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Como os engenheiros do YouTube tramaram a 'morte' do navegador da Microsoft

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Internet Explorer, navegador da Microsoft Imagem: iStock

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

2019-05-04T17:18:36

04/05/2019 17h18

Resumo da notícia

  • Engenheiros sofriam ao adaptar novidades do YouTube para o IE6
  • Essa era uma das versões do navegador da Microsoft
  • A solução? Fazer os usuários deixarem de usar o IE6
  • Como? Enganaram o Google, que passou a incentivar a prática
  • Eventualmente, a fuga de usuários acabou esvaziando o IE6

As disputas entre empresas de tecnologia são bastante conhecidas, mas raramente conseguimos ver tão nitidamente os golpes baixos desferidos em uma dessas brigas. Um ex-engenheiro do YouTube, a plataforma de vídeos do Google, resolveu botar a boca no trombone: contou como ele e sua equipe ajudaram a matar há quase 10 anos uma versão do Internet Explorer, navegador da Microsoft, que eles odiavam.

A história foi contada por Chris Zacharias, ex-desenvolvedor do YouTube e do Google e deixou a companhia para fundar uma empresa de processamento de imagem. Em 2009, ele e os outros funcionários simplesmente não suportavam ter de fazer adaptações para um modelo antigo do browser da Microsoft, o IE6. A solução foi boicotar sorrateiramente o serviço da rival, o que, mesmo não tendo partido da direção da empresa, acabou virando uma política para outros produtos do Google. O fato parece não estar relacionado com a derrocada do navegador da Microsoft, mas, coincidência ou não, cinco anos depois da trama, o Google virou o líder em navegadores, com seu o Chrome finalmente superando o Internet Explorer.

Zacharias conta que a ideia para se livrar do navegador problemático surgiu informalmente, enquanto diversos engenheiros do YouTube conversavam em uma cafeteria do Google. As dores de cabeça narradas eram tantas, que o bate-papo, diz ele, tomou ares de sessão de terapia.

A cada grande ciclo [de atualização], dedicávamos, pelo menos, uma ou duas semanas só para consertar novas interfaces que não estavam funcionando no IE6.

Dentre as diversas possíveis soluções levantadas, a mais plausível era a de simplesmente impedir que o YouTube rodasse no IE6. A opção, no entanto, estava fora de cogitação.

Mesmo com toda essa dor, nós formos orientados a continuar a dar suporte ao IE6 porque nossos usuários poderiam não conseguir atualizar ou poderiam trabalhar em empresas que não dispunham de outros recursos. A essa altura, as pessoas que usavam o IE6 representavam 18% da nossa base de usuários

Foi aí que nasceu a malandragem: eles não iriam deixar de trabalhar para o YouTube rodar no IE6, mas, sim, convencer as pessoas que ainda usavam o navegador a migrar para versões mais modernas do Internet Explorer ou, quem sabe, para outros browsers, como o Chrome, do Google, ou o Firefox, da Mozilla.

Nós sonhamos abertamente com trabalhadores em todo cubículo do mundo inventando de repente razões criativas, mas voltadas ao negócio, para atualizar seus navegadores. Avós manteriam como reféns seus netos safos em tecnologias, exigindo que eles consertassem seu YouTube. O que começou como uma sessão de terapia já se materializava em um plano de verdade
Chris Zacharias

O plano: matar o IE6

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E qual era o plano? Eles fizeram o seguinte: incluíram um banner logo abaixo da caixa de texto usada para fazer buscas no site; a peça publicitária informava que: "Nós iremos encerrar o suporte para o seu navegador em breve. Por favor, atualize para um destes browsers mais modernos"; junto do texto, havia links para baixar Chrome, Firefox e o IE8.

Zacharias conta que a mensagem era propositalmente vaga, assim como o prazo em que o suporte seria encerrado. Além disso, os engenheiros sabiam que pouca gente dentro do Google notaria o banner porque quase nenhum funcionário acessava o YouTube no IE6, com exceção do próprio time de desenvolvimento da plataforma de vídeo.

