amazon e cancelando o Prime
Jia Tolentilo, escritora da revista "New Yorker

A ceramista Marian Bull ofereceu de graça, por um período, uma caneca para cada pessoa que mostrasse uma captura de tela de seu cancelamento da assinatura Prime.

Mas o que a Amazon fez de tão ruim para merecer esse tratamento?

A lista é longa. Em janeiro, trabalhadores do maior centro de distribuição da Amazon na Espanha iniciaram greve de dois dias por uma campanha para melhores condições de trabalho e salários. Isso também aconteceu, pelos mesmos motivos, na Alemanha e Polônia, além da própria Espanha, durante o Prime Day passado.

Ainda no ano passado, foi noticiado que em alguns estados americanos um a cada três funcionários da Amazon estavam dependendo de "selos de comida" --um equivalente ao vale-refeição brasileiro-- para comer.

No Reino Unido, em 2017, segundo o "Daily Mirror", o pessoal das entregas da Amazon trabalhava em gaiolas de ferro embalando 300 itens por hora, com os chefes reclamando de pausas para o banheiro.

Não são apenas questões trabalhistas. A Amazon quase fez negócios com o governo americano para vender seu sistema de reconhecimento facial que poderia ser usado como uma ferramenta de vigilância cruel na política de tolerância zero da presidência dos Estados Unidos nas fronteiras do país. Por conta da pressão de seus próprios funcionários, recuou.

Em Nova York, a Amazon enfrentou mais pressão ao tentar abrir uma nova loja física que traria muitas vagas de trabalho, mas no processo cidades e estados concorrentes prometeram isenções fiscais gigantescas. Nova York "venceu" após abrir mão de mais de US$ 1,53 bilhão. Novamente a empresa desistiu dos planos.

Por fim, uma reportagem da "Vox" descobriu que o Serviço Postal dos EUA anteciparia a realização de 850 milhões de entregas entre o Dia de Ação de Graças e o Ano Novo de 2019, enviando cerca de 15% dos pacotes do ano inteiro em pouco mais de um mês.

E como em 2016, o transporte superou as usinas de energia como o maior produtor de emissões de dióxido de carbono nos EUA pela primeira vez desde 1979, pense em todos os caminhões que seriam precisos para cumprir as encomendas da Amazon despejando poluição no ar.

Difícil saber se a campanha para cancelar a assinatura Prime trará algum impacto significativo à Amazon e a Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo. Mas pelo menos o movimento é um sinal discreto de que algumas pessoas estão dispostas a abrir mão dos descontos e do excelente atendimento da empresa para frear seu cada vez mais impressionante poderio socioeconômico.