Com todas as considerações feitas, só tinha mais um problema: como colocar o código do banner dentro do YouTube sem que os chefes ficassem sabendo?

Para solucionar essa complicação, os engenheiros recorreram a uma particularidade da plataforma: alguns funcionários contavam com uma autorização especial para fazer alterações sem precisar de checagem, teste ou de uma segunda avaliação. Elas eram chamados de "OldTuber", uma vantagem criada para alguns engenheiros antes de o YouTube ser adquirido pelo Google e mantida até pouco antes de o site ser completamente integrado às regras e políticas da gigante de buscas.

Era como se estivéssemos andando pela rua quando alguém nos confundiu com valets e nos deu as chaves de uma Ferrari. Para o bem ou para o mal, não éramos o tipo de gente que apenas devolvia as chaves e ia embora. Nós vimos aí uma oportunidade para mutilar permanentemente o IE6 que nunca teríamos novamente

Reprodução/YouTube
YouTube mostrou banner pedindo que usuários deixassem o Internet Explores 6 e usassem outro navegador Imagem: Reprodução/YouTube

O Google percebeu?

Quando colocaram o plano em prática, pouca gente do Google percebeu o que tinha acontecido. Primeiro, surgiu um dos responsáveis pela área de relações públicas da empresa.

Como veículos de imprensa notaram o banner e questionaram a empresa, o funcionário queria saber o que era o tal banner. "Felizmente para nós, as publicações já haviam estabelecido uma narrativa de que isso era um benefício maior para a internet. O YouTube estava liderando a mudança rumo a uma web mais rápida e com experiência mais segura para todos os usuários", diz Zacharias. Segundo ele, a única coisa que ocorreu foi terem tomado uma reprimenda do time de relações públicas do Google por não revelarem a eles uma oportunidade de a companhia ficar bem aos olhos do público.

Depois disso, surgiram dois advogados, que por algum acaso usavam o YouTube no IE6. "O medo deles era que, ao mostrar tratamento preferencial ao Chrome, nós poderíamos chegar aos ouvidos dos reguladores europeus que estavam à espreita de qualquer comportamento anticompetitivo", conta.

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A preocupação dos advogados fazia sentido, já que, de lá para cá, a União Europeia aplicou ao Google três multas bilionárias por práticas que impedem empresas rivais de concorrer livremente. Naquela época, no entanto, a dupla jurídica chegou à conclusão de que a ação não prejudicava a concorrência.

A cereja do bolo, entretanto, veio de outros times de engenharia e do próprio Google. As reclamações sobre o que o YouTube fez não só inexistiram como passaram despercebidas, porque os chefes pensaram que tinham sido copiadas de outro serviço.

Surpreso e incapaz de achar algum sentido, eu sondei um dos gerentes sobre o que ele achava do lançamento do banner. Ele respondeu: 'Ah, eu pensei que vocês tinham copiado aquilo que o Google Docs colocou'.

Zacharias diz que ouviu de um engenheiro que trabalhava no Google Docs (atual Google Drive) o que realmente aconteceu: vendo o que o YouTube fez, os desenvolvedores da plataforma, que também não morriam de amores pelo IE6, resolveram colocar o mesmo banner; só que, antes, consultaram seus chefes, que oficializaram a ação. E a coisa não parou por aí.

O Google acabou dando permissão para todos os outros sites adicionarem seu próprio [banner], que, de repente, começaram a aparecer em todos os lugares. Dentro de um mês, a base de usuários do YouTube vinda do IE6 caiu à metade e o tráfego do IE6 caiu em quase 10%, redistribuídos aos outros navegadores
Chris Zacharias

Eventualmente, diz o engenheiro, o time do YouTube contou aos chefes o que tinha acontecido, mas, ainda assim, ninguém chegou a ser punido. "Nós, de alguma forma, nos safamos com nosso plano de matar o IE 6 sem enfrentar nenhuma ação corretiva significativa